
Genebra é diplomática, estratégica, global. É sede da ONU, vitrine de debates fundamentais sobre diversidade, cultura e representação. E é justamente nesse cenário que Elisa Stecca encerra 2025 com uma individual potente, simbólica e necessária. Com a exposição “Ibirapitanga”, a artista ocupa a Galeria espace_L e leva ao coração da Europa um Brasil alegórico, mágico e profundamente contemporâneo.
“Genebra é o centro do mundo. Todo mundo está olhando para lá quando o assunto é diversidade e representação. Por isso, é tão importante que o Brasil esteja presente”, diz Elisa. Não como estereótipo, mas como potência criativa atual, viva, plural.

O ponto de partida da mostra é o pau-brasil – ou melhor, o mito que ele se tornou. Extinta, distante da experiência concreta das novas gerações, a árvore que deu nome ao país hoje habita o território do imaginário. “Acho que eu nunca vi um artefato feito de pau-brasil. Ele virou quase uma lenda. Um Brasil mítico, sonhado, que um dia existiu”, reflete a artista. Resgatar essa memória, segundo ela, é também lançar luz sobre como construímos nossa identidade.
Pensada como uma grande instalação imersiva, “Ibirapitanga” reúne cerca de 20 obras em diferentes suportes, esculturas em vidro soprado e latão, aquarelas, tapeçarias em tule, pedras e papel. Nada está ali por acaso. “Cada obra dialoga com a outra. Existe uma questão cromática, temática, de alturas. O olhar do visitante faz um percurso curioso. Tudo conversa. É um todo harmônico”, define.

Outro núcleo essencial da mostra são os registros das oficinas realizadas com a Ocupação 9 de Julho, em São Paulo. O resultado plástico, segundo Elisa, foi “extremamente poético”. Mais do que exibir processos, levar esses trabalhos para Genebra foi uma afirmação política, artística e afetiva. “Eu sempre disse a eles: pensem esse trabalho como algo que pode ser mostrado em qualquer lugar do mundo. Com máxima qualidade e originalidade. E é exatamente isso que está acontecendo agora.”
Mas “Ibirapitanga” não encerra apenas um ciclo, ela também abre caminhos. A artista já projeta sua próxima fase como uma investigação da fauna e da flora brasileiras por um viés inédito: o da ciência poética. “Tenho pensado em como isso pode ser cientificamente alegórico. Como se fosse uma ciência inventada.”

Do Brasil para Genebra, da memória para o mito, do concreto para o simbólico, Elisa transforma 2025 em um ano de atravessamentos. E deixa claro: a arte brasileira não só circula, ela ocupa, provoca e reinventa o mundo.
Galeria espace_L – 23 Rue des Bains, Genebra, Suíça.



