
Como nasce um projeto de arquitetura quando o ponto de partida é um edifício histórico? A exposição “Camadas” abre ao público o processo de pesquisa, criação e restauro conduzido pela arquiteta Sol Camacho e pelo escritório Raddar, tendo como estudo de caso o Alma Mater, antigo noivado no Ipiranga, SP. A mostra reúne desenhos, aquarelas, maquetes, livros, mapas, documentos históricos, fotografias e reproduções de acervos originais. Em vez de apresentar apenas o resultado final, “Camadas” revela as etapas, pesquisas e decisões que fazem parte de um projeto de intervenção em um patrimônio existente.
“A intenção da exposição é quase levar o ateliê para lá, abrir nosso processo ao público”, afirma Camacho. “Normalmente vemos um projeto já finalizado, com renders ou fotos oficiais. Aqui, a intenção é mostrar que se trata de um processo longo e não linear, sobretudo quando se lida com patrimônio.”

Dividida em dois eixos, “Levantamento sensível” e “Novo cotidiano”, a exposição parte da história do antigo noviciado e chega às propostas para seu futuro. O primeiro núcleo reúne a pesquisa histórica e arquitetônica do conjunto, incorporando também o bairro do Ipiranga e seu entorno. O segundo apresenta o desenvolvimento dos projetos de arquitetura, restauro e paisagismo. A mostra também coloca em discussão questões atuais da arquitetura, como o reaproveitamento de edifícios em vez da demolição, os limites entre preservação e transformação e a adaptação de construções históricas a novas formas de morar.
Uma das referências conceituais do projeto vem do escritor francês Georges Perec e de sua ideia de “interrogar o habitual”. Em “L’Infra-ordinaire” (1989), Perec propõe voltar o olhar para aquilo que, de tão presente no cotidiano, acaba se tornando invisível. Na exposição, esse pensamento é usado para investigar as diferentes histórias, usos e marcas acumuladas pelo edifício ao longo do tempo.

Ao revelar o que existe por trás de cada escolha, “Camadas” transforma o Alma Mater em ponto de partida para uma discussão mais ampla: como dar novos usos a construções históricas sem apagar sua memória.
Alma Mater – . Clóvis Bueno de Azevedo, 176 – Ipiranga, São Paulo, SP. Até 17 de outubro de 2026.



