
A marca Vitor Cunha surgiu a partir da trajetória do estilista cearense Vitor Cunha, que começou a desenvolver roupas durante o ensino médio, em um curso técnico de vestuário. A passagem da criação para a atividade comercial ocorreu após sua participação no Dragão Fashion, em 2019, quando recebeu pedidos de pessoas interessadas nas peças apresentadas na passarela.
O trabalho da marca tem como base o artesanato, o uso de matérias-primas naturais e o reaproveitamento de tecidos. O estilista também atua com artesanato em unidades prisionais, onde acompanha a produção e desenvolve atividades com técnicas manuais.
“Eu acredito muito nesse feito à mão, no artesanato. Por ser artesão, eu sinto as dores das artesãs”, diz.

Entre as técnicas utilizadas estão macramê, bordado manual, crochê, renda e aplicações com metal. O macramê aparece como uma das principais referências da marca. Vitor aprendeu a técnica pela internet e passou a incorporá-la às coleções.
Sua grife homônima também trabalha com a transformação de sobras de tecido. Em uma das iniciativas, os resíduos dos cortes são levados para as unidades prisionais, onde passam por processos de produção de fuxicos e bordados. Depois, os elementos retornam às peças como detalhes.
A produção ocorre, em parte, sob demanda e sob medida. Segundo Vitor, esse modelo reduz a formação de estoque e permite acompanhar cada pedido durante o desenvolvimento. A label também tem uma linha de peças essenciais, para o uso cotidiano e aplicações de técnicas manuais.

“Eu prefiro trabalhar dessa forma, de pegar o pedido e desenvolver ele para eu não ter o estoque parado ali”, explica.
A Vitor Cunha não estabelece uma divisão de gênero para suas peças. A proposta é permitir que pessoas com diferentes corpos e identidades escolham os produtos de acordo com suas preferências.
“Eu gosto muito de ver os meus produtos como agênero mesmo, para todos os corpos, todos os tipos de pessoas. Não tem direcionamento”, afirma o estilista.

As coleções partem de experiências pessoais, pesquisas sobre comportamento e observações do cotidiano. A coleção Banho de Sol, em desenvolvimento, nasceu da relação de Vitor com o trabalho realizado nas unidades prisionais. O conceito também estabelece uma conexão entre a necessidade humana de exposição ao sol e o processo de fotossíntese das plantas.
“Eu comecei a comparar a gente com a natureza. Somos plantas, somos natureza, somos flores, florescendo”, relata.
O mar também participa do processo de criação. Morador de uma região próxima à praia, Vitor costuma visitar a área durante o desenvolvimento das coleções. Entre as referências citadas por ele estão Jacquemus, Dior, Louis Vuitton e Dion Lee. No Brasil, menciona Dendezeiro, Gustavo Silvestre, Bruno Olly e Lindebergue Fernandes.

“Gosto de olhar para essas pessoas também como um espelho, não como concorrente, mas como um ponto de inspiração”, diz.
Atualmente, as vendas são realizadas pelo Instagram, WhatsApp e site da marca. Vitor também busca inserir os produtos em lojas multimarcas, para que os clientes possam conhecer e experimentar as peças presencialmente.
O estilista identifica o financiamento como um dos principais desafios da trajetória da empresa. No início, a produção contou com contribuições de parceiros e amigos. Com o crescimento da marca, surgiram novas demandas relacionadas a aspectos jurídicos, contábeis e administrativos.

“O desafio agora atual é que eu estou saindo desse lado mais artista, indo mais para o lado empreendedor”, afirma.
A agenda da marca inclui apresentações no Ceará Moda e Cultura, em Fortaleza; no Metropolis Fashion Week, em Brasília; e na Casa de Criadores, em São Paulo. Vitor também planeja ampliar a circulação da marca e buscar espaços em multimarcas de outros países.
“Eu tenho muita vontade de ir para fora mesmo, para mostrar cada vez mais o meu produto para multimarcas internacionais”, declara.

Para o estilista, o trabalho de marcas que utilizam processos manuais envolve diferentes etapas da cadeia da moda e pode gerar renda para os profissionais envolvidos.
“A partir do momento que a gente valoriza essas pessoas, a gente também está contribuindo para essas famílias”, afirma.
A Vitor Cunha reúne criação de roupas, técnicas manuais, reaproveitamento de materiais e produção sob demanda. A marca se apresenta como uma iniciativa voltada à expressão individual por meio do vestir e à participação de artesãos em seus processos de produção.



