
Um ovo sobre a mesa desencadeia pensamentos sobre existência, Deus, amor e cotidiano. Em “O Ovo e a Galinha”, Ana Hartmann interpreta Clarice Lispector enquanto a escritora lê o próprio conto e experimenta, em cena, as imagens e sensações provocadas pelo texto. Dirigida por Joana Medeiros, a montagem fica em cartaz no Teatro Oficina até 8 de dezembro. Serão 16 apresentações, às segundas e terças-feiras, às 20h.
A dramaturgia mantém o conto como centro da encenação e o atravessa com imagens, sons, objetos, luz e vídeo. Ana é a única atriz em cena, mas divide a ação com uma equipe técnica que participa do jogo teatral. Câmeras ao vivo transmitem imagens para o telão, criando uma camada de cinema em tempo real.
A concepção audiovisual é de Ciça Lucchesi, artista ligada ao Teatro Oficina. A pesquisa visual parte da geometria do ovo e de sua presença em diferentes mitologias e culturas, além de incorporar imagens de Clarice, referências religiosas e elementos ligados ao mar. Antes do início da peça, imagens e sons de praia recebem o público. “É para eles já irem entrando num outro estado mesmo, mais meditativo ali, ao mesmo tempo que já chega e já tem alguma coisa acontecendo”, diz Ciça. Na abertura, as projeções também apresentam a participação de Clarice no 1º Simpósio de Bruxaria de Bogotá, na Colômbia, em 1975. A escritora levou justamente “O Ovo e a Galinha” ao encontro. Há diferentes relatos sobre o que aconteceu naquela ocasião, e a montagem parte dessa incerteza para imaginar Clarice diante do público.

Vidro, espelho, fumaça e objetos cotidianos (entre eles uma mala, uma folha em branco e grandes objetos de limpeza) compõem a cena. A arquitetura do Teatro Oficina também integra a dramaturgia, com seus diferentes planos e pontos de observação, que influenciam a relação entre a atriz e o público.
A ideia do espetáculo surgiu em 2017, a partir de uma proposta de Joana Medeiros. Depois de anos de pesquisa, leituras e ensaios abertos, parte do processo aconteceu no próprio Oficina, antes de a peça estrear no Rio de Janeiro. A temporada paulistana marca o retorno de Ana Hartmann ao teatro onde começou sua carreira como atriz, em 2012. Ela integrou montagens da companhia, como “As Bacantes” e “Cacilda!!!”, dirigidas por Zé Celso Martinez Corrêa.
No teatro, Ana também atuou em “Killer Joe”, de Mário Bortolotto, pelo qual recebeu o Prêmio Quem Revelação. Na televisão e no streaming, participou de produções como “Onde Nascem os Fortes”, “Feras”, “Rio Connection” e “Reality Z”. No cinema, esteve em “Barba Ensopada de Sangue” e “O Pastor e o Guerrilheiro”.
Em “O Ovo e a Galinha”, a atriz acompanha as transformações provocadas pelo conto e conduz a peça por um território em que pensamento e ação se misturam. Clarice, o ovo, a galinha e a própria máquina teatral passam a ocupar o mesmo espaço.
Teatro Oficina – Viaduto Jaceguai, 520, Bela Vista, São Paulo, SP. Ingressos na Sympla.



