
Trinta anos depois de começar no teatro, o ator argentino Juan Tellategui escolhe revisitar não só um personagem, mas um tipo de amor que por muito tempo precisou existir em silêncio. Em “Visita a Domicílio”, que estreia dia 20 de maio no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, ele transforma memória, maturidade e experiência em cena, e faz do reencontro entre dois homens uma forma de olhar para tudo o que o tempo não resolveu.
Idealizado pelo próprio ator, o espetáculo nasce de um encontro antigo que ganhou forma no tempo certo. “Foi um encontro de vontades”, resume Tellategui, sobre a parceria com o dramaturgo argentino Alberto Romero. A partir de um desejo prático, um texto potente, com poucos personagens e espaço para mergulho, veio também o tema que o atravessava: as relações afetivas LGBTQIAPN+ vistas não como urgência, mas como construção de vida. “Eu sentia falta de falar sobre como esses afetos se mantêm e se transformam ao longo do tempo. Como as pessoas deram e receberam amor ao longo da vida inteira”, diz. É dessa inquietação que nasce Gabo, personagem que interpreta na peça, e que carrega nas entrelinhas tudo aquilo que foi silenciado.
Três décadas
Celebrar 30 anos de carreira em cena não é detalhe, e isso aparece diretamente na construção do personagem. Tellategui não fala em ápice, mas em um tipo mais raro de conquista: consciência. “Hoje tenho serenidade. Consigo olhar para o Gabo de forma mais completa, perceber nuances que só a experiência revela”, afirma. Para ele, o personagem exige densidade, é alguém moldado por ausências, interrupções e pelas marcas de uma história que não pôde se desenvolver plenamente.
Essa maturidade se traduz em escolhas mais sutis, menos evidentes. “É a técnica a serviço de uma sensibilidade mais aguçada”, define.
Hermano
Argentino de origem e radicado no Brasil há 15 anos, Tellategui não separa suas referências, ele as mistura. E é justamente dessa fusão que nasce a atmosfera de “Visita a Domicílio”.

A peça se passa em Buenos Aires, mas é atravessada por um olhar híbrido, que ganha novas camadas na encenação assinada por Zé Guilherme Bueno e Miguel Arcanjo Prado. Em cena, ao lado de Cícero de Andrade, Tellategui constrói um jogo onde as referências culturais não competem, se somam. “Não sinto que estou cruzando fronteiras. Esse hibridismo já é a minha base”, explica. “O texto tem o DNA argentino, mas a encenação ganha as cores dessa trajetória entre os dois países.”
Gabo e Fernando
No centro da história está o reencontro entre Gabo e Fernando, dois homens que viveram um amor na adolescência, interrompido por um contexto que não permitia que ele existisse plenamente. Mais do que revisitar o passado, a peça escancara como esse tipo de ruptura molda vidas inteiras. “O destino dessas pessoas foi desviado por padrões morais da época”, diz Tellategui. “Eles tiveram que cultivar o desejo no silêncio.”
Embora o mundo tenha avançado em direitos, ele aponta que o tema segue urgente. “Ainda vivemos em um cenário de conservadorismo que tenta ditar formas de amar. Falar desse amor hoje é também um ato de memória.”

Responsável pela tradução do texto original de Alberto Romero, Tellategui encarou o processo como um exercício de escuta, e não apenas de linguagem. “O desafio era traduzir as intenções, não só as palavras”, explica. A adaptação, construída em parceria com Miguel Arcanjo Prado, buscou preservar a intensidade da dramaturgia argentina, aproximando-a do público brasileiro sem perder sua essência.
No fim, o que permanece é o que resiste ao tempo. “É uma peça sobre aquilo que sobrevive. Sobre olhar para as próprias marcas com mais ternura”, finaliza
Teatro Sérgio Cardoso – Rua Rui Barbosa,153, Bela Vista, São Paulo, SP.


