
A Casa de Criadores (CdC) chega à sua 57ª edição ocupando, pela primeira vez, o piso Flávio de Carvalho no Centro Cultural São Paulo (CCSP), entre 3 e 10 de dezembro. A decisão de reunir passarela, exposição, circulação e obra em um único espaço reflete o momento de expansão da plataforma, que completa 28 anos mantendo viva a vocação de revelar narrativas autorais e tensionar o sistema de moda brasileiro.
A abertura, no dia 3 de dezembro, marca esse espírito híbrido: a Cisne Negro Cia. de Dança se apresenta com figurino de Le Benites, enquanto o Talento Senac leva dez novos nomes para a passarela sob mentoria do estilista João Pimenta, um encontro que resume bem o diálogo entre performance, educação e renovação que guia a edição.
Para André Hidalgo, fundador e diretor do evento, essa virada é resultado de um processo longo, e só recentemente compreendido em sua dimensão real. “A gente que está na correria não percebe na hora, mas teve um momento em que eu entendi a diferença que estávamos fazendo. A Casa rompeu padrões estéticos, culturais e políticos como nenhum outro espaço no Brasil”, afirma. Ele conta que levou tempo para reconhecer a própria importância: “Sempre fui modesto, achava que o evento tinha que brilhar mais do que eu. Mas um dia caiu a ficha: a gente estava construindo uma história transformadora.”

A edição reúne 58 marcas, 39 desfiles e 15 designers na área expositiva, tendo como eixo a mostra “Qual Moda, Para Qual Mundo?”, curada por Karlla Girotto. A pergunta, para ele, é mais provocação do que conceito. “Não existe resposta pronta. O mais importante é fazer pensar: que moda você quer, e que mundo você quer?”, diz. A discussão se expande no ciclo de conversas organizado por Carol Barreto (Ufba), que atravessa raça, gênero, economia criativa e urgências culturais.
O caráter formativo da CdC ganha ainda mais peso com a oficina Crie Moda Autoral Transforma, realizada com o Sebrae SP e apoio de Santista, Singer e Veste. Durante cinco dias, 30 pessoas trans, travestis e não binárias passam por aulas intensivas de técnica e criação, culminando em um desfile dentro da programação oficial. Para Hidalgo, é um dos projetos mais emocionantes. “Essa oficina impacta profundamente a vida das pessoas. Ela coloca corpos historicamente excluídos em um lugar de direito e oferece ferramentas reais de formação e renda. É reparação histórica dentro da moda”, afirma. Ele destaca o papel decisivo do Sebrae, que propôs a criação de uma turma exclusiva: “Isso mostra que até instituições tradicionais entenderam que precisam ampliar o leque.”
No line up, estreias como CreationsLil, PyriGótik, Mama Nossa Cultura, Vítor Cunha, o coletivo trans Atelier Flúor + Avini e Paula Fávaro se somam a retornos como Dystopic, Sioduhi Studio e a parceria Das Haus. A Trama Afetiva chega com desfile, exposição e publicação, enquanto a Sala de Vidro exibe a mostra individual “Do monstro híbrido ao corpo regenerativo”.
Para selecionar novas vozes, Hidalgo busca sintonia de pensamento, não apenas técnica. “Às vezes a roupa ainda não está perfeita, mas tem visão, tem frescor, tem história. Dá para sentir quando algo ali tem futuro”, explica. A Casa, ele reforça, valoriza tanto a experimentação conceitual quanto o produto final: “A roupa comercial também é importante, porque sustenta as marcas. Mas precisa vir com verdade e propósito”, lembra.
A edição marca a expansão de patrocínios, com ApexBrasil, Memp, Kenner, Senac SP, Santista e Singer. A Kenner encerra a semana com o desfile “Eu Vim de Lá”, criado em diálogo com sua colaboração com Anitta. Para além da passarela, Hidalgo sublinha a importância das alianças institucionais confirmadas nos últimos anos. “Nosso papel hoje é costurar acordos que beneficiem essas marcas ao longo do ano. A Casa não é só um evento: é suporte, educação, política pública e mercado”, diz. “O Brasil incentiva pouco a moda. Ainda é preciso mudar mentalidades, instituições e políticas. E a gente batalha por isso todos os dias.”

O acolhimento, palavra tão associada à história da CdC, segue como missão pessoal. “Quando vejo uma estilista trans pegar três ônibus para desfilar, ou quando alguém diz ‘meu sonho era estar aqui’, eu entendo a responsabilidade que carregamos”, afirma. “A Casa transformou centenas de vidas, e segue transformando.”
Ao olhar para trás, ele reconhece que não é mais o mesmo André Hidalgo do início. “Hoje sou mais seguro, mais consciente do meu lugar. Mas o idealismo continua igual. O que me move ainda é a vontade de mudar o mundo.” E se existe uma pergunta que sempre retorna quando o evento termina, ele confessa: “Eu penso: quanto tempo vou ter para descansar? Mas a verdade é que, quando acaba, eu já estou dizendo ‘próximo, próximo, próximo’. É o que me alimenta.”
Em um ano em que a moda brasileira se pergunta para onde ir, a Casa de Criadores responde do seu próprio jeito: abrindo caminho, abrindo espaço e abrindo mundos. No fim das contas, continua sendo aquilo que sempre foi: um movimento, e não um evento.



