
A Cavalera, marca que se consagrou no streetwear brasileiro desde os anos 1990, entra em uma nova fase com a Cavaleira Caviar, linha premium que marca um reposicionamento estético e de produto. Mais do que uma etiqueta “gold” ou “black”, a Caviar nasce como um laboratório de construção de roupas sofisticadas, pensadas para um urban wear mais maduro – sem perder o humor característico da grife.
“O nome Caviar é uma ironia”, explica o diretor criativo Alberto Hiar. “Todo mundo chama de gold, de black, sei lá o quê. A gente achou que, como a Cavalera gosta de tirar um sarro das coisas, seria uma linha… ‘para poucos’. Caviar é caro, nem todo mundo tem acesso. E eu mesmo nem gosto de caviar. É quase um deboche: tirar sarro da pretensão, inclusive da nossa.”

A Cavaleira Caviar nasce também de um incômodo pessoal de Hiar com o próprio guarda-roupa aos 60 anos de idade. “Eu estou com 60 anos, e aí não dá mais para se vestir como Peter Pan“, diz. “Eu queria ter uma linha que eu pudesse usar, mas que fosse um urban wear novo.”
Esse “novo” não significa abandonar o público jovem, mas construir uma roupa que dialogue com gerações diferentes. “São peças que hoje eu usaria – quase 90% de todas as peças – e que também um garoto de 20, 25, 30 poderia usar, se ele tiver informação de moda, se entender esse último anuário contemporâneo”, afirma.

Mais do que seguir tendências, a Cavaleira Caviar se propõe a aprofundar a pesquisa de materiais, modelagens e acabamentos. Hiar conta que o desenvolvimento da linha levou quase dois anos, com foco em matéria-prima e construção: “A gente passou muito tempo pensando em matéria-prima, analisando construção de peça, como cada peça podia ser construída com aquela matéria-prima. O resultado disso, eu acho, foi muito bom.”
A Cavaleira Caviar se apoia em códigos bem definidos, principalmente no campo da modelagem e da engenharia da peça. “A parte de baixo é quase sempre ampla”, explica Hiar. “Às vezes é mais larga até o joelho e depois ajusta na canela, mas, na maioria, são bases bem amplas.”

Os acabamentos exigem um nível de complexidade pouco comum na indústria brasileira. “A gente trabalha com um grau de dificuldade de acabamento que, muitas vezes, o Brasil nem tem maquinário para fazer. Em alguns casos, tivemos que ir atrás de tecnologias de tinturaria e construção que não existem no mercado nacional de forma padrão.”
Entre os destaques, ele cita sarjas encorpadas que, após processos específicos de lavagem, ganham toque macio; nylons e sintéticos com tecnologia avançada de tingimento e textura; uma linha de tricôs sofisticada; e uma malharia de alto desempenho, capaz de sustentar estruturas pouco usuais.

“Tem um moletom de 460 gramas, muito estruturado. Quando passa pelo acabamento de tinturaria, fica ainda mais estruturado”, conta. “Quando eu pego o moletom da Cavaleira Caviar e olho para o que as grandes labels lançaram em streetwear, não deixa nada a desejar.”
Na malharia, o salto é ainda mais evidente: “Você vê uma camiseta de malha que parece uma alfaiataria. A pessoa olha e fala: ‘Isso não é malha’. E é malha. Isso só acontece porque tem tecnologia, estrutura, acabamento. E isso muda completamente o jeito de costurar, de colocar detalhe.”

Apesar de sofisticada e mais cara, a Cavaleira Caviar não nasce como projeto-cápsula ou licença temporária. Hiar enxerga a linha como permanente. “A gente entende que ela tem que ser uma linha contínua, porque as pessoas que começarem a consumir vão cobrar isso. Vão exigir que a Cavalera sempre desenvolva peças novas para se abastecer desse conhecimento que a marca adquiriu ao longo do tempo.”
O público, segundo o diretor criativo, não é definido por gênero nem apenas por faixa etária, mas por repertório e atitude. “Já me perguntaram quem é a pessoa da Caviar. Eu penso muito em algumas figuras que admiro, como o Gabriel, filho da Astrid Fontenelle. Acho aquele garoto muito moderno. Já dei umas peças para ele, já vi usando em show”, conta. “O filho do Paulo Borges também. E um Jão, por exemplo, cabe nessa linha, mesmo vindo de uma música que alguns chamam de regional.”

A grade hoje é mais masculina, mas o espírito é majoritariamente genderless. “Minha mulher se veste muito com as roupas da Caviar masculina. A gente até briga porque ela pega as minhas peças do armário”, ri. “Não tem aquela divisão rígida ‘isso é de homem, isso é de mulher’. Tem algumas peças mais femininas, mas que em homem também ficam ótimas.”
Para Hiar, a Cavaleira Caviar é também a resposta a um dilema comum de marcas consolidadas. “A gente viu isso em várias marcas de 30, 40 anos: medo de evoluir a imagem e perder a identidade. Mas quando você evolui a construção da sua imagem, você não perde identidade, você evolui”, afirma. “O problema é ficar repetindo a coleção de cinco anos atrás com outra estampa. Isso me incomoda. Eu sou inquieto.”

Quando fala de futuro, o diretor criativo volta à pesquisa de materiais e tecnologias têxteis. Um dos exemplos é uma jaqueta iluminada, que funciona com um pequeno carregador. “Não é uma árvore de Natal, mas ela acende, pisca à noite, com delicadeza. Você pode usar como jaqueta normal ou como peça de impacto em um evento noturno”, descreve.
A consolidação da Cavaleira Caviar como linha permanente passa também pela nova loja na Rua Fernão Dias, em Pinheiros, em São Paulo. O endereço, ainda em transformação, foi escolhido justamente pelo potencial de mudança urbana.

A loja foi pensada como manifesto de um “novo momento” da marca, assim como foi, no passado, a unidade icônica da Oscar Freire. “Eu vi uma loja toda em aço e aquilo me marcou. Falei: ‘Quero construir uma loja assim'”, lembra. “Mas não podia ser só aço. Precisava de uma interferência que quebrasse um pouco essa frieza.”
A solução veio com a entrada do estilista Ricardo Almeida na conversa. “Eu admiro muito o Ricardo, sou fã. Queria muito mostrar a loja para ele. Ele ajudou a escolher a cor do acrílico que usamos como detalhe. Acabou sendo um bordô, que pode ser modulado”, explica.

O resultado é um espaço quase inteiramente em aço, com cabides e ganchos metálicos, pontuado por módulos em acrílico bordô. “A loja traduz bem isso que a Cavaleira Caviar quer ser: construção, pesquisa, técnica – mas com um olhar autoral, com humor e com história.”

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