
Quando tenta dimensionar o próprio momento, Bárbara Colen ainda soa surpresa. Em cartaz com “5 Tipos de Medo” e com oito títulos previstos para chegar ao público [entre eles, “Fogareu”, da diretora Flávia Neves], ela pausa, refaz a conta e ri. “Foi meio surpreendente quando eu contei… Eu mesma me assustei. É muita coisa.”
O volume impressiona, mas não explica tudo. Há algo menos visível organizando esse período, uma mudança interna que desloca o jeito de trabalhar, de escolher e até de se colocar diante da própria carreira. A maternidade, nesse caso, não aparece como interrupção, mas como eixo. “Eu tinha muito medo de o filho ser um freio [na carreira]”, conta. O que veio foi o oposto. “Eu sinto que depois da maternidade… Eu estou muito melhor como atriz. Para mim é evidente.”

Essa mudança não é apenas técnica, é de percepção. Ao falar do impacto de ter um filho, ela não recorre a clichês, mas a uma espécie de depuração. “Me conectou com o que realmente importa. Eu parei de sofrer com o que não precisa.”
O efeito se traduz em trabalho. Mais direto, mais consciente, e, sobretudo, mais livre. “Isso me deixou mais livre na profissão.” É nesse ponto que os projetos recentes começam a ganhar outra camada. Em “5 Tipos de Medo”, por exemplo, Bárbara interpreta uma mãe que perde o filho, uma experiência que, segundo ela, só alcançou a profundidade necessária depois da maternidade. “Se fosse antes do Karim, eu não teria chegado onde cheguei. Tem um lugar que fica muito visceral.”

A mesma lógica atravessa outros trabalhos. Em um dos filmes ainda inéditos, como “Por um Fio”, inspirado na obra de Drauzio Varella, ela vive uma enfermeira construída a partir de uma memória pessoal. “Minha avó foi enfermeira do SUS. Foi um filme que eu fiz pra ela.” Ao assistir, o impacto veio junto com o reconhecimento: “De repente, estou no cinema com uma personagem que é minha avó”, conta.
Essa aproximação entre vida e cena ajuda a entender o tipo de personagem que vem marcando sua trajetória recente. Mais do que um tema comum, o que ela identifica nos novos projetos é uma mudança na densidade das figuras femininas. “O que me chama atenção é a riqueza dessas mulheres. São personagens muito interessantes, muito complexas.”
Mas para chegar a esse tipo de trabalho, o caminho não foi direto. Antes de ocupar esse espaço no cinema, Bárbara seguiu uma rota mais previsível, e distante da arte. Formada em direito, com carreira estruturada no serviço público, ela só migrou para a atuação depois de conquistar estabilidade financeira. “O caminho foi esse: primeiro me bancar, depois tentar.”

A decisão de mudar veio acompanhada de um salto. Ao pedir demissão do Ministério Público, recebeu, dias antes de sair, o convite para seu primeiro longa. “Foi tudo muito sincronizado”, lembra. “Eu larguei a carreira jurídica e já entrei para o cinema. E não parei mais.”
Desde então, sua trajetória se desenvolve majoritariamente dentro do cinema autoral brasileiro, um espaço que ela descreve menos como escolha estratégica e mais como afinidade. “Eu estou conectada com realizadores que querem contar histórias do Brasil, trazer personagens reais, gente que é invisibilizada.”
É um tipo de cinema que, para ela, nasce do desejo, e do trabalho. “Tem uma artesania, uma vontade de fazer esses filmes acontecerem que me move muito.”

Essa relação com o fazer também define seu processo como atriz. Vinda do teatro, Bárbara carrega uma construção rigorosa de personagem, baseada em pesquisa, repetição e escuta. “Sem estudar cada personagem, a gente não chega a um resultado interessante”, afirma. E reforça: “Não tem mística, não tem dom que se sustente sozinho. É trabalho mesmo.”
No audiovisual, isso se concentra sobretudo no que não é dito. “A essência do cinema é a imagem”, explica. “O que me interessa é o que está passando por dentro.”

É desse acúmulo interno que surgem seus personagens mais silenciosos, aqueles que parecem se construir no olhar. “Quando esse mundo interior está povoado, isso sai.” O resultado é uma atuação que se apoia menos na explicação e mais na presença, algo que acompanha sua trajetória desde os primeiros trabalhos e que agora ganha novas camadas.
Talvez por isso, ao olhar para o próprio percurso, ela escolha uma palavra simples para definir o momento atual: coerência. “Eu acho que a minha história é muito coerente com o que eu sou.”

E, mesmo com o cinema ocupando esse espaço tão central, há ainda outras possibilidades em movimento. Depois de uma primeira experiência na televisão, ela começa a ensaiar um retorno, agora em condições diferentes, mais abertas à troca com o público. E já sabe exatamente o que quer explorar: “Eu queria fazer uma grande vilã. Uma pessoa horrorosa mesmo.”
Ela ri, mas a resposta vem com a mesma clareza que organiza todo o resto.


