
Residente de João Pessoa (PB), o Coletivo Alfenim chega à capital paulista a convite do Sesc Belenzinho para apresentar os espetáculo “Desertores”, com sessões de 16 de maio a 1º de junho, e “A Causa Secreta”, de 06 a 08 de junho. O grupo ainda ministra na unidade a oficina gratuita “Exercícios para uma cena dialética”, de 20 a 29 de maio.
“Desertores” é um experimento cênico livremente inspirado na obra inacabada “O Declínio do egoísta Johann Fatzer”, de Bertolt Brecht, reunião de cenas, poemas e apontamentos teóricos que o autor alemão produziu durante o período de 1926 a 1930.
Nesta obra monumental, Brecht reflete dialeticamente sobre a catástrofe da Primeira Grande Guerra, como também sobre o impasse dos movimentos sociais revolucionários e o prenúncio do Nazismo. O conjunto de fragmentos é organizado em cinco fases de trabalho denominadas “Fatzer Documento”, acrescidas de um conjunto de notas teóricas a que Brecht nomeou “Fatzer Comentário” e que constitui uma espécie de programa para um “teatro didático-político-poético”.
A dramaturgia do experimento, a cargo de Márcio Marciano, é situada após a sangrenta Batalha de Verdun, quando quatro soldados abandonam seu tanque de guerra e decidem desertar. Tidos como mortos, eles permanecem em clandestinidade em Mülheim, bairro fabril na Alemanha, sob a constante ameaça de serem presos e fuzilados como desertores. Escondidos, eles esperam que uma revolução coletiva possa por fim a essa guerra sem sentido.
A montagem lança um olhar crítico sobre os impasses da atualidade, marcada pelo avanço mundial dos extremismos patrocinados por uma classe predatória, que se utiliza do medo coletivo para avançar contra as liberdades democráticas e as conquistas sociais já em vias de destruição.

Já “A Causa Secreta” é livremente inspirada no conto homônimo de Machado de Assis. A dramaturgia elege uma das mais sombrias narrativas do autor carioca com o interesse de levar à cena uma reflexão sobre o sadismo, afecção que secretamente se infiltra nas relações sociais de modo a transformar o “outro” em objeto de dominação e gozo hedonista.
A montagem explora as regiões obscuras e inexplicáveis do comportamento humano para denunciar a opressão de gênero que assola a sociedade brasileira. A partir de um insólito triângulo amoroso entre um jovem médico, uma mulher que padece de uma doença incurável e seu marido – obcecado por experimentos científicos em torno da anatomia dos seres vivos – a peça investiga os limites éticos da ciência e do conhecimento.
No conto, o autor dá notícia de um teatro de má reputação, localizado nas franjas da cidade, em São Januário. Esta referência pauta a encenação, que cria uma fictícia “Companhia São Januário de Extravagâncias” para discutir em chave burlesca as relações de dominação na atualidade brasileira, com ênfase à condição histórica de subalternidade do gênero feminino.
Por fim, na oficina “Exercícios para uma cena dialética” o Coletivo Alfenim compartilha um pouco sobre a pesquisa que tem desenvolvido em sua sede na capital paraibana ao longo dos últimos 18 anos.
Sesc Belenzinho – Rua Padre Adelino, 1.000, Belenzinho, São Paulo, SP.



