
Por Marina Melo, à convite do CHNews
A moda sempre foi uma parte importante da minha vida. Para mim, como para muitas outras pessoas, a escolha das roupas vai além de simplesmente vestir algo; é uma maneira de expressar quem somos. No entanto, quando se trata de viver essa experiência em lojas de departamento, a realidade é bem diferente do que a maioria das pessoas imagina.
Sendo uma pessoa com atrofia muscular espinhal, eu dependo de uma cadeira de rodas para me locomover, e, infelizmente, as lojas de departamento continuam longe de serem espaços totalmente acessíveis. A começar pelos próprios corredores e araras de roupas. Muitas vezes, as peças estão penduradas em alturas que são impossíveis de alcançar sem ajuda, seja porque estão muito altas, seja porque os corredores são estreitos demais para uma cadeira de rodas passar com facilidade.
Provadores, então, são um capítulo à parte. É raro encontrar um que seja realmente acessível. Um dos maiores desafios que enfrento é a falta de uma maca ou cama nos provadores. Sem essa estrutura, não consigo experimentar roupas como deveria. E, para pessoas com deficiência, provar as peças é uma etapa crucial, pois muitas vezes precisamos entender como determinada peça fica no nosso corpo, pois vendo isso depois da compra, vira um grande ciclo burocrático.
Eu costumo ir às compras, acompanhada, justamente porque, na maioria das vezes, preciso de alguém que me ajude a visualizar como uma roupa vai ficar no meu corpo. Essa ajuda é indispensável, especialmente quando quero comprar vestido ou saia, que são mais difíceis de acertar no “olhômetro”.
A situação não melhora muito no mundo digital. Embora o e-commerce ofereça uma conveniência inegável, ele também apresenta seus próprios desafios. Um deles é a falta de representatividade de pessoas com deficiência nos sites das lojas, campanhas e provadores.
Quantas vezes você já viu um modelo cadeirante exibindo uma roupa em um site de moda? A ausência dessas representações torna muito difícil para nós, que usamos cadeiras de rodas, imaginarmos como aquela peça vai se ajustar ao nosso corpo. E, sinceramente, isso só reforça a ideia de que o mercado não é acessível ou pensando que pessoas com deficiência são consumidores de seus produtos.
Outro ponto que vale destacar é que, mesmo depois de todo o esforço de comprar uma peça de roupa, muitas vezes ainda preciso levar a peça a uma costureira para fazer ajustes. Isso acontece porque as roupas disponíveis no mercado não são feitas para corpos como o meu, que têm deformidades. Pois, muitas pessoas com deficiência possuem escoliose ou alguma outra característica que torna o corpo diferente do que é considerado padrão. Então, além do custo inicial da compra, ainda tenho o gasto adicional e o tempo investido para que a roupa finalmente se ajuste a mim.
A moda é para todos, ou pelo menos deveria ser. Quando as lojas de departamento e as marcas de e-commerce falham em nos incluir, elas não só perdem clientes, mas também a oportunidade de promover uma mudança real e significativa na sociedade. É preciso que as marcas invistam em treinamentos adequados para seus funcionários, para que eles saibam como ajudar de verdade uma pessoa com deficiência. Além disso, é essencial que a acessibilidade seja pensada desde o design das roupas até a disposição dos produtos nas lojas e na escolha dos modelos para os sites.
Eu sonho com um dia em que entrar em uma loja ou navegar por um site de moda seja uma experiência plena, sem barreiras. Onde eu possa me sentir representada, entendida e, mais importante, incluída. Porque, no final das contas, a moda é uma forma de expressão que todos nós deveríamos ter o direito de explorar, independentemente das nossas características físicas.



