
Ao longo da última década, os rótulos dos produtos de beleza e higiene pessoal passaram a se “livrar” de vários (e estranhos) nomes. Parabenos, cloridrato de alumínio, ftalatos, silicones e a lista continua. Agora, rótulos exibem com orgulho as frases “ingredientes naturais”, “livre de parabenos”, “sem alumínio”, “sem fragrâncias”.
Em grande parte isso se deve ao movimento “clean beauty” e as suas demandas por produtos mais “limpos” e formulados em torno de ingredientes naturais. Ou seja, livres de substâncias artificiais, na forma de conservantes ou ativos. Desde o começo dos anos 2010, discussões começaram a rondar a segurança do uso desses ingredientes artificiais.
Agora, esse movimento se aproxima de uma nova etapa que deve levá-lo ao extremo. O skin care “fresco” ou “feito na hora”, produzido muito próximo da data de uso e sem conservantes ganhou espaço nas marcas de cuidado com a pele. Vendidos como mais eficazes e melhores do que as alternativas já estabelecidas nos mercado, os produtos do skincare feito na hora defendem o uso de ingredientes naturais e orgânicos.
Por conta da ausência de conservantes, eles dependem de condições específicas de armazenamento, como refrigeração, e têm prazos de validade encurtados se comparados com outras opções de produtos. Isso leva a fabricação e comercialização de lotes menores e até mesmo sob encomenda, o que eleva o custo para o consumidor. Mesmo assim, marcas de beleza e cosméticos apostam neles como a mais nova tendência do mercado de beleza.
O crescimento da clean beauty
De acordo com dados do Google Trends, a popularidade global do termo “clean beauty” alcançou seu auge entre janeiro e fevereiro de 2026. Mas, as mesmas informações também mostram que a busca por esse tema segue um movimento de crescimento que já dura 10 anos. A página do TikTok dedicada à clean beauty soma mais de 29 milhões de vídeos, enquanto a hashtag #cleanbeauty acumula mais de 643 mil publicações. Já o instagram acumula 8,3 milhões de publicações sob a mesma tag.
Essas buscas vêm acompanhadas pelo interesse em outros temas. A pesquisa por “natural ingredients” segue um movimento muito similar do “clean beauty”, e aparece ligada a buscas por termos como “ingredientes naturais para cabelo”, “ingredientes naturais para pele”, e “shampoo natural”.
E isso se reflete nas pesquisas de mercado. De acordo com um levantamento de 2018 do Fashion Institute of Technology, em Nova York, 72% dos consumidores esperam mais explicações sobre os benefícios de cada ingrediente. Além disso, 42% deles responderam que não acreditam que recebem informações o suficiente sobre a segurança dos ingredientes usados pelas marcas.
Para entender se a tendência do skin care feito na hora tem algum fundamento científico, o CH News conversou com Ana Bonassa e Laura Marise de Freitas. Ana é formada em Biologia, com doutorado e pós-doutorado em passagens pelos Institutos de Ciências Biomédicas e de Química da USP. Já Laura se formou em Farmácia-Bioquímica na UNESP, onde também conseguiu seu mestrado e doutorado, seguidos do seu pós-doutorado no Instituto de Química da USP. Em 2018, elas fundaram o “Nunca Vi 1 Cientista”, um meio de divulgação científica que usa do bom humor para levar a ciência para os públicos das redes sociais.
De maneira geral, elas não enxergam uma real vantagem em investir tempo e dinheiro nessa nova tendência. Uma das principais alegações em defesa desse tipo de skincare é que ele garante a potência dos ativos presentes nas fórmulas, já que o seu consumo acontece em uma janela de tempo inferior à sua degradação. Porém, a indústria já encontrou formas de driblar esse problema.
Ana e Laura explicam que a vitamina C, por exemplo, oxida com facilidade quando em contato com luz e calor. Porém, a indústria já estabeleceu formas de contornar essa questão: “Você pode modificar o ácido ascórbico para ele ser mais estável quimicamente. Ainda vai ter o efeito dele, mas ele vai ser mais estável quimicamente. E você pode também adicionar componentes na formulação, como por exemplo vitamina E e outras moléculas que protegem a vitamina C da degradação”, conta Laura.
Esses cuidados, combinados com embalagens herméticas e escuras ou opacas, preservam a eficácia da vitamina C. Esse é apenas um dos casos que mostram como a formulação de um produto não é tão simples quanto apenas se concentrar no ativo principal. O que leva a outro argumento em defesa do skin feito na hora: livre de conservantes, a fórmula ganharia espaço para a introdução de ainda mais ativos.
A grande questão apontada pela dupla de cientistas é a estrutura da formulação. Basta garantir a estabilidade química da fórmula e a compatibilidade química entre os ingredientes. Laura conclui dizendo: “O céu é o limite. Se a formulação fica estável, você pode colocar quantos ingredientes quiser”.
Por que, então, simplesmente não usar apenas os ativos puros? Por si só, essas substâncias não são estáveis e nem bem absorvidas pelo corpo. Para isso a formulação age ao mesmo tempo como meio de proteção e entrega das moléculas para o organismo.
A dupla explica que a principal função dos conservantes é prevenir o surgimento de fungos e bactérias nos produtos. Seja por contato com a pele do usuário ou pela simples exposição ao ar, os produtos já estão em contato com microrganismos que podem causar contaminações. Logo, os conservantes são essenciais para a segurança microbiológica, impedindo tanto que o produto estrague, quanto que o consumidor tenha uma infecção pelo produto contaminado.
Ana questiona a remoção dos conservantes no skincare feito na hora: “Mas e o consumidor final? Quando ele pega um produto sem conservante, qual garantia a gente tem de que aquele produto vai continuar na validade?”. Sem algo que aja como um conservante, ela e Laura consideram esse tipo de produto “menos seguro microbiologicamente”.
O natural nem sempre é aliado
O simples fato de uma substância ser natural não significa que ela é imediatamente segura ou melhor do que sua alternativa artificial. Além disso, a linha desenhada pela clean beauty que divide o natural do artificial é tênue. Afinal de contas, tanto o alumínio quanto o parabeno estão na natureza e ainda assim recebem o rótulo de “artificiais”.
Laura destaca que, na verdade, os compostos naturais são mais prováveis de desencadear alergias, irritações e até disrupções hormonais. Como é o caso dos óleos essenciais, por exemplo. As plantas os produzem como mecanismos de defesa contra insetos e outros animais, incluindo os humanos. Ela explica: “Essas moléculas de planta, por mais que elas possam ter efeitos benéficos para a gente, muitas delas são usadas como mecanismo de defesa. Então, elas têm um potencial irritativo muito grande”.
Outra questão é que as substâncias artificiais são produzidas sob circunstâncias controladas que mantém um padrão rígido sobre o que é fabricado e evita contaminações. Ana reforça essa informação: “Quando você macera um extrato, extraí um óleo essencial, tem várias coisas que podem ser não identificadas e que podem ativar alergias e fazer exatamente o que a pessoa está querendo evitar. E pagando mais caro por isso.”



