
Quarenta anos após emocionar e divertir plateias no Brasil e no exterior, “A Marvada Carne”, de André Klotzel, volta aos cinemas em uma versão remasterizada que resgata o frescor visual, a sonoridade e a riqueza estética dessa fábula caipira que conquistou público e crítica.
A partir de 28 de agosto, o longa será exibido em salas de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Vitória, Florianópolis e Alagoas, permitindo que novas e antigas gerações vivam a experiência de assisti-lo na tela grande.
A “Marvada Carne” conta a história de Nhô Quim, um homem que vive sozinho no mato e decide buscar dois grandes desejos: carne de boi e uma esposa que cuide dele. Carula, por sua vez, sonha com um marido e desafia “Santo Antoninho” a tornar o sonho realidade. Entre santos de olhar zombeteiro, diabos sedutores e figuras do folclore, o filme costura com humor e poesia as carências e desejos universais do ser humano
Para o diretor, o relançamento de “A Marvada Carne” não é apenas a celebração de um filme que se tornou clássico, mas também uma oportunidade para discutir a importância de preservar um tipo de produção que, segundo ele, está cada vez mais raro no Brasil: o cinema que nasce do produtor independente e dialoga com o grande público.
“Naquela época, havia um pouco mais de espaço para se fazer filmes originais, criativos e que ao mesmo tempo tinham a ambição de serem populares. Hoje, criou-se uma separação artificial entre o que é cinema cultural /autoral e o que é comercial. Todo cinema é as duas coisas. Mas, infelizmente, vemos cada vez mais estímulo a filmes concebidos a partir da lógica do distribuidor, pensados para atender a um modelo de mercado já estabelecido, e poucas obras mais ousadas, com origem no realizador, que mirem também em um público amplo”, comenta Klotzel.
O relançamento também concretiza um projeto acalentado por anos pelo produtor Cláudio Kahns, que sempre defendeu a necessidade de restaurar o filme com a melhor tecnologia disponível. “Tínhamos cópias em vídeo muito ruins, e a última matriz datava de 1999. Era absolutamente necessária esta refação. Graças ao apoio do Canal Brasil e de outros parceiros, conseguimos chegar a uma master muito boa. É a memória do país que está em jogo. Preservar 100, 200, 500 filmes é preservar a alma do Brasil.”

Para Kahns, a iniciativa não é apenas uma questão de qualidade técnica, mas de compromisso cultural. “Há muitos filmes excelentes feitos nas últimas décadas que precisam ser remasterizados. A Ancine deveria ter um programa específico para isso. É um tesouro que precisa ser preservado.”
O produtor lembra que “A Marvada Carne” foi realizado com orçamento apertado, mas com uma somatória de talentos raramente reunida em uma mesma obra. “O elenco é excepcional: o saudoso Adilson Barros, Fernanda Torres em seu primeiro papel premiado aos 19 anos, Regina Casé, Dionísio Azevedo, Lucélia Machiavelli, Geni Prado, a lendária dupla Tonico & Tinoco. A direção de arte de Adrian Cooper e a cenografia de Beto Mainieri, unidas à fotografia poética de Pedro Farkas, criaram um universo visual que continua belo e atual.”



