
Depois de mais de uma década fora do Brasil, passando por países como Estados Unidos, Austrália, Irlanda e Portugal, onde mora atualmente, a atriz Paula Lafayette decidiu fazer o caminho de volta. Com passagem marcada para outubro deste ano, ela retorna ao país movida por um desejo profundo: reconectar-se com a língua portuguesa, com a cultura que a formou e com a cena artística nacional.
A atriz construiu uma trajetória internacional de peso, participando de séries como “The Purge” (USA Network) e “Vikings: Valhalla” (Netflix). Ao longo dos anos, viveu de perto os desafios de ser atriz estrangeira em grandes produções, onde os papéis oferecidos, muitas vezes, eram pequenos, rasos e estereotipados. Apesar das limitações, cada experiência foi um aprendizado, segundo ela, seja nos sets australianos, na competitividade intensa de Los Angeles ou no contato próximo com artistas renomados na Irlanda.
Hoje, aos 41 anos, ela encara o retorno como uma nova etapa da carreira: “Voltar é um ato de reconexão, de poder contar nossas histórias em nossa língua e com mais profundidade”, afirma. Entre os planos estão retomar o trabalho nos palcos, investir em dublagem [área em que já atua há mais de dez anos] e buscar oportunidades em novelas brasileiras, gênero que sempre esteve na sua lista de sonhos.
De volta ao Rio, cidade que chama de casa desde a infância, Paula traz consigo a bagagem internacional, mas também a fome de palco e a paixão pela atuação que a acompanha desde sempre.
Leia o papo completo que CHNews teve com a atriz Paula Lafayette.
Como tudo começou?
Desde muito pequena eu sabia que queria ser atriz. Minha mãe trazia VHS dos Estados Unidos, sem legenda, e foi assim que aprendi inglês: assistindo, imitando, repetindo falas. Na minha família havia a exigência de ter uma formação acadêmica, então cursei artes cênicas em uma universidade federal, uma experiência maravilhosa, mas voltada ao teatro de palco. Eu queria mais, queria me aprofundar em atuação para cinema e TV. Então fui para os Estados Unidos estudar na New York Film Academy, em Los Angeles. Tinha 24 anos, e aquele foi o início da realização de um sonho.
Como foi a experiência em Los Angeles?
Foram seis anos lá, vivendo intensamente o mercado. É uma cidade que respira a indústria do audiovisual. A concorrência é enorme, o que te obriga a elevar o nível do seu trabalho. Os americanos são multifacetados, eles atuam, escrevem, produzem, cantam, dançam. Estar em contato com artistas tão talentosos me fez crescer muito, porque a barra é sempre mais alta. Essa troca me deu profundidade como atriz e me tornou mais resiliente.

Você também trabalhou em outros países. Quais foram as principais diferenças que encontrou?
Atuei na Austrália, Irlanda e Portugal, além dos EUA. Cada país tem um jeito próprio de produzir. Nos EUA, tudo é gigantesco e você é apenas mais um entre milhares. Na Irlanda, por exemplo, o mercado é menor e você acaba tendo acesso direto a produtores de elenco e roteiristas, cheguei a trabalhar com atores como Ciarán Hinds, indicado ao Oscar. Já na Austrália consegui um papel importante graças a minha “cara de pau”. Entrei em contato com um ator pelo Facebook e isso me abriu portas. Cada país me ensinou algo, a persistir, a me adaptar e a não ter medo de pedir oportunidades.
E quais foram as maiores dificuldades nesse percurso internacional?
Os papéis para estrangeiros geralmente são pequenos, rasos e estereotipados. Muitas vezes caí no clichê da “latina”. É frustrante porque você sente que tem muito mais a oferecer. Ao mesmo tempo, sou muito grata: participei de produções relevantes como “The Purge” (USA Network) e “Vikings: Valhalla” (Netflix), que foram experiências transformadoras. Mas sim, esse limite me fez refletir muito sobre representatividade e a importância de personagens mais complexos.
Depois de tantos anos fora, o que motivou seu retorno ao Brasil?
É uma soma de fatores. Primeiro, a vontade de voltar a atuar em português, na minha língua materna. Depois, o desejo de contar as nossas histórias e estar ao lado de artistas brasileiros, em contato direto com a nossa cultura. Também pesa a parte pessoal. Minha família, minha avó de 93 anos, o amor pelo Rio de Janeiro. E claro, hoje em dia o mercado é globalizado, com as self tapes, consigo seguir fazendo testes internacionais daqui. Então, por que não ampliar o leque e também me inserir no mercado brasileiro?
Como você enxerga o cenário artístico no Brasil hoje?
Eu tenho acompanhado de perto e sinto que estamos em um bom momento. Depois de um período muito difícil para o audiovisual, percebo um respiro. Filmes brasileiros sendo reconhecidos internacionalmente, novelas e séries com qualidade incrível… Isso me emociona e me dá esperança. Sou noveleira assumida e sonho em fazer uma novela, é um gênero nosso, do qual me orgulho muito.
Quais são seus próximos passos quando voltar?
Tenho muita vontade de voltar aos palcos. Não faço teatro desde 2018, em Los Angeles, e sinto falta dessa energia. Também quero explorar mais a dublagem, que é um trabalho que já faço há mais de dez anos, inclusive para o mercado internacional. E, claro, gostaria muito de unir minha experiência fora com projetos no Brasil, talvez em coproduções. Conheci muitos artistas e produtores pelo mundo e acho que seria enriquecedor cruzar essas pontes.

Existe algum personagem dos sonhos?
Sim, adoraria interpretar um personagem biográfico. Mergulhar na vida de alguém que existiu, fazer a pesquisa de voz, sotaque, corpo. Essa transformação profunda é algo que me fascina e está no topo da minha lista.
E, para você, o que significa esse retorno?
Significa necessidade. A necessidade de atuar, de mostrar meu trabalho, de me reconectar com quem eu sou. Atuar é uma profissão dura, com muita rejeição, mas também é uma paixão que pulsa. Voltar ao Brasil é me reconectar com essa paixão de forma ainda mais verdadeira.



