
O índigo está tão presente no nosso cotidiano que é fácil deixar de lado os milênios de história que ele carrega. Um exemplo disso? A calça jeans. Esse tom de azul tão familiar para nós já foi encontrado no Peru, em fragmentos de tecido datados de 6000 anos atrás. Não à toa, esse é considerado um dos corantes mais antigos da humanidade.
Sociedades ao redor de todo o mundo têm registros do uso do índigo em algum momento da sua história. E várias foram as técnicas de tingimento desenvolvidas para isso. Mas uma, em especial, nasceu no Japão: o aizomê. “Ai” (藍) significando índigo e “zomê” (染) tinta ou tingimento usa o índigo da espécie Persicaria tinctoria, também chamado de índigo japonês.
A designer de moda Kiri Miyazaki trabalha com o aizomê há 10 anos e foi pioneira na introdução do índigo japonês no Brasil. Atualmente, seu cultivo acontece manualmente em uma área de 2500 metros quadrados, uma “nanoescala”, como ela mesma chama. Kiri oferece cursos que ensinam a técnica passo a passo e faz um trabalho lindo de divulgação da cultura do tingimento em índigo. O CH News conversou com ela para conhecer melhor o aizomê.

História do tingimento
Acredita-se que as primeiras folhas de índigo chegaram ao Japão no século 5, depois de já terem se tornado conhecidas na Coreia e no sul da China. Mas foi na atual prefeitura de Tokushima, às margens do rio Yoshino, que elas passaram a ser usadas na técnica do aizomê. A princípio, esse era um privilégio reservado para os nobres e depois para os samurais. Aos poucos, porém, a cor se espalhou por todo o país durante o período Edo (1600-1868).
A presença do índigo no Japão era tamanha que o químico inglês Robert William Atkinson, ao visitar o país, batizou a cor de “azul Japão”. Não demorou para que o índigo japonês passasse a ser reconhecido ao redor do mundo pela sua tonalidade profunda e pelos muitos visuais que ele pode criar.
O lançamento comercial do pigmento índigo sintético em 1897 desacelerou e quase extinguiu o uso da alternativa natural. Em 1900, por exemplo, Tokushima era lar para 37,000 acres de cultivo do índigo. Hoje em dia, esse número caiu para 42 e corresponde a 70% da produção total do país.
Como funciona o aizomê
Kiri explica que há um ciclo de um ano entre o plantio das sementes e o tingimento. O índigo é plantado na primavera e colhido no verão, em um tempo que varia de três a três meses e meio. As folhas, então, são separadas dos caules e secas para passarem por um processo de fermentação que leva 120 dias para ser concluído. Isso cria o sukumo: a matéria prima do tingimento. Kiri conta que há quem adicione ainda mais uma etapa ao processo: “A matéria prima estaria pronta para fazer o tingimento e para começar uma segunda fermentação na panela para tingir, mas alguns artistas tradicionais ainda esperam uma cura do sukumo por três anos”.
O próximo passo é submeter o sukumo a uma segunda fermentação para que o índigo possa ser diluído em água, já que na sua forma original isso é impossível. Nesse momento há uma mudança de cor: o que antes era azul passa a ser amarelo esverdeado. Mas, agora a cor pode entrar nas fibras do tecido e lá se fixar, ou seja, o tingimento pode acontecer.
O tecido, enfim, é mergulhado na mistura e massageado. Porém, no primeiro momento, a cor que se observa também é próxima do amarelo e do marrom. Para que o azul retorne, a peça precisa passar por uma oxidação, que transforma o amarelo em azul diante dos olhos do artista. Com isso, a cor é revelada gradualmente e, quanto mais vezes o processo for repetido, mais forte a cor ficará.
Diferenças entre o índigo natural e o sintético
Ainda que as moléculas do índigo natural e do índigo sintético sejam idênticas, a principal diferença entre elas está no impacto ambiental de cada uma. Na sua versão sintética, o índigo é mais conhecido por dar ao jeans a sua cor característica. Anualmente, são consumidas mais de 55 mil toneladas de índigo sintético justamente para a produção de jeans. Porém, o preço ambiental que se paga por essa prática é muito grande.
Em muitos casos, pigmentos sintéticos são tóxicos não apenas para o meio ambiente, mas também para as pessoas que trabalham com eles. E com o índigo não é diferente. Na sua fabricação ele usa compostos químicos como a anilina, formaldeído e cianeto de hidrogênio que, além de apresentarem riscos à saúde de quem os manuseia, também poluem a água que é usada para a produção das peças.
O índigo natural, por outro lado, não contamina a água, que pode ser usada para regar e fertilizar o cultivo de ainda mais plantas. Para saúde, o risco também é bem menor, já que as folhas podem ser manuseadas tranquilamente e podem até fazer parte de preparações culinárias.
A desvantagem da alternativa natural aparece na quantidade e frequência de atenção que ela demanda. O líquido usado para o tingimento é um ecossistema vivo que precisa de cuidados constantes para garantir a qualidade da cor. Por isso, artistas que adotam o aizomê precisam monitorar constantemente fatores como minerais, nutrientes e pH para que a fermentação continue a acontecer corretamente. Mas, mesmo com todos esses cuidados, a mistura com o pigmento não pode ser usada infinitamente, sendo necessário refazê-la de tempos em tempos.
Tudo isso leva a uma diferença de preço considerável: o pigmento natural pode chegar a custar 18 vezes mais caro do que o sintético.
Aizomê pode ser uma aposta para o futuro?
Em um mundo onde a sustentabilidade é uma preocupação crescente, a técnica do aizomê não poderia ser uma alternativa para o uso do pigmento sintético? Apesar de haver algumas marcas de jeans japonês que já adotam o tingimento com o índigo como prática corriqueira, Kiri acredita que uma substituição total seria insustentável.
A começar pelo desafio do cultivo. Para suprir a demanda da indústria têxtil, seriam necessários 10 milhões de acres de plantações. Isso equivale ao dobro da área do estado de Sergipe, ou ao território da Suíça. Além disso, o índigo japonês é cultivado em monocultura e requer muito sol para se desenvolver. Expandir a lavoura de índigo a essa proporção, assim como qualquer outra, prejudica a biodiversidade local e aumenta a chances de infestações de pragas.
“Meu sonho é a preservação dessa cultura, que esse conhecimento não se perca. Mas não como uma alternativa orgânica para o índigo sintético. Eu acredito muito que a gente precisa rever a nossa forma de estar na terra”, afirma Kiri. O caminho, portanto, seria a diminuição do consumo e não necessariamente a substituição de uma alternativa de tingimento por outra.
A técnica do aizomê é mantida viva não como uma solução para os problemas de produção moderna, mas como um belo registro da história e da ciência, assim como uma forma de arte. Entre folhas de índigo e panelas de tingimento, é fácil ver como, se depender de artistas como Kiri, muitos outros anos se somarão aos milênios de história do aizomê.



