
Representante brasileiro na disputa por uma vaga no Oscar de melhor filme internacional, “Feito Pipa” propõe um olhar sensível sobre a infância e a velhice. Dirigido por Allan Deberton e escrito por André Araújo, o longa cearense se desenrola no interior nordestino. Nele, Gugu (Yuri Gomes) experimenta uma infância livre, feliz e genuína, enquanto mora com Dona Dilma (Teca Pereira), sua avó. Já seu pai, Batista, interpretado por Lázaro Ramos, vive um segundo casamento e tenta se fazer presente na vida de um filho que ele não compreende direito.
Mas o coração do enredo mora na relação entre Gugu e Dona Dilma. Sob o mesmo teto, um encontra no outro um refúgio para viver da sua forma mais autêntica possível. Dona Dilma é uma senhora que gosta de se vestir bem, dançar, se maquiar e namorar. Da mesma maneira, Gugu liberta seus trejeitos afeminados, se destaca no futebol e se adorna com brilhos e roupas coloridas ao som de Cyndi Lauper e Lady Zu. Por outro lado, fora da casa que dividem, o menino se depara com hostilidades de colegas da escola e o distanciamento de um pai que o enxerga como um “palhaço de circo”.
Logo nas primeiras cenas, ambos os personagens conquistam a afeição do público. Suas personalidades divertidas e a conexão carinhosa criam um ambiente acolhedor para o começo do longa. Porém, a seca traz de volta as ruínas de uma cidade inundada para a construção de uma barragem. A partir desse momento, as memórias de Dona Dilma não são mais as mesmas e o passado começa a se transformar no seu presente. Confusa, ela passa a ter dificuldades de cuidar de si e do neto, mas insiste que consegue dar conta de tudo.
Essa construção resulta em cenas potentes em que ela não reconhece mais Gugu. Por sua vez, o menino se vê na responsabilidade de cuidar da avó e da casa como se fosse um adulto. Infelizmente, a doença de Dona Dilma avança a ponto de separar a dupla: ela em uma casa de repouso e ele na casa do pai. O público entra em contato com toda essa situação a partir das experiências de Gugu, e apenas dele. Onde a câmera está, lá está ele também. Talvez por isso, nunca chegamos a saber o nome da condição de Dona Dilma.

Como um todo, “Feito Pipa” traça um retrato do envelhecimento a partir dos olhos de uma criança que faz o que pode para entender o que acontece com sua avó. Isso passa pela mágoa de não se ver reconhecido, tentativas desastradas de lidar sozinho com a situação e, por fim, a raiva de estar longe do conforto de Dona Dilma. Em outros momentos, porém, o filme nos relembra que Gugu é uma criança e não deixa o enredo cair apenas no drama e na tragédia. Pelo contrário, a obra traz alívio no humor das interações entre as crianças e nas falas soltas de Dona Dilma que arrancam risadas do próprio Gugu.
Quanto à relação de Gugu com Batista, o longa toma o cuidado de, mais uma vez, dar profundidade à narrativa. Em momento algum, “Feito Pipa” tenta esconder ou justificar a homofobia e o preconceito do personagem, e tampouco o deixa cair em clichês vilanescos. O roteiro, ao lado do trabalho de Lázaro Ramos, transforma Batista em um homem que nutre um carinho genuíno pelo filho, mas que é incapaz de vencer a barreira do preconceito e expressar esse carinho.
Por fim, a barragem traz para a trama as respostas sobre a ausência da mãe de Gugu e mais uma conexão com o tema das memórias. O público não precisa de muito tempo de filme para entender porque o menino é criado pela avó. No entanto, conforme o nível da água diminui e as ruínas começam a aparecer, bagunçando as memórias de Dona Dilma, vão surgindo dicas de sua localização. Primeiro com seu nome, depois sua personalidade e, finalmente, seu paradeiro.

Mais do que isso, a imagem da barragem se desenvolve paralelamente às relações da família. Quanto mais ruínas são reveladas, mais memórias deixam Dona Dilma. Ao mesmo tempo, tanto Gugu quanto sua avó são deslocados da sua casa para lugares desconhecidos, assim como teria acontecido com os moradores da cidade em ruínas.
Até o momento, “Feito Pipa” já circulou por festivais internacionais e recebeu premiações importantes como o Urso de Cristal no Festival de Berlim, e cinco Kikitos no Festival de Gramado. Entre eles, melhor direção, melhor atriz e melhor ator coadjuvante. O filme estreia no dia 05 de novembro de 2026.



