
Em 2007, ele percorreu mais de 300 endereços para mapear a cena LGBT+ de São Paulo num guia publicado pela Publifolha. Quase duas décadas depois, o jornalista cearense Sérgio Ripardo muda de território e leva a ficção para a periferia de Fortaleza, onde estão suas raízes. “Picaresca: Histórias Suburbanas” reúne contos à moda de “Pulp Fiction”, com sexo, violência e humor, e será lançado no sábado (31/10), a partir das 16h, na BenSeja Cuscuzeria e Café, no Butantã.
Ripardo deixou o Ceará em 2000 para trabalhar na redação da Folha de S.Paulo, onde cobriu cultura LGBT+ no site do jornal entre 2005 e 2008. Em 2009, integrou a equipe fundadora do portal R7. De 2010 a 2012, foi editor da extinta Livraria da Folha.
Agora, ele aposta na criação independente. “Picaresca” saiu pela SR Conteúdo, selo fundado pelo próprio autor, numa produção artesanal, e é vendido pela Amazon.

O livro também é um gesto de preservação. Reúne textos que foram a primeira experiência do autor impressa em jornal. A ficção, porém, começou na infância. Alvo de bullying e excluído do futebol no recreio, o menino encontrou abrigo na biblioteca da escola, onde descobriu a leitura e passou a inventar histórias.
Para o lançamento, Ripardo buscou um lugar que dialogasse com o público e com os cenários de suas histórias. A primeira opção era Santa Cecília, bairro onde morou, ao lado da Folha, e que reúne migrantes de várias partes do país e leitores abertos à linguagem experimental e a formatos originais. “Queria que fosse na pequena e fofa livraria Sentimento do Mundo, em um casarão histórico na Barão de Tatuí, hoje o epicentro literário da região, com seus cafés e editoras independentes. Mas a Sentimento do Mundo fechou no início do ano e opera apenas online. Acabei escolhendo uma cuscuzeria no Butantã, para onde me mudei no início do ano em busca de silêncio e de mais casinhas com teto de telha”, conta.
A casa escolhida também nasceu de um recomeço. A BenSeja foi criada há um ano pela chef sergipana Shirlane Nunes, ex-corretora de imóveis, e celebra dois ícones da cozinha nordestina: o cuscuz e a tapioca. Agora, recebe também as pequenas histórias de Ripardo, que, segundo ele, vêm de territórios cujos moradores raramente são ouvidos e quase sempre aparecem estereotipados.
Leia um conto do livro
“Carmela no SulB”
Carmela passou dias pensando no futuro. Queria deixar a vida no cabaré. Tratou de falar com Quitéria da Boléia, a caminhoneira com quem costumava sair. A menina, sem jeito, procurou Lurdinha, a dona do bordel, pra contar tudo.
“Vou tentar a vida em São Paulo.”
“Olha, Carmela, cidade grande é dose. Tem violência.”
“Estou cansada daqui. Todo dia a mesma coisa. Nada acontece. Quero conhecer coisa nova, gente nova.”
“Você já é de maior e vacinada. Faça o que você quiser.”
O grande dia chegou. Quitéria da Boléia estacionou o caminhão em frente ao cabaré da Lurdinha. Carmela se despediu das amigas, que choravam a partida da menina. Como adorava uma frase de pára-choque, Quitéria olhou para as quengas e despachou mais uma pérola das estradas: “Turbinado no pé, reduzido no mé, carona só muié”. Lurdinha respondeu, na bucha: “Na vida tudo é passageiro, menos o motorista e o cobrador”. O caminhão sacudiu a poeira e seguiu a estrada. Após uma noite de viagem, Carmela já estava impaciente. Pensava que chegava a São Paulo no piscar de olhos.
“Não dá pra ir mais rápido, Quitéria?!”
“Por causa da pressa, é que a mosca nasceu sem osso.”
Parada para fazer xixi. Era noite e, de tanto passar a mão nas pernas de Carmela, Quitéria já estava cheia de tesão. O clima pintou e a caminhoneira resolveu atacar. As duas transaram na boléia. Exaustas de prazer, acabaram adormecendo. “Nas curvas do teu corpo capotei meu coração”.
Finalmente, São Paulo. Carmela arregalou os olhos.
“Será, Quitéria, que vou me dar bem nesta cidade?”
“É difícil dizer, mas você pode ficar na casa desta minha amiga o tempo que quiser, até arranjar emprego.”
“Olha, Quitéria, o caminhão ali: ‘As mulheres perdidas são as mais procuradas’. É Deus dizendo que vai dar certo.”



