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Aline Fanju encara primeiro monólogo com livro que explodiu no TikTok

por Ligia Kas
24/08/2026
Tempo De Leitura: 9 minutos de leitura
Aline Fanju em cena de “Paixão Simples”- Foto: Lia Maciel

“Acho que foi uma boa hora da minha carreira para fazer um solo. Antes, talvez, eu não daria conta. Agora, sinto que cheguei a um lugar em que sou capaz.” Depois de transitar pelo teatro, pelo cinema, streaming e por novelas como “Três Graças”(TV Globo), Aline Fanju vive um dos momentos mais desafiadores de sua trajetória: encarar sozinha o palco em seu primeiro monólogo.

Com temporada no Sesc Santana, em São Paulo, de 28 de agosto a 3 de outubro, “Paixão Simples” coloca a atriz no papel da escritora francesa Annie Ernaux, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2022. Adaptado do livro autobiográfico publicado em 1991, o espetáculo revisita o envolvimento da autora com um homem estrangeiro, casado e identificado apenas pela inicial “A.”. Mais do que uma história de amor, a montagem expõe o estado de obsessão, espera e apagamento vivido por uma mulher cuja rotina passa a girar em torno dos raros encontros com o amante.

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A chegada desse trabalho à vida de Aline também carrega uma história de amizade e recomeço profissional. Após o nascimento da filha e a interrupção provocada pela pandemia, a atriz atravessava um período sem trabalhar e decidiu procurar o amigo Pablo Sanábio, ator, produtor e idealizador do espetáculo. “Eu estava em um hiato de trabalho. Engravidei, minha filha tinha um ano quando veio a pandemia e eu precisava muito voltar a trabalhar. Procurei o Pablo e, dois dias depois, ele me disse: ‘Vamos começar a ler alguns livros? Vou idealizar um solo para você’. Foi exatamente assim. Quem faz isso pela gente? É uma história muito linda”, recorda.

Os dois iniciaram, então, uma longa busca por um texto que pudesse ser levado ao palco. Leram diferentes obras até que, em 2023, Pablo apresentou “Paixão Simples” à atriz. A identificação foi imediata.“Ele falou: ‘Aline, li esse livro da Annie. Leia e veja o que você acha’. Quando terminei, respondi: ‘Pablo, é esse. Eu quero fazer esse solo’. A partir daí, começou a nossa corrida pelos direitos até que a peça finalmente chegasse aos palcos, em 2025.”

Dirigida e adaptada por Alessandra Colassanti, a montagem nasceu sob um olhar predominantemente feminino. Aline conta que a equipe criativa foi formada apenas por mulheres, uma decisão diretamente ligada à natureza da obra e aos temas levantados por Ernaux.

“Esse livro é muito feminino. Fizemos questão de que a criação passasse por um olhar feminino. Quando apresentei o trabalho pela primeira vez à equipe e vi aquela mulherada toda ao meu redor, pensei: ‘Meu Deus, isso tudo é para mim’. Veio imediatamente o peso da responsabilidade.”

O processo de ensaio foi marcado pelo medo da solidão em cena. Sem outro ator com quem dividir o palco, Aline temia carregar sozinha todas as decisões e os possíveis imprevistos do espetáculo. A experiência diante do público, porém, transformou a apreensão em liberdade. “No começo, foi assustador. Eu pensava que seria muito solitário e que tudo o que desse errado teria que ser resolvido por mim. Depois, isso virou outra coisa: ‘Que legal, sou eu que vou resolver. Deixa comigo’. O que era medo se transformou em uma sensação de poder e empoderamento.”

A atriz também descobriu que, apesar de ser a única intérprete em cena, não está realmente sozinha. Luz, som, cenário e projeções participam ativamente da narrativa e estabelecem com ela uma espécie de diálogo. A plateia completa essa troca.“Eu converso com a projeção, recebo e dou deixas para a equipe e troco diretamente com o público. Não me sinto sozinha em nenhum momento. Dá vontade de fazer muitos outros solos. Amo estar em cena com meus amigos, mas descobri algo muito prazeroso nesse formato.”

Foto: Lia Maciel

Uma paixão feita de ausência

Em “Paixão Simples”, o amante quase não aparece. O centro da narrativa é a forma como a ausência dele domina a vida de Annie. Para Aline, a obra fala menos sobre amor romântico e mais sobre obsessão, dependência emocional e solidão. “O livro conta muito mais sobre o estado em que ela ficou do que sobre o relacionamento. Mal vemos os dois juntos. É sobre a ausência desse homem e a solidão dessa mulher. Hoje damos nomes a determinadas situações que, em 1991, não eram discutidas da mesma maneira. Muitas coisas vividas pelas mulheres eram tratadas como se fossem inerentes à condição feminina.”

À espera de um telefonema, a personagem evita sair de casa, ocupa o telefone o mínimo possível e chega a deixar de usar o aspirador de pó ou o secador de cabelo por medo de não ouvir o aparelho tocar. A rotina profissional, os compromissos sociais e até a convivência com os filhos passam a ser vistos como obstáculos à possibilidade de um encontro.

Segundo Aline, tudo se resumia ao barulho do carro chegando e, depois, ao barulho do carro indo embora. O restante era espera e angústia. Ela vivia em função daquele momento curtíssimo em que ele estaria ali.

A atriz define a experiência como um desaparecimento de si mesma. Durante dois anos, Annie perde o domínio da própria vida e organiza tudo em torno de um homem que pode telefonar, prometer aparecer e levar dias para cumprir a promessa. “Ela perde as rédeas da vida e da própria organização pessoal. Existe uma fronteira entre se entregar a uma paixão e desaparecer dentro dela. Há paixões recíprocas, nas quais existe uma troca. No caso dela, estamos diante de um desejo claramente unilateral e de um apagamento da própria existência.”

Para construir a personagem, Aline acessou lembranças pessoais, assim como outras mulheres envolvidas na montagem. O desafio foi mergulhar nessas memórias sem permitir que a emoção eliminasse o trabalho técnico da atriz.

“Acho que todos nós já passamos por um apaixonamento que nos leva da lama a picos de euforia. Eu acesso esses lugares o tempo inteiro. Durante os ensaios, líamos um trecho e alguém dizia: ‘Meu Deus, lembrei de tudo agora’. Mas também preciso me afastar para não ficar apenas no emocional e conseguir fazer escolhas interessantes para a encenação.”

TikTok

Mais de três décadas após sua publicação, “Paixão Simples” voltou a ganhar destaque entre leitores jovens, impulsionado por vídeos e trechos compartilhados no TikTok. Para Aline, o fenômeno demonstra a atemporalidade do livro, e também revela que, apesar dos novos debates sobre relacionamentos, a experiência da paixão continua difícil de controlar.

“Quando vimos que o livro havia explodido entre as meninas jovens no TikTok, pensamos: ‘Que fenômeno maravilhoso’. Isso mostra a atemporalidade da obra e da própria paixão. Hoje estamos mais instrumentalizadas para discutir certas coisas, mas, quando ela nos pega de jeito, é muito difícil escapar.”

Embora a narrativa tenha um evidente recorte feminino, a atriz conta que os homens também se reconhecem na história. Nas temporadas realizadas no Rio de Janeiro, alguns espectadores procuraram a equipe para compartilhar experiências íntimas de abandono e dependência.

Segundo Aline, muitos homens assistem e reivindicam esse lugar. “Não são apenas as mulheres, eu também passei por isso”, dizem. “É muito interessante porque o homem, geralmente, não tem essa cultura de se abrir. Alguns vieram contar o que viveram e dizer: ‘Você não sabe as coisas que eu fazia’.”

Aline Fanju em cena de “Paixão Simples”- Foto: Lia Maciel

A reação predominante do público, segundo Aline, não é de condenação, mas de identificação. Para ela, julgar a personagem seria ignorar que o espectador tem acesso a pensamentos e atitudes que normalmente permaneceriam secretos.

Para Aline, Annie tem a coragem de contar coisas que talvez uma pessoa não revelasse nem para a melhor amiga. “É como se estivéssemos olhando essa mulher pelo buraco da fechadura, acompanhando sua intimidade mais extrema. Quem vê de fora pode pensar: ‘Meu Deus, a que ponto ela chegou?’. Mas muita gente já esteve nesse lugar e apenas não teve coragem de contar.”

Ernaux escreve sem tentar se justificar e sem impor julgamentos morais sobre si mesma ou sobre o amante. Essa recusa em classificar a experiência como certa ou errada é uma das características que mais impressionam Aline.

“Ela não está dizendo: ‘Fiz isso porque…’. Está apenas contando como foi. No final, conclui que ter vivido algo assim também é um poder. Acho que ela sai dessa experiência mais poderosa e mais instrumentalizada.”

A escrita foi justamente o caminho encontrado pela autora para retornar a si. Dois meses depois da partida definitiva do amante, Ernaux começou a transformar a experiência em livro. “Ela diz que a escrita a salvou. Estava submersa, e escrever foi o que a trouxe de volta à superfície. A curva da história é muito bonita. Essa mulher viveu o desejo, a obsessão e a lama, mas conseguiu se reerguer.”

Para Aline, existe ainda uma força política na decisão de uma mulher expor seu desejo sem pedir desculpas ou tentar aparentar força o tempo todo. Segundo a atriz, mostrar-se vulnerável não é uma fraqueza, já é um poder. “Ela assume que sofreu, mas também que viveu uma paixão avassaladora, erótica e quente. Depois de cumprir o papel que a sociedade esperava, casar e ter filhos, o foco passou a ser ela e o desejo dela. Acho isso muito libertador.”

Aline Fanju em cena de “Paixão Simples”- Foto: Lia Maciel

TV x monólogo

A estreia do primeiro monólogo acontece em um momento de grande visibilidade para Aline, vista recentemente como a delegada Marise em “Três Graças”. Para a atriz, televisão e teatro exigem recursos completamente diferentes.

“Na televisão, existe a exposição do alcance, o Brasil inteiro está vendo. Você pensa que precisa fazer aquela cena muito bem porque ela foi gravada e ficará ali para sempre. O teatro tem o abismo do ao vivo. A resposta é imediata e nem precisa ser verbal. Você sente a temperatura da plateia.”

Foi no teatro, ainda aos 12 anos, em Ribeirão Preto, que Aline iniciou sua trajetória. Ela integrou um grupo amador mantido pela escola e participou de festivais estudantis, conquistando seus primeiros prêmios. Quando chegou o momento de prestar vestibular, decidiu assumir definitivamente o desejo de ser atriz.

“Meu pai é engenheiro, mas me disse: ‘Filha, você vai ser atriz, porque só conseguimos ter sucesso quando amamos o que fazemos’. Foi muito bonito. Guardo isso para sempre.”

Aline Fanju em cena de “Paixão Simples”- Foto: Lia Maciel

Aline mudou-se para São Paulo, estudou no Célia Helena e depois seguiu para o Rio de Janeiro, onde completou sua formação na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL). Sua primeira peça profissional foi uma adaptação de “A Hora da Estrela”, de Clarice Lispector, na qual fazia parte do coro.

Agora, anos depois daquele início, a menina que descobriu o palco em Ribeirão Preto ocupa sozinha o centro da cena. E, se antes o monólogo parecia um território assustador, hoje Aline enxerga nele a confirmação de sua maturidade artística.

“Fazer um solo é muito difícil, mas estrear e perceber que chegou a hora certa é muito bonito. Eu me sinto preparada.”

A experiência também despertou novos desejos. Além de levar “Paixão Simples” para outras cidades do país, Aline pretende investir na escrita. Ela já criou um roteiro de curta-metragem e pensa em se aventurar na dramaturgia. Por enquanto, no entanto, sua atenção permanece voltada à mulher que espera pelo telefone tocar, e que, ao transformar a paixão em literatura, consegue finalmente recuperar a própria voz.

“Quero fazer muito essa peça ainda. Ela precisa rodar o país. Mas também gosto muito de escrever e quero começar a mergulhar nisso. Sinto que um novo território está se abrindo.”

Sesc Santana – Av. Luiz Dumont Villares, 579, Santana, São Paulo, SP.

Tags: alessandra colassantialine fanjuannie ernauxdependência emocionaldestaque homeentregalivromonólogopaixãopaixão simplessão paulosesc santanaTikTok
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