
Depois de 19 edições sustentadas pelas próprias marcas participantes, o Fashion Weekend Plus Size (FWPS)precisou se reinventar. A pandemia interrompeu os desfiles, empresas que ajudaram a construir a história do evento fecharam as portas ou reduziram suas grades de tamanhos, enquanto a concorrência chinesa e a volta da magreza extrema como padrão de beleza agravaram a crise do mercado plus size.
Foi por meio dos editais públicos de cultura e economia criativa que o FWPS encontrou um novo caminho. Se antes precisava seguir uma lógica essencialmente comercial, agora passou a experimentar os formatos que sua idealizadora, Renata Poskus, sempre desejou realizar. Em 2024, a programação destacou talentos da periferia. Neste ano, a 21ª edição coloca no centro da passarela pessoas gordas LGBTQIAPN+.
“Quando falamos de diversidade na moda, avançamos na representação de corpos gordos e avançamos na representação LGBTQIAPN+, mas nem sempre essas duas identidades aparecem juntas”, observa Renata. “A pessoa gorda LGBTQIAPN+ continua tendo poucas oportunidades de ser vista não apenas como consumidora, mas como modelo, artista, estilista, produtora, criadora e protagonista da própria história.”
A Mostra LGBTQIAPN+ do Fashion Weekend Plus Size acontece nos dias 7 e 8 de novembro, na Fábrica de Cultura 4.0 de São Bernardo do Campo. Com entrada gratuita, a programação reúne desfiles, oficinas, shows, palestra sobre economia criativa, exibição de documentário e roda de conversa. “A mostra nasce para ocupar esse espaço. Queremos mostrar que corpos gordos LGBTQIAPN+ existem, criam, desejam, trabalham, produzem cultura e têm direito à beleza, à moda e à visibilidade. E queremos fazer isso sem pedir licença”, afirma a diretora.

Três gerações
A campanha da edição reúne Rúbia Ponick, Gretta Star e Luanna Rangell, três mulheres com idades e trajetórias distintas. Modelo plus size e professora, Rúbia desfila no FWPS desde 2015 e agora também integra a direção da mostra, ao lado de Renata Poskus e Vilma Queiroz.
Luanna Rangell, personagem do artista transformista Weslley Bheckystter, representa a juventude e a renovação. Nascida artisticamente em Diadema, ela estreia na passarela do evento levando consigo a energia de quem encontrou na cena plus size um espaço de expressão e pertencimento.
Na outra ponta desse encontro está Gretta Star. Aos 71 anos, a veterana da cena transformista brasileira carrega décadas de arte, ativismo e resistência. Para Renata, sua participação combate dois apagamentos ainda muito presentes na moda: o de pessoas LGBTQIAPN+ e o de mulheres mais velhas. “O envelhecimento é tratado como se significasse desaparecimento. Isso é especialmente cruel com mulheres LGBTQIAPN+, porque muitas passaram décadas enfrentando preconceitos e construindo espaços que hoje beneficiam as gerações mais jovens”, diz. “Gretta chega à passarela carregando memória, experiência, arte e resistência. Nós não apagamos quem veio antes para construir o que existe hoje.”
Diversidade
O compromisso com a inclusão também aparece no casting: 75% dos participantes são pessoas negras. O evento terá ainda modelos idosos e pessoas com deficiência, entre elas profissionais gordas, trans, surdas e periféricas.
Segundo Renata, não basta colocá-las na passarela. A estrutura contará com monitoras de inclusão e intérpretes de Libras para acompanhar modelos e público durante as atividades. “Essas violências não acontecem de forma isolada. Elas podem se somar e tornar ainda mais difícil o acesso ao trabalho, à representação e aos espaços de decisão”, explica. “Diversidade não pode ser apenas uma imagem bonita; precisa também significar acesso a trabalho, renda, reconhecimento e poder de criação.”
Essa transformação exige que pessoas gordas e LGBTQIAPN+ sejam contratadas não somente como modelos, mas também como estilistas, fotógrafas, produtoras, maquiadoras, jornalistas, gestoras e profissionais de comunicação. “Quando pessoas diferentes passam a participar das decisões, a própria indústria começa a enxergar necessidades e possibilidades que antes permaneciam invisíveis”, afirma Renata.
Realizada com recursos da Política Nacional Aldir Blanc, a mostra pretende deixar um legado que ultrapasse os dois dias de programação. “O legado não termina quando a última modelo sai da passarela”, diz a diretora. “Ocupar um equipamento cultural público com corpos gordos LGBTQIAPN+ significa afirmar que essas pessoas pertencem à cidade, à cultura e à produção de conhecimento.”
Fábrica de Cultura 4.0 de São Bernardo do Campo – Av. Armando Ítalo Setti, 80, Baeta Neves, São Bernardo do Campo, SP.
Entrada: gratuita



