
Em “A Igreja do Diabo”, a Diaba quer um fandom e fazer um rebranding do inferno. É a partir dessas atualizações que o conto de mesmo nome de Machado de Assis ganha uma adaptação musical em São Paulo. O enredo segue o mesmo caminho: o Diabo (no caso do espetáculo, Diaba), cansado das suas atividades de sempre, decide criar sua igreja e conquistar seus próprios seguidores. Sob a sua nova comunidade, seus “fãs” invertem a lógica dos valores católicos a partir dos sete ditados capitais e sob o lema “ser ruim é bom, ser bom que é ser ruim”.
Na versão musical, assinada e dirigida por Guilherme Gila, a Diaba escolhe a São Paulo dos dias atuais para fundar sua igreja. Nesse contexto, a nova organização segue os moldes de uma igreja evangélica, com direito a pastor, músicas de culto e personagens caricatos. Quem dá vida à diaba é Edyelle Brandão, que retorna ao papel três anos depois da estreia original. Por sua vez, Giovanna Brandão, Olivia Lopes, Raphael Mota, Aron Luiz e Rupa Figueira interpretam os fiéis e outras figuras que preenchem a trama.
Mas Gila não se encarrega apenas da direção geral e da dramaturgia, como também é o autor das músicas. Cada um dos números musicais transita por um gênero diferente como funk e R&B. Já as letras e o texto carregam uma enxurrada de humor que alfineta a situação política atual do Brasil. Por exemplo, personalidades que defendem intolerância e violência recebem permissão para abraçarem suas características mais detestáveis e ainda ganham aplausos na nova organização.
Além disso, ao longo de todo o musical, “A Igreja do Diabo” trabalha para incluir a plateia no universo do enredo. Toda a segunda metade do espetáculo se desenvolve dentro de uma reunião da igreja e o público passa a ser incluído entre os fiéis. Porém, tudo isso começa antes mesmo do início do musical. Ao entrar no teatro, a plateia é recebida pela produção com tiaras com chifrinhos de diabo e os dizeres “seja mal vindo”. Dessa forma, completamente imersa na experiência e cativada pelas sacadas de humor, ela ainda participa da nomeação de personagens e interage entre si sob os comandos do pastor.
Em um convite tentador e diabolicamente divertido para encarar os piores lados da natureza humana, “A Igreja do Diabo” confronta as fronteiras entre o que a sociedade considera aceitável e inaceitável. E, uma vez incentivada a agir de acordo com os valores da Diaba, evidencia as contradições e as falhas em aceitar um conjunto único de regras como verdade absoluta.
Teatro Estúdio: Rua Conselheiro Nébias, 891, Campos Elíseos, São Paulo,SP. Até 25 de outubro. Ingressos à venda pela Sympla.



