
A relação de Bruno Olly com a moda começou dentro de casa, no Piauí. Neto e filho de costureiras, ele cresceu em meio a linhas e tecidos, acompanhando o trabalho da avó e da mãe. “A moda entrou na minha vida desde a infância, porque eu tenho essa vivência familiar com minha avó e minha mãe, que elas foram mulheres que sustentaram os filhos e os netos através da costura”, conta. “Isso sempre esteve próximo de mim, e quando chegou uma certa idade onde eu comecei a trabalhar como estilista do setor de tecidos de uma loja, isso se tornou mais vívido na minha vida e entendi que a partir daquele momento aquilo era a minha paixão, sabe? Era um legado de família que eu poderia levar pra frente.”

Sem curso superior em moda por perto, ele buscou livros usados em faculdades. “Eu sempre fui um menino muito curioso. Apesar de não ter faculdade de moda na minha cidade, eu lia livros que eram estudados na faculdade, que tinham a história da moda.”
Em 2012, Bruno decidiu se mudar para Fortaleza. A ideia inicial era estudar e voltar, mas acabou ficando. Na capital cearense, ele começou a participar de concursos de moda e a construir presença no circuito local. “Fui participando de concursos de moda, né, mas sempre carregando esse legado da minha avó, sempre homenageando minha avó e minha mãe de todas as formas, encarando esses desafios para que tanto eu tivesse conhecimento como as pessoas soubessem aqui da minha existência quanto profissional.”

O interesse por um guarda-roupa masculino diferente apareceu na adolescência, influenciado pela programação da TV. “Na minha época de adolescente se tinha a MTV, que passava aqueles clipes das divas pop, os cantores de hip hop”, lembra. “Eu sempre me questionava do porquê que o guarda-roupa masculino não era tão vasto quanto desses cantores de hip hop, com calças com tecidos e texturas e recortes diferenciado.”
Ao longo dos anos, Bruno consolidou a Bruno Olly Studio, hoje sediada em Fortaleza, com foco em streetwear e modelagens amplas. Sua produção parte das próprias vivências. “Eu sou muito apegado às minhas vivências quanto a esse menino preto, E às minhas raízes, então eu trago essa energia”, explica. “Cada coleção conta um pouco de histórias minhas, só que através de uma forma lúdica. Gosto de misturar, por exemplo, uma vivência minha com uma causa.”

Dentro da marca, ele criou uma persona masculina que atravessa várias coleções. “Hoje, dentro do meu trabalho, eu tenho uma persona para poder direcionar essa históri E eu conto várias facetas desse homem dentro da marca”, diz. “Por exemplo, já falei da questão da ansiedade na vida desse homem preto quanto um cara de comunidade. Já falei da infância dele através da minha, contando da minha, dessa questão do brincar com pipas na infância, assistir TV Globinho.”
Bruno afirma que ainda busca caminhos para incluir elementos do Piauí de forma mais direta em seus projetos. “Ainda tem muito mais o que explorar,da parte cultural do Piauí, eu ainda não consegui encaixar dentro dos meus projetos, mas eu já estou pensando em como trazer isso”, pontua.

O streetwear é o campo de expressão escolhido por Bruno. “Sou apaixonado por esse movimento de cidade, dessa coisa mais urbana, E, ao mesmo tempo, eu tenho um amor tão grande pelo masculino e sinto a necessidade tão grande de explorá-lo, sabe?”, diz. “Por isso que eu sou apaixonado pelo street. Ele me dá a possibilidade de tentar trazer novas coisas para dentro dessa nossa cultura nordestina.”
Na frente comercial, a Bruno Olly Studio atua em dois formatos: ateliê e e-commerce. “Hoje, tenho um ateliê onde eu faço um atendimento mais exclusivo, e também faço algumas exclusividades para alguns clientes e alguns famosos quando eles chegam. Enquanto eu tenho o e-commerce, que são os produtos de coleção, que já são modelos pré-definidos”, explica.

A marca não trabalha com estoque. Todas as peças são produzidas sob demanda. “Eu não faço estoque, porque eu acho interessante quando eu consigo dar liberdade para o cliente, ele me dizer o tamanho que ele quer, independente do modelo da peça”, detalha.
Para Bruno, esse modelo aproxima público e processo produtivo. “Ao trabalhar sob demanda, me dá essa liberdade de eu trabalhar com diversidade de corpos e, ao mesmo tempo, pensar nessa questão da sustentabilidade no sentido de fazer vários produtos, deixá-los estocados a acabar, eles ficarem com o tempo deteriorados, estocados e sem sair do lugar.” As peças-piloto das coleções ficam no ateliê, servindo de base para novas encomendas.

Sobre o futuro, ele projeta expansão geográfica. “O meu sonho um dia é chegar em São Paulo, é chegar nesse espaço e mostrar para as pessoas o meu trabalho”, revela. “Desde o início, as pessoas sempre veem meus clientes, pessoas que conhecem meu trabalho, chegam para mim e dizem, ‘Bruno, tu tinha que estar em São Paulo, tu tinha que estar em São Paulo, tuas roupas são muito parecidas com esse universo, a galera de lá ia ficar louca a partir do momento que tu fizesse parte desse line-up de estilistas por lá’.”

Enquanto isso, prepara novos passos. “Agora surgiu essa oportunidade de desfilar em Brasília. Então, pra mim, já é um grande passo. Já estou bem perto de São Paulo”, conclui.



