
Entre o oceano e a igreja, dois mundos se confrontam: a liberdade e a fé, a infância e o silêncio dos adultos. É nesse território de contradições que nasce “A Dor Virada do Avesso”, romance de estreia da escritora e jornalista Maria Laura López, que transforma lembranças familiares, memórias de infância e segredos guardados em matéria-prima literária.
Na obra, acompanhamos Miguel, um menino prestes a completar oito anos, durante as férias de Natal na casa dos avós, em uma cidade litorânea do Espírito Santo. Ali, entre rituais festivos e pequenos gestos cotidianos, pulsa uma tensão invisível, ressentimentos, dores e mágoas não ditas que atravessam gerações. Ao dar voz a esse olhar infantil, a autora constrói um retrato delicado e poderoso sobre os vínculos que nos formam e, muitas vezes, nos aprisionam.
Capixaba radicada em São Paulo desde 2018 e formada em jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da USP, Maria Laura estreia na literatura com uma narrativa que equilibra lirismo e intensidade emocional, expondo as dores escondidas por trás do afeto familiar.
“A Dor Virada do Avesso” é sua estreia na literatura e já está em pré-venda no site da Mondru Editora até 20 de setembro.
Leia a seguir o papo que CHNews teve com a escritora.
Você nasceu no Espírito Santo e hoje vive em São Paulo. Como essas duas geografias se cruzam no seu imaginário e na sua escrita?
Apesar de ter morado a maior parte da minha vida em Vitória, capital do Espírito Santo, minha ideia de cidade grande mesmo sempre foi São Paulo, vir fazer faculdade aqui passou muito por isso, uma vontade de desbravar mundos maiores. Mas acho que uma das coisas que mais me pegou nessa mudança foi algo que eu só percebi quando já estava aqui, a distância do mar. Cresci numa cidade litorânea onde o mar fazia parte do meu dia a dia, era um refúgio, e foi um baque não ter isso aqui. Acho que é por isso que a praia é um cenário tão importante em “A Dor Virada do Avesso”, queria falar desse mar quase enquanto entidade, que pode ser traiçoeiro, mas também acolhedor de alguma forma.
Sua formação em jornalismo influencia o modo como você constrói personagens e narrativas literárias?
Com certeza. No jornalismo a gente aprende a manter os ouvidos atentos e fazer as perguntas certas, e, mesmo na ficção, eu sempre retorno para esse lugar quando estou escrevendo. Para construir um bom personagem também é necessário ouvir e questionar com cuidado, para entender como quero posicionar esse personagem na história.
Sempre imaginou estrear como escritora de ficção?
Sonhei com isso algumas vezes, mas demorei para encarar como uma possibilidade real. Mesmo enquanto sonho eu não tinha muita coragem de falar sobre, primeiro eu precisava me permitir e me enxergar enquanto escritora. O ponto de virada nesse sentido foi o ano de 2024, quando fiz uma série de cursos de roteiro e escrita criativa, inclusive uma oficina com a Aline Bei, que me incentivou demais no caminho da escrita, e outra com a Socorro Acioli, onde levei o projeto de “A Dor Virada do Avesso” e recebi algumas dicas. Foi também no ano passado que comecei a publicar alguns textos em sites e antologias de contos, o que ajudou a me movimentar não só para escrever mais, mas para colocar essas histórias no mundo também.
Como nasceu a ideia do romance?
A ideia do romance chegou primeiro como um conto na verdade, em 2021. Eu trabalhava como repórter no Site RG e estava de plantão no Natal. Nessa época, vi algumas pessoas compartilhando contos natalinos e me perguntei quando tinha sido a última vez que escrevi algo para mim e não necessariamente para o trabalho. Então comecei o que achei que seria uma história curta, mas bastaram algumas páginas para eu entender que ela se pretendia maior.
A escrita desse projeto seguiu de forma intermitente, às vezes eu parava por um longo tempo e voltava escrevendo um capítulo inteiro. Me formei na faculdade de jornalismo, fiz alguns outros cursos nesse meio tempo e, em 2024, me dediquei completamente a finalizar “A Dor Virada do Avesso”.
O que a fez escolher a infância como lente principal para falar de temas tão densos?
A infância é um momento de descoberta de mundo e cada criança tem sua poesia própria, embora geralmente não sejam indivíduos muito ouvidos, ficam subordinados ao lugar de mera obediência. Então a ideia era justamente dar voz a essa criança, ouvir suas questões, e tentar mostrar como uma mudança de perspectiva pode nos ajudar a encarar situações difíceis. A gente tende a ver a infantilidade necessariamente como algo ruim, mas crianças podem nos ensinar muitas coisas também. Espero que o Miguel possa apresentar aos leitores novas formas de enxergar a vida.

Por que os silêncios e segredos familiares são tão centrais na sua escrita?
É esse silêncio que sustenta a inocência do Miguel, ele sabe que tem algo de errado, mas como ninguém fala sobre, ele não é obrigado a encarar a realidade. E, querendo ou não, toda família tem algum assunto tacitamente proibido, então acho que isso gera identificação com a história e com esses personagens, nos seus erros e nos seus acertos também.
Como equilibrou delicadeza literária e intensidade emocional nas cenas mais fortes?
A Elena Ferrante traz um conceito de dualidade da escrita dela em “As Margens do Ditado”, ela conta de uma escrita habitual, aquela em que se escolhe sentar e tentar colocar algo no papel, e uma segunda que nos toma de assalto, considerada por ela como a verdadeira escrita, uma em que a história se conta sozinha, como se não fôssemos nós que a escrevêssemos. Claro que essas escritas não estão necessariamente separadas, elas coexistem uma dentro da outra. E eu diria que é quando se encontra o equilíbrio entre essas escritas – ou um desequilíbrio que faça sentido – que a delicadeza literária e a intensidade emocional são bem construídas nas cenas mais fortes. Gosto de pensar que encontrei esses espaços e soube exaltá-los no livro, mas isso é algo que só os leitores vão poder dizer.
Que autores ou obras influenciaram seu estilo narrativo?
Muito do que li durante o processo de escrita de “A Dor Virada do Avesso” reverberou em algum lugar do livro. As principais obras foram “Foi Um Péssimo Dia”, de Natália Borges Polesso, uma autoficção narrada na voz da autora ainda criança, que vai tratar de dilemas familiares e descoberta da sexualidade. Além de “Tese Sobre Uma Domesticação”, de Camila Sosa Villada, que não conversa tanto com a minha obra quanto ao enredo, mas sim na estrutura, é um livro que se passa quase inteiramente em dois dias, embora seja recortado por vários flashbacks que explicam de alguma forma o que acontece no presente. E “Manuelzão e Miguilim”, de João Guimarães Rosa, em especial a novela do Miguilim, um menino que mora com a família no meio do Sertão Mineiro. A relação entre irmãos, o luto e o medo nesse processo de descoberta do mundo são alguns temas em comum que “A Dor Virada do Avesso” tem com a narrativa de Rosa.
O que foi mais desafiador: dar voz a Miguel ou estruturar a tensão familiar?
Dar voz a um personagem infantil é sempre muito difícil, ele precisa ser verossímil, as pessoas precisam acreditar que aquele personagem é uma criança, ao mesmo tempo em que tem que fazer sentido para a história e para profundidade que se pretende com ela. Mas eu diria que a tensão familiar foi a parte mais difícil, porque o livro fala de uma família que está sofrendo e não conversa sobre, ignoram os problemas e torcem para que eles desapareçam sozinhos.
Como está sendo a experiência de lançar seu primeiro romance?
É uma montanha russa de sentimentos. Ao mesmo tempo que estou muito feliz e animada, o modelo de pré-venda gera algumas inseguranças, tenho uma meta de vendas para atingir e é isso que ajuda a mostrar a relevância do livro. Além de ser um período importante pois todo o valor vai para pagar os custos da publicação. No geral, estou tentando aproveitar cada etapa.
Já pensa em um próximo projeto literário?
Sim, tenho um novo romance em andamento e um projeto de contos sáficos que já tá bem encaminhado. Mas o plano agora é divulgar bastante e aproveitar mesmo esse momento com o livro que está saindo. Bem feliz e realizada de estar vivendo isso.
Que mensagem espera deixar ao leitor com “A Dor Virada do Avesso”?
Gostaria que as pessoas saíssem da leitura pensando sobre os papéis familiares que repetimos, há gerações, sem nos questionar e quais são suas consequências. Mas que também se divertissem na medida em que descobrem o agridoce da vida junto de Miguel, saindo um pouco mais curadas do que quando começaram o livro.




