
A partir de 23 de outubro, a Galeria Lume, em São Paulo, recebe “Para não dizer que não falei das flores”, exposição em que o artista Marcos Roberto transforma ferro e ferrugem em matéria de resistência. Ex-metalúrgico, ele recolhe fragmentos de portões, ferramentas e cercas – resíduos de um país moldado pela extração e pela desigualdade – e os reconstrói em esculturas e instalações.
A mostra reflete sobre o corpo operário como campo de batalha da modernidade (o corpo que sustenta, carrega e é corroído pela lógica da produção). Em suas obras, esse corpo retorna à cena não como instrumento, mas como força criadora. O ferro que sangra também germina; o facão, símbolo de luta e corte, se transforma em folhas e raízes.

Roberto propõe uma pedagogia silenciosa: o gesto de soldar e torcer o metal se torna modo de reescrever o tempo e o território. Suas peças questionam o mito do progresso e expõem as permanências coloniais que seguem estruturando o país. O artista evoca o cativeiro, o ciclo do trabalho e a terra transformada em negócio, lembrando que a promessa de modernidade ainda repousa sobre bases desiguais.
Entre o ferro e a flor, o gesto de Marcos Roberto é tanto denúncia quanto esperança. Sua prática valoriza o trabalho manual como ato de cuidado e reconexão com a matéria, e devolve à arte o poder de imaginar futuros possíveis.
Galeria Lume – Rua Gumercindo Saraiva, 54, Jardim Europa, São Paulo, SP.



