
Aos 88 anos e com mais de seis décadas dedicadas à arte, Vera Chaves Barcellos permanece movida pela mesma inquietação que atravessa sua trajetória. Uma das pioneiras da arte conceitual e da experimentação fotográfica no Brasil, ela apresenta na exposição “Não lugares”, na galeria Zielinsky, em São Paulo, trabalhos inéditos criados a partir de fotografias, vídeos, reflexos, sombras e figuras captadas em espaços de passagem.
“Creio ter uma grande inquietude e vontade de criar coisas com certo interesse e que sejam exemplos de um bom exercício de linguagem”, afirma a artista. Para ela, esse exercício está na “adequação daquilo que se faz e de como se faz”, uma busca que se renova mesmo depois de décadas de produção e diante das profundas transformações tecnológicas que alteraram nossa relação com a imagem.
Em cartaz até 3 de outubro, “Não lugares” reúne obras produzidas principalmente entre 2025 e 2026. O título remete ao conceito do antropólogo francês Marc Augé para definir ambientes de trânsito e permanência provisória, como aeroportos, estradas e salas de espera. Foi ao revisitar seu arquivo fotográfico que Vera encontrou imagens feitas durante deslocamentos e momentos de espera, muitas delas registradas espontaneamente com o celular. Em vez de documentar esses espaços de maneira objetiva, a artista recolhe detalhes geralmente ignorados, como reflexos no chão, sombras, superfícies molhadas e pessoas que surgem e desaparecem. Ao falar sobre seu olhar para aquilo que costuma passar despercebido, ela recorre ao poeta Manoel de Barros: “Sou um apanhador de desperdícios”.

As imagens ganham novas camadas por meio de inversões, negativos, sobreposições e mudanças de orientação e cor. Em “Fantasmas”, por exemplo, o chão brilhante de um aeroporto devolve apenas os reflexos invertidos dos passageiros, transformando pessoas anônimas em aparições sem identidade definida. Em outro trabalho, fotografias do trânsito de São Paulo em um dia chuvoso são convertidas em negativos e sobrepostas, fazendo com que carros, luzes e superfícies pareçam se dissolver.
Apesar da aparência espectral de parte das obras, Vera evita oferecer ao público uma interpretação fechada. “Não é propriamente papel do artista interpretar o próprio trabalho ou mesmo explicá-lo”, diz. Para ela, toda forma de arte repercute de maneira diferente em cada pessoa, de acordo com suas vivências e experiências. Essa multiplicidade, acredita, é “mais rica do que ter uma leitura dirigida”.

A exposição funciona como uma síntese de experiências desenvolvidas ao longo de sua carreira, marcada pelo interesse permanente nas possibilidades da imagem. Vera integrou o Nervo Óptico, coletivo criado em Porto Alegre que questionou os formatos tradicionais de produção e circulação da arte, e foi uma das fundadoras do Espaço N.O., dedicado à experimentação. Também participou de bienais como as de São Paulo, Veneza, Havana e Mercosul, além da histórica mostra “Mulheres Radicais”.
Mas a decisão de apresentar apenas trabalhos recentes não surgiu como tentativa de responder ao mercado ou de reafirmar sua permanência no circuito artístico. “As obras de minha atual exposição são, de certa forma, uma síntese de muitas experiências anteriores, e as fiz porque tive vontade de fazer”, afirma. “Não estou nada preocupada se ela é ou não uma resposta ao mercado. Isso não me ocorreu em nenhum momento.”
Para uma artista que iniciou sua produção no universo da fotografia analógica, atravessar a revolução digital significou acompanhar uma mudança radical na forma como as imagens são produzidas, distribuídas e consumidas. Vera considera que sua geração testemunhou algumas das transformações mais profundas e velozes da história, mudanças que, segundo ela, “nem sempre” ocorreram para melhor, sobretudo nos últimos anos.

“Em um mundo saturado de imagens devido à facilidade da produção massiva de fotografias digitais, enfrento a dificuldade de criar algo minimamente instigante e atrativo e que ‘diga’ algo mais”, afirma.
É justamente nesse confronto com a saturação visual contemporânea que “Não lugares” encontra sua força.
Aos 88 anos, Vera Chaves Barcellos continua procurando, em meio ao excesso, imagens capazes de interromper o olhar, e transformar aquilo que parecia passageiro, banal ou descartável em matéria de arte.
Galeria Zielinsky -Travessa Dona Paula, 33, Higienópolis, São Paulo, SP.



