
Entre armações de acetato italiano, desenhos guardados em gavetas há décadas e clientes que atravessam gerações, Felipe Sollito Ventura conduz um novo capítulo de uma das óticas mais tradicionais de São Paulo. Aos 34 anos, ele representa a continuidade [e também a reinvenção] da Ventura, marca fundada oficialmente em 1988, mas cuja história começou muito antes, ainda nos anos 1940, com o avô da família desenhando armações de maneira artesanal. Hoje, é Felipe quem lidera a empresa instalada na Rua Bela Cintra, nos Jardins (SP), equilibrando memória, sofisticação e visão de futuro.

Crescer dentro da loja moldou não apenas sua trajetória profissional, mas também sua relação afetiva com o negócio. Filho único, Felipe passou a infância nos bastidores da Ventura: tinha um quarto dentro da loja, fazia lição entre os corredores e acompanhava de perto o entra e sai de clientes que, com o tempo, se tornaram parte da própria história da família. Ainda que tenha se formado em publicidade pela ESPM e vivido experiências fora do universo óptico [incluindo uma passagem pela televisão e duas décadas de atuação no Teleton, ao lado de Silvio Santos], foi no design, na criação e no atendimento que encontrou seu verdadeiro caminho. “Eu acho que gosto muito de vender óculos, desenhar óculos e atender meus clientes”, resume.

Sob seu comando, a Ventura reforçou sua vocação autoral e passou a mirar o mercado internacional. Desde 2024, Felipe lidera o processo de expansão da marca para butiques e multimarcas fora do Brasil, com presença em países como Canadá, Grécia, Portugal e Uruguai. A estreia da marca na feira Tranoï, em Paris, consolidou a percepção de que o design brasileiro pode disputar espaço no mercado global de luxo sem abrir mão de identidade, técnica ou originalidade. “O luxo mudou muito”, afirma. Para ele, exclusividade hoje está menos ligada a logotipos e mais à curadoria, ao processo artesanal e à singularidade de cada peça. “A gente conseguiu mostrar que uma marca brasileira de uma família consegue realmente estar no mesmo pool das grandes marcas”, explica.

Essa visão aparece tanto na seleção de designers internacionais vendidos pela Ventura quanto nas coleções assinadas por Felipe. A “DNA Ventura” resgata desenhos criados pelo avô, pelos pais e pelo próprio empresário, enquanto a “Op Art” explora referências gráficas dos anos 1960 em acetatos desenvolvidos na Itália. Produzidas em pequenas tiragens, as peças traduzem um conceito de luxo silencioso, atento ao detalhe e distante da produção em escala. “O ponto de partida tem que vestir bem. Tem que ter o DNA da marca, tem que ter a bossa brasileira e tem que vender”, diz.

Ao mesmo tempo, Felipe também olha com atenção para as novas gerações e para as mudanças de comportamento no consumo de moda. Segundo ele, o grande desafio hoje é manter o caráter íntimo e artesanal da Ventura em uma era marcada pela velocidade digital. “As pessoas querem fazer parte daquela cultura, daquele sentimento, entender o complexo da marca”, diz. Para aproximar esse público mais jovem, a empresa passou a investir em inteligência artificial, experiências personalizadas, pequenas tiragens e lançamentos constantes. “Os jovens não querem só comprar um óculos. Eles querem fazer parte de um universo.”

No olhar de Felipe, os óculos deixaram há muito tempo de cumprir apenas uma função prática. Tornaram-se linguagem estética, ferramenta de expressão e peça-chave de styling. “Os óculos contam uma história, falam quem você é, o que quer passar, como está seu humor.” Entre as tendências que ele aponta para os próximos anos estão os modelos oversized, as lentes coloridas mais claras, o retorno dos mini-óculos e o avanço da tecnologia 3D aplicada às armações. Ainda assim, acredita que o verdadeiro diferencial continua sendo o design atemporal. “Os óculos têm essa característica de permanecer. Tem modelos que atravessam gerações”, salienta.

Mais do que vender produtos, Felipe acredita na construção de experiência e pertencimento. A Ventura investe em tecnologia, visagismo e atendimento personalizado, mas preserva um aspecto cada vez mais raro no varejo contemporâneo: a proximidade. Clientes entram para ajustar armações, tomar um café ou simplesmente conversar. “Nosso slogan é ‘Seja bem-vindo à família Ventura’, porque a gente gosta realmente desse contato próximo.”

Entre o artesanal e o contemporâneo, o empresário constrói uma narrativa em que tradição não significa nostalgia, mas permanência. Em um mercado acelerado e dominado por grandes conglomerados internacionais, Felipe Ventura aposta justamente no oposto – tempo, cuidado e identidade. E talvez seja essa a principal herança que deseja preservar. “Elegância é permanecer”, afirma.
Concept Store: Rua Bela Cintra, 1.845, Sao Paulo, SP.



