
Após ser livro, peça e filme, “Feliz Ano Velho” se transforma em um musical que une o teatro ao cinema. Enquanto isso, ele prova que clássicos são clássicos por um motivo. Adaptando o livro autobiográfico de Marcelo Rubens Paiva para a seu primeiro musical, a produção aborda o acidente do autor, seu tempo no hospital e reabilitação. Claro, sem deixar de passar pela prisão e desaparecimento de seu pai, Rubens Paiva, durante a ditadura militar. Assim como a obra original, o musical corre de maneira não linear e transita entre passado e presente narrados pelo Marcelo jovem de Hugo Bonèmer e sua versão mais velha de Bruno Garcia.
Garcia também assume o papel de Rubens nas cenas em que não interpreta Marcelo. Junto deles, Heloísa Périssé completa o trio de protagonistas como Eunice Paiva. Já no coro estão talentos como Ingrid Gaigher, Lázaro Menezes, Renan Mattos, Luciano Mallmann e Mattilla. Quem assina a direção é Gustavo Barchilon e Marilia Toledo se encarrega da dramaturgia. Vale destacar que além do livro, a adaptação teatral de Alcides Nogueira de 1983 também serviu de ponto de partida para o musical.
Na posição de protagonista, Bonèmer vive Marcelo Rubens Paiva com intensidade, especialmente durante o período da sua recuperação do acidente. Praticamente sem sair de cena em um fôlego que parece interminável, ele transmite com sinceridade a realidade de um jovem que perde os movimentos do corpo e tem que aprender a conviver com sua nova realidade. Puxando a trama para o ambiente político e maternal, a Eunice de Heloísa se mostra cuidadosa com o filho ao mesmo tempo em que luta para descobrir o paradeiro do marido. Enquanto isso, a todo momento “Feliz Ano Velho” resgata o contexto da ditadura militar e o anseio dos jovens daquela geração por conseguirem se expressar.
Atrás das cenas impera a cor vermelha em um fundo sem figuras. Os ambientes onde elas se desenrolam não aparecem fisicamente no palco. No lugar, a cenografia gira em torno de estruturas que parecem escadas e trepa-trepas. A partir delas, os atores criam carros, macas, parques e até o lago onde Marcelo se acidentou. Mas, o grande destaque são as enormes telas suspensas que recebem imagens transmitidas em tempo real por câmeras que entram e saem do palco.
Apesar dessa não ser uma tecnologia completamente inédita no teatro musical, em “Feliz Ano Velho” ela é quase essencial. Especialmente nas primeiras cenas, logo após o acidente que abre o espetáculo, Bonèmer passa boa parte do tempo deitado. Logo, uma câmera posicionada bem acima do seu rosto permite que o público acompanhe suas expressões faciais a cada segundo, incluindo o momento em que ele percebe que não consegue se mexer. Com isso, o impacto das cenas aumenta muito e o musical ganha ainda mais peso.

Outros momentos também se beneficiam com essa tecnologia. Por exemplo, Ingrid Gaigher e Heloísa Périssé ganham muita expressividade com a possibilidade de encarar o público de perto. Além disso, as imagens nas telas expandem o número de dimensões que o teatro pode explorar, incluindo a adoção de efeitos visuais que multiplicam o número de atores em cena.
A escolha de trilha sonora pode parecer um pouco clichê em um primeiro momento. Entre os nomes que formam o repertório estão, para citar apenas alguns, Titãs, Legião Urbana, Cazuza, Paralamas do Sucesso, Rita Lee e Lulu Santos. Mas, conforme o enredo avança e o público se aprofunda na década de 1980, essa escolha passa a fazer cada vez mais sentido.
Títulos como “O Tempo Não Para”, “Geração Coca-Cola”, “Que País é Este” e “É Preciso Saber Viver” não só refletem o pensamento da juventude da época, como também criam um panorama do som dessa geração. Com o apoio da banda, o rock nacional da época chega intensamente ao palco. Por outro lado, as vozes dão uma aparência moderna para as músicas, resgatando sucessos de mais de 40 anos sem alienar as gerações mais novas. Porém, para aqueles que já conhecem um pouco desse universo, isso se transforma em um divertido jogo de bingo, esperando para descobrir qual será a próxima música.
No seu conjunto, “Feliz Ano Velho” consegue unir o teatro musical ao cinema, sem deixar de lado o seu passado como livro, peça e filme. Muito além de contar a história de Marcelo Rubens Paiva, o espetáculo expande esse tema para algo que alcança o retrato de uma geração.
Teatro Sabesp Frei Caneca: Rua Frei Caneca, 569, Consolação, São Paulo, SP. Até 22 de novembro. Ingressos à venda pela Uhuu.



