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Bianca Comparato desafia o público: afinal, quem é o monstro?

por Ligia Kas
03/08/2026
Tempo De Leitura: 8 minutos de leitura
Bianca Comparato em cena de “Autobiografia do Vermelho” – Foto: Matheus José Maria

Em “Autobiografia do Vermelho“, Bianca Comparato entra em cena sozinha, mas nunca está exatamente só. Ao longo de pouco mais de uma hora, interpreta sete personagens, divide o palco com a música executada ao vivo por Lello Bezerra e mergulha no universo poético e inquietante da escritora canadense Anne Carson. Sob a direção de Daniela Thomas, a montagem retorna ao Teatro YouTube, em São Paulo, para uma nova temporada, de 14 de agosto a 27 de setembro.

Muito mais do que uma adaptação, “Autobiografia do Vermelho” é uma experiência sensorial. O espetáculo parte do romance em versos de Carson para reimaginar o mito de Gerião, o monstro morto por Hércules, dando voz justamente àquele que a tradição transformou em antagonista. Entre poesia, música ao vivo e uma encenação que mistura teatro e movimento, a montagem acompanha a jornada de um jovem marcado pela diferença, discutindo amor, desejo, identidade, pertencimento e a maneira como a sociedade escolhe quem será chamado de herói e quem será visto como monstro.

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Aos 40 anos, vivendo um momento de maturidade artística e pessoal, Bianca encontrou nessa história um projeto capaz de atravessá-la profundamente. Foi essa inversão de perspectiva [colocar o monstro no centro da narrativa] que a fez perseguir a montagem durante anos. “Não foi um projeto que veio para mim. Acho que ele é que teve que dizer sim para mim”, conta. Ao ler o livro pela primeira vez, a atriz se impressionou não apenas com a escrita de Anne Carson, mas com o que a obra dizia sobre humanidade, relacionamentos, comportamento, amor e paixão.

A adaptação chegou a ser tentada anteriormente, mas não saiu do papel. A história reapareceu durante a gravação do audiolivro da obra, realizada ao lado de Daniela Thomas. Enquanto dirigia Bianca, Daniela começou a visualizar o espetáculo. “Ela falou: ‘Tem que ser um monólogo, tem que ser assim’. Começou a imaginar a peça durante o audiolivro. E eu pensei: ‘Isso não bate duas vezes na porta de nenhum ator. Daniela Thomas, Anne Carson… vou arrumar esse dinheiro, nem que faça alguma loucura’.”

Viabilizado com apoio de produção, do Sesc e do ProAC, o projeto finalmente ganhou vida. Hoje, em sua segunda temporada, representa para Bianca o resultado de uma insistência quase tão intensa quanto a paixão vivida pelos personagens da história.

Para explicar sua ligação com a obra, a atriz recorre a uma frase frequentemente atribuída a Charles Bukowski: “Encontre o que você ama e deixe isso te matar”. É essa ideia que ela identifica na relação entre Gerião e Hércules. O primeiro conhece antecipadamente o próprio destino, mas, ainda assim, escolhe viver a paixão. “Você sabe que vai dar merda e vive. Isso não é só no amor. A gente vive isso em várias coisas. Às vezes sente que não vai dar tão certo, mas é isso que faz a gente querer viver: chegar nesses limites e testá-los.”

Bianca Comparato em cena de “Autobiografia do Vermelho” – Foto: Matheus José Maria

Para Bianca, a história coloca em confronto permanente aquilo que a razão recomenda e aquilo que o desejo exige. “O racional está dizendo que não é a hora certa, que não é assim, e você vai lá. Gerião nasce sabendo que um dia vai morrer pelas mãos de Hércules. Quando o encontra, se apaixona e vive essa paixão.”

Carson define a relação dos dois como “wrong love”, ou “amor errado”. A expressão tornou-se uma das chaves para compreender não apenas a obra, mas também o próprio processo de criação da atriz. “É assumir os erros como força, e não como fraqueza. Como atriz, isso é lindo, porque você se permite visitar lugares que, em teoria, não deveriam existir ou não são limpos o suficiente. É o lado humano das coisas.”

Sete personagens, um só corpo

Em cena, Bianca interpreta personagens masculinos e femininos sem recorrer a grandes transformações físicas ou caricaturas. O desafio, segundo ela, não era apenas diferenciá-los, mas fazer com que as passagens entre eles parecessem naturais. “O maior desafio foi parecer fácil.”

Ela compara o trabalho ao de uma bailarina que executa um movimento aparentemente leve enquanto suporta toda a tensão física necessária para realizá-lo. “A gente olha da plateia e acha lindo, mas ela está morrendo, usando todas as forças, com o pé cheio de bolhas.”

Ao lado de Daniela Thomas, a atriz construiu transições discretas, porém precisas, capazes de fazer o público compreender imediatamente quando um novo personagem surge.”Tem um iceberg de trabalho embaixo. É muito treino, foco e repetição. Eu sou muito exigente, então essa parte foi a mais difícil para mim.”

Bianca Comparato em cena de “Autobiografia do Vermelho” – Foto: Matheus José Maria

A arquitetura do caos

Ao falar sobre Daniela Thomas, Bianca não economiza admiração. Define a diretora como uma artista “única, brilhante, visceral, intensa e profunda em cada pequena escolha”. Para ela, Daniela construiu a arquitetura que sustenta toda a encenação.

A montagem acompanha Gerião da infância à vida adulta. Conforme o personagem cresce e a profecia se aproxima, as mudanças técnicas se multiplicam e o caos passa a dominar a cena. “Já deu certo, já deu errado e já deu semicerto. Só que a peça sabe engolir isso. O caos se instaura na vida dele. A Dani montou essa arquitetura de uma forma perfeita.” Essa estrutura permite que Bianca se arrisque todas as noites sem perder a segurança. “Ela criou um ambiente seguro para que eu seja a atriz que posso ser.”

Embora seja frequentemente apresentado como um monólogo, Bianca prefere definir o espetáculo como um dueto. Ao seu lado está Lello Bezerra, responsável pela direção musical, pela composição da trilha original e pela execução ao vivo das músicas. “Eu e o Lello viramos um corpo só. É uma conversa cósmica que acontece durante o espetáculo.”

Inspirada por artistas como Laurie Anderson e Patti Smith, a trilha acompanha a cadência do texto e dialoga diretamente com a estrutura poética do romance de Anne Carson. “Há algo de poema em certas frases. Existem ensaios, deixas e um desenho musical, mas eu fico atenta a ele e ele a mim. Temos uma liberdade que deixa a peça viva. Essa é a beleza de fazer teatro.”

A presença de uma mulher interpretando personagens majoritariamente masculinos reforça outro dos temas centrais da montagem: a recusa de categorias rígidas. “É um corpo feminino que pode ser tudo isso. É uma liberdade muito grande. Não me coloque em uma caixa. Não coloque nós, mulheres, em caixas.”

Ao recuperar o ponto de vista de Gerião, Anne Carson desmonta a narrativa tradicional do herói. Quando a história deixa de ser contada por Hércules, as certezas desaparecem. “Hércules vira o monstro e Gerião vira a vítima. A missão de Hércules era aniquilar o selvagem, eliminar o diferente.”

Bianca Comparato em cena de “Autobiografia do Vermelho” – Foto: Matheus José Maria

É justamente essa inversão que faz Bianca enxergar na peça uma obra profundamente contemporânea. Para ela, o espetáculo convida o público a refletir sobre quem a sociedade escolhe transformar em ameaça e quem recebe o direito de ocupar o lugar do herói. “Hércules pode ser visto como os portugueses, e Gerião como os indígenas brasileiros. Por que essas pessoas tinham que chegar aqui e destruir? Quem é a vítima e quem é o herói?”

A atriz amplia a reflexão para o presente. “Pense nas mulheres trans, tratadas como monstros que precisam ser assassinados. Muito mais violento é quem mata essas mulheres. Não elas. Que loucura é essa?” Sem oferecer respostas prontas, a montagem prefere abrir perguntas. “Ela toca nesses temas por meio da arte e do teatro, para abrir a cabeça das pessoas.”

Entre todos os assuntos atravessados pelo espetáculo, o amor é o que mais dialoga com Bianca atualmente. “Hoje coloco em primeiro lugar na minha vida a minha família, os meus amigos e as pessoas que amo. Durante muito tempo, a carreira vinha antes. Hoje, o amor ocupa esse lugar.”

Na temporada passada, a cena que mais a emocionava era o primeiro contato físico entre Gerião e Hércules. Agora, Bianca diz que outra passagem ganhará esse espaço. “Eu sou outra pessoa. Então as coisas vão bater diferente em mim.”

Além de celebrar a escrita de Anne Carson, “Autobiografia do Vermelho” representa para Bianca um reencontro com aquilo que considera a essência do teatro: a presença. “Ficou saturado esse mundo virtual. Hoje, todo mundo precisa aparecer. O teatro virou um lugar muito único e com um valor altíssimo.” Para ela, nada substitui a experiência de dividir o mesmo espaço e o mesmo instante com o público. “Uma coisa é comentar uma série. Outra é estar em frente a um ator e sentir junto com ele.”

Bianca Comparato em cena de “Autobiografia do Vermelho” – Foto: Matheus José Maria

Afinal, quem é o monstro?

Enquanto vive novamente o universo de Gerião nos palcos, Bianca também prepara uma série de lançamentos no audiovisual. A atriz também está em “Fúria“, nova série da Netflix ambientada no universo do MMA, e da segunda temporada de “Tremembé” (Prime). No cinema, já iniciou a preparação para “Crocodila“, novo longa de Gabriela Amaral Almeida, descrito por ela como um body horror.

Mesmo com novos projetos a caminho, o desejo é que “Autobiografia do Vermelho” continue sua trajetória. Depois da temporada paulistana, os planos incluem levar o espetáculo para outras cidades do país e realizar uma temporada no Rio de Janeiro. “A gente quer muito viajar pelo Brasil com essa peça.”

Depois de tantos anos perseguindo esse projeto, Bianca espera que o público saia do teatro não apenas emocionado, mas curioso: que queira conhecer Anne Carson, descobrir Gerião e seguir fazendo perguntas muito depois de as luzes se apagarem.

Quando peço que resuma “Autobiografia do Vermelho” em poucas palavras, ela sorri. Diz que precisa de quatro, e não de três.

“Quem é o monstro?”

Tags: Anne Carsonatrizautobiografia do vermelhobianca comparatocinemaDaniela Thomasdestaque homegeriãohérculeslello bezerrapeçapúblicostreamingteatroTV
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