
Nara Leão é um ícone para se entender a música, a cultura e a sociedade brasileira dos anos 1960, 1970 e 1980. Suas atitudes pioneiras e revolucionárias se refletem em um repertório absolutamente singular e marcam uma trajetória que reverbera mesmo após três décadas e meia de sua morte. “Os Olhos de Nara Leão”, montagem que agora estreia em São Paulo, no dia 03 de outubro, no Teatro Renaissance, é fruto do arrebatamento causado pela cantora em Zezé Polessa, que partilha o desejo de revivê-la nos palcos tendo ao seu lado, na autoria e direção do espetáculo, o amigo Miguel Falabella, parceiro em uma série de projetos teatrais. A peça chega à capital paulista após exatos 60 anos do lançamento do “Show Opinião”, considerado pela crítica especializada um marco na história cultural brasileira.
Zezé cresceu ouvindo e acompanhando a carreira de Nara através dos discos e dos muitos sucessos apresentados em festivais na TV. Durante a pandemia, ao ler uma biografia da cantora, iniciou uma profunda pesquisa que originaria sua próxima personagem. Existe vasta documentação impressa da vida e obra de Nara Leão.
Ao comentar seu desejo de interpretar Nara durante uma conversa com Falabella, ele imediatamente aceitou escrever o texto. Em apenas uma semana juntos, ainda em meio à pandemia, a primeira versão do espetáculo começou a ganhar forma. No espetáculo, Nara está em cena como se tivesse vindo de algum lugar do futuro – ou do passado – para compartilhar com o público suas lembranças e reflexões. O texto, construído em fluxo de consciência, relembra momentos e canções da artista sem seguir uma cronologia formal – um reflexo da liberdade de Nara como artista e mulher.

“Não procuro imitar o seu jeito de falar ou cantar. Existe uma liberdade em todo este processo, não poderia ser diferente com alguém que sempre foi tão livre”, comenta Zezé, que interpreta ao vivo sucessos como “A Banda”, “Corcovado”, “Marcha da Quarta-feira de Cinzas”, entre outros.
Com direção musical de Josimar Carneiro, cenário de Marco Lima e iluminação de Cesar Pivetti, o espetáculo percorre os diversos estilos e movimentos dos quais Nara participou. Da Bossa Nova ao Tropicalismo, dos festivais da canção ao samba-canção, Nara foi plural e sempre inquieta. Sua criação artística refletia sua liberdade.
Ao longo das cenas, surgem temas como a repressão militar, o exílio, o avanço do feminismo, as revoluções comportamentais das décadas de 1960 e 1970, a maternidade e os relacionamentos da cantora.
Zezé tem experiência em musicais e destaca que o maior desafio foi selecionar o repertório. “As canções de Nara me acompanham há muito tempo, eu já sabia as letras de boa parte. Agora, o desafio foi escolher o que entraria, já que ela gravou tanto e com tanta relevância”, afirma a atriz.
Teatro Renaissance – Alameda Santos, 2.233, Jardim Paulista, São Paulo, SP.



