
Sexo, casamento, trabalho, maternidade, família e o direito de decidir sobre o próprio corpo. Nada escapa ao olhar provocador da dramaturga britânica Alice Birch, que ganha sua primeira montagem teatral no Brasil com “Revolte-se. Ela disse. Revolte-se de novo.”. Dirigido por Fernando Vilela, o espetáculo da Verve Cia estreia em 3 de novembro no Teatro do Núcleo Experimental, em São Paulo, onde fica em cartaz até 2 de dezembro, com apresentações às terças e quartas-feiras, às 20h.
Conhecida por uma escrita afiada e pouco convencional, Birch dispensa a narrativa linear para construir uma sequência de situações que expõem as diferentes formas de opressão enfrentadas pelas mulheres. Das relações afetivas ao ambiente profissional, das expectativas familiares às imposições sobre o corpo feminino, a peça coloca em xeque comportamentos e estruturas sociais que, apesar dos avanços conquistados, continuam reproduzindo desigualdades.
Em cena, as situações se repetem, se sobrepõem e se acumulam, sem oferecer respostas fáceis ou soluções reconfortantes. A proposta é justamente provocar desconforto e reflexão sobre violências que nem sempre são percebidas como tais, mas fazem parte do cotidiano de muitas mulheres.
Para Fernando Vilela, a estrutura fragmentada do texto encontra uma conexão direta com a realidade brasileira, especialmente em um momento em que a violência de gênero permanece no centro do debate público. “Na dramaturgia de Birch, as repetições e sobreposições, sem um fechamento imediato, refletem uma ideia central de não haver resolução, e sim acúmulo. Essa lógica dramatúrgica encontra um espelho inquietante na realidade brasileira contemporânea, onde as violências de gênero deixaram de ser exceções isoladas e se manifestam como padrões que atravessam instituições, discursos e corpos”, afirma o diretor.
Mais do que denunciar agressões físicas ou emocionais, “Revolte-se. Ela disse. Revolte-se de novo.” investiga os mecanismos silenciosos que sustentam relações de poder. A dramaturgia atravessa questões históricas do feminismo e chega a discussões atuais sobre identidade, interseccionalidade, autonomia e justiça social, mostrando como antigas disputas por direitos continuam presentes sob novas formas.
A montagem também dá continuidade à pesquisa artística da Verve Cia, que, desde 2018, desenvolve trabalhos voltados às tensões da vida contemporânea. Violência, identidade, relações sociais e experimentações de linguagem estão entre os principais interesses do grupo, que aposta no teatro como espaço de questionamento e confronto de ideias.
Quem é Alice Birch?
Um dos nomes de destaque da dramaturgia britânica contemporânea, Birch construiu uma carreira marcada por textos que desafiam convenções narrativas e mergulham nas contradições das relações humanas. Sua escrita combina experimentação formal, crítica social e personagens atravessadas por conflitos íntimos e coletivos.
Entre seus trabalhos mais reconhecidos está “Anatomy of a Suicide” (2017), peça que investiga as relações entre três gerações de mulheres de uma mesma família, abordando saúde mental, maternidade e traumas transmitidos entre gerações. O texto conquistou reconhecimento da crítica britânica, incluindo o prêmio de Melhor Nova Peça do Critics’ Circle Theatre Awards.
Agora, com sua dramaturgia chegando pela primeira vez aos palcos brasileiros, Birch apresenta ao público uma obra que transforma a revolta em linguagem teatral e faz de uma pergunta aparentemente simples uma provocação urgente: até quando as mulheres precisarão lutar pelas mesmas liberdades?
Teatro do Núcleo Experimental – R. Barra Funda, 637, Barra Funda, São Paulo, SP. Ingressos na Sympla.



