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Tecelãs indígenas transformam tradição em arte no MASP

por Ligia Kas
05/03/2026
Tempo De Leitura: 4 minutos de leitura
Obra de Claudia Alarcón – Foto: Coleção particular

O Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp) apresenta, de 6 de março a 2 de agosto de 2026, a exposição “Claudia Alarcón & Silät: viver tecendo”, que reúne 25 obras da artista argentina Claudia Alarcón e do coletivo Silät, formado por mais de cem mulheres do povo Wichí. A mostra marca a primeira vez que a artista e o grupo expõem em um museu brasileiro.

Com curadoria de Adriano Pedrosa, diretor artístico do Masp, e Laura Cosendey, curadora assistente, a exposição apresenta um conjunto de trabalhos que transformam técnicas tradicionais de tecelagem em composições têxteis de forte dimensão artística e política.

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As obras são produzidas com fios de chaguar, uma bromélia típica do clima seco do Gran Chaco, um dos maiores biomas da América do Sul, que se estende pelo norte da Argentina e chega ao Paraguai. A fibra é trabalhada manualmente, sem tear, em um processo ancestral usado na criação das yicas, bolsas tradicionais fundamentais na cultura Wichí.

Historicamente, essas peças traziam padrões geométricos inspirados na fauna e na flora do território (como olhos de coruja, orelhas de tatu e cascos de tartaruga). No trabalho de Alarcón e do coletivo Silät, porém, essa tradição ganha novos caminhos. A partir de oficinas realizadas nos últimos anos, as artesãs passaram a experimentar formatos ampliados, novas composições e cores mais intensas, incorporadas com o uso de anilinas.

Outra transformação importante acontece no próprio modo de produção. Se antes cada mulher tecia sua peça individualmente, o coletivo passou a desenvolver métodos de criação colaborativa, permitindo que várias tecedeiras trabalhem simultaneamente em um mesmo tecido ou continuem o trabalho iniciado por outra integrante.

Obra de Claudia Alarcón e o coletivo SIlät – Foto: Acervo Masp

A cosmologia Wichí também atravessa as obras. Em “Kates tsinhay – Mujeres estrellas”, de 2023, Alarcón retoma o mito das mulheres-estrelas, que teriam descido do céu por fios de chaguar tecidos por elas mesmas. Na narrativa, os homens cortam esses fios, fazendo com que as estrelas permaneçam na Terra. A história aparece nas composições por meio de geometrias ancestrais combinadas a formas que evocam astros e constelações.

“O tecido também fala”, afirma Alarcón. “Mesmo quando tecemos em silêncio, tudo está dito ali.”

A relação com o território [chamado pelos Wichí de tayhi] também aparece nas obras. Elementos do cotidiano no monte, como o vento, as mudanças de luz e o ciclo das estações, surgem traduzidos em cores, texturas e formas abstratas. Um exemplo é “Kyelhkyup – El otoño”, de 2023, obra que integra a coleção do Masp e registra visualmente as transformações da paisagem ao longo do ano.

Entre os destaques da mostra está a instalação “Hilulis ta llhaiematwek – Un coro de yicas”, composta por mais de cem bolsas produzidas por diferentes integrantes do coletivo. Exibidas lado a lado, as peças revelam escolhas individuais de cor e padrão, ao mesmo tempo em que reforçam a dimensão coletiva do trabalho.

Obra de Claudia Alarcón e o coletivo SIlät – Foto: Drat Collection Singapura

Outro trabalho emblemático é “N’äyhay wet layikis – Caminos y cicatrizes”, criado em 2025 para o dia da independência argentina. A peça funciona como um gesto político: uma denúncia das violências históricas sofridas por comunidades indígenas no país.

Para a curadora Laura Cosendey, os tecidos produzidos pelo coletivo vão além da estética. “Eles se tornam bandeiras de luta, carregando histórias, memórias e a voz das mulheres da comunidade.”

Masp – Avenida Paulista, 1.578. Bela Vista, São Paulo, SP.

Tags: Adriano Pedrosaargentinaclaudia alarcónindígenaslaura cosendeymaspmuseu de arte de são paulosilättecedeiraswichí
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