
Depois de quase duas décadas construindo uma trajetória marcada pela experimentação, pelo trabalho manual e pela moda autoral, o estilista Rober Dognani inicia um novo capítulo de sua carreira com a inauguração da sua segunda loja em Pinheiros, bairro que se consolidou como um dos principais polos criativos de São Paulo.
A abertura do espaço representa mais do que uma mudança de endereço. Para Dognani, a nova loja simboliza um momento de renovação da marca e a realização de um desejo antigo compartilhado com seu sócio, Felipe Fanaia.
“O sonho dele era ter uma loja aqui em Pinheiros. A gente vinha passear por aqui e ele sempre falava que seria muito legal ter um espaço no bairro”, conta o estilista.
Até então, a marca mantinha sua presença concentrada na região dos Jardins, passando por endereços como a Galeria Ouro Fino e a Rua Augusta. A decisão de migrar para Pinheiros surgiu de forma inesperada durante a busca por um novo ponto comercial.
“Passamos em frente a este imóvel e vimos a placa de aluguel. O Felipe ligou na hora e conseguimos fechar. Foi uma sorte, porque é um ponto com muita circulação e que muita gente queria”, relembra.
Além da loja, a marca também inaugurou um ateliê na rua Mateus Grou, endereço que Dognani considera um dos mais relevantes da moda autoral brasileira atualmente.
“Quando se fala em moda autoral hoje, a Mateus Grou é uma referência. Muitos amigos da moda estão lá e existe uma energia muito interessante acontecendo na região”, afirma.
Segundo o estilista, a mudança acompanha a transformação do próprio bairro, que reúne gastronomia, cultura, design e um público aberto a propostas criativas.
“O bairro está muito efervescente. Tem ótimos restaurantes, lugares interessantes para passear e um público que valoriza experiências. Estamos muito felizes aqui.”
Mais do que um espaço de vendas, Dognani quer que a nova loja se torne um destino para quem busca algo diferente dentro da moda.
“A gente quer que essa loja vire um ponto turístico. Sabe quando uma amiga fala: ‘Vou te levar em um lugar que você vai amar’? É exatamente isso que eu quero que aconteça aqui.”
O espaço reúne peças únicas e criações que fogem dos padrões convencionais do mercado. O estilista acredita que a moda precisa provocar curiosidade e despertar emoções.
“Muitas pessoas passam na frente e perguntam se é um brechó ou uma loja de fantasia. Eu acho divertido. Gosto de causar essa estranheza. Mas, ao mesmo tempo, precisa existir beleza, acabamento e qualidade.”
A proposta também se estende ao trabalho sob medida desenvolvido no ateliê. Dognani continua criando vestidos para noivas, madrinhas e clientes que buscam projetos exclusivos, mas com uma abordagem distante dos códigos tradicionais das festas de casamento.
“As pessoas que me procuram geralmente querem fugir dos estereótipos. Eu gosto de fazer uma roupa para celebrar, uma peça que tenha personalidade e faça a pessoa ser notada.”
A inauguração da loja em Pinheiros acontece em um momento de maturidade profissional. Ao relembrar sua trajetória, Dognani aponta a entrada na Casa de Criadores, em 2003, como o principal divisor de águas de sua carreira.
Selecionado em um concurso que reuniu cerca de 400 candidatos, o estilista conquistou a oportunidade de desfilar quando ainda estava começando e enfrentava limitações financeiras. “Foi ali que tudo começou a acontecer”, afirma.
Sua primeira coleção foi confeccionada pela própria mãe, costureira e cabeleireira no interior paulista, utilizando tecidos doados pela antiga Tecelagem Francesa, onde ele trabalhava na época.
Outro marco importante foi a abertura da Das Haus, em 2009, experiência que ampliou o contato direto com o consumidor e fortaleceu sua presença no mercado independente.
Parte fundamental da identidade de Dognani nasceu da relação próxima com artesãos e costureiras ao longo da carreira. Um dos episódios mais marcantes aconteceu quando sua principal colaboradora sofreu um grave acidente de carro e precisou reaprender diversas atividades.
Durante o período de recuperação, os dois desenvolveram juntos uma coleção baseada em processos manuais, utilizando pequenas peças de vinil e experimentações com látex. “Foi uma das coleções mais importantes que eu fiz. Era um trabalho de superação para ela e também uma descoberta criativa para mim.”
A experiência acabou influenciando diretamente sua linguagem estética. “Minha roupa nasceu muito da experimentação. Eu aprendi observando minha mãe e as costureiras que passaram pela minha vida. Até hoje meu processo criativo continua sendo muito intuitivo.”
Com a nova loja em Pinheiros e o ateliê na Mateus Grou, Rober Dognani pretende seguir exatamente por esse caminho: produzir em pequena escala, valorizar o trabalho manual e oferecer uma experiência que reflita a singularidade de sua moda.
“Quero continuar fazendo peças únicas, trabalhando com prazer e mantendo viva essa forma de criar que construí ao longo da minha trajetória”, finaliza.



