
Os microplásticos têm aparecido em diversos debates sobre sustentabilidade e entre estudos científicos. Mais recentemente, as roupas de tecidos sintéticos entraram na conversa, entre eles o poliéster, poliamida, acrílico, elastano e polipropileno. Um estudo recente da Universidade de Memphis encontrou resultados que podem apontar para uma relação entre o poliéster e a liberação de microplásticos no ar.
O termo “microplásticos” engloba partículas plásticas menores do que cinco milímetros. Eles podem, ao mesmo tempo, aparecer nessas dimensões em usos industriais ou como resultado da decomposição do plástico. Já que o material não se degrada completamente na natureza, ele se quebra em partes cada vez menores até chegar ao tamanho do microplástico. Além disso, é importante considerar que, desde 1907, quando Leo Baekeland criou o primeiro plástico sintético, a indústria abraçou o material em ampla escala. Ou seja, é impossível calcular com precisão quanto plástico, ou microplástico, ainda existe na natureza.
Quase 120 anos depois, esses resquícios aparecem na água, comida, ar e animais na forma de microplásticos. E os seres humanos não fogem deles, com microplásticos sendo detectados no cérebro, pulmões e órgãos reprodutivos. De acordo com a Universidade de Medicina de Stanford, entre dez e 40 toneladas de microplásticos chegam ao meio ambiente todo ano. Com estimativas que esse número dobre até 2040. Porém, vale destacar que os estudos sobre o seu impacto na saúde humana, animal e ambiental ainda engatinham.
É isso que acontece com a pesquisa da Universidade de Memphis, intitulada “Microplastic Particles in Personal and Indoor Air”. Antes de mais nada, como metodologia, os pesquisadores recrutaram dez participantes que usaram camisetas 100% algodão e 100% poliéster por 12 horas de atividade em dias diferentes. A partir disso, os pesquisadores coletaram três amostras do ar do quarto dos participantes: uma “limpa” após 12 horas de sono, após o uso do poliéster e após o uso do algodão.
O ar coletado passou por um conjunto de técnicas na chamada espectroscopia de infravermelho por transformada de Fourier em microescala (micro-FTIR). Nela, cada uma das partículas ganha uma espécie de impressão digital que os pesquisadores podem analisar e identificar com base em tamanho e composição química. Os resultados sugerem que o uso de poliéster aumenta em 42% a exposição a microplásticos em comparação com o algodão, e 40% em relação com o ar “limpo”.
Outra forma de analisar os resultados encontrou cerca de 2000 partículas de microplásticos por metro cúbico de ar quando as pessoas usavam poliéster. Dessas 2000 partículas, os participante inalaram uma média de 15 por minuto. Sendo entre 67% e 77% menores que 300 milésimos de milímetro, as dimensões aproximadas de um grão de poeira, tamanho suficiente para serem inaladas profundamente. Quanto à composição das amostras, o plástico mais presente era o politereftalato de etileno, o famoso PET. Figurinha carimbada das roupas de poliéster, o PET esteve presente entre 99% das partículas de microplásticos detectadas pelo estudo.
Chunrong Jia, um dos professores envolvidos no estudo, explica que as descobertas sugerem que as roupas de tecidos sintéticos contribuem para a liberação de microplásticos no ar que o indivíduo respira. No entanto, Farhad Jazaei, que também participou da pesquisa, esclareceu que os resultados são apenas preliminares e ainda precisam mais variedade amostral e repetições para levarem à conclusões de fato. “Cientistas devem continuar a melhorar os métodos de medição e reduzir incertezas. Já que os impactos a longo prazo dos microplásticos na saúde e no ambiente ainda não são entendidos completamente, é especialmente importante conscientizar as gerações mais novas”, concluiu.



