
Esta tarde, no primeiro bloco do último dia da Casa de Criadores edição 56, Marisa Moura estreia no evento com sua marca homônima. No trabalho artesanal que executa, ela alia sustentabilidade, por meio do reaproveitamento de retalhos da cadeia têxtil, à herança afrobrasileira, que já trazia a prática.
Tendo feito curso de corte e costura ainda adolescente, iniciou cedo sua longa trajetória com as roupas. Começou profissionalmente no segmento trabalhando em um desfile de moda afro em 1997. A ancestralidade, inclusive, é visível e norteadora em seu trabalho, já que utiliza tecidos que remetem à cultura africana e elementos-chave como turbantes.
Confira entrevista exclusiva com a artesã:
CHNews: Como você definiria a sua marca e a sua missão na moda?
Marisa Moura: Eu sou uma artesã, que faz roupas artesanais. A minha roupa é artesanal. Eu não faço moda, até porque eu não sigo tendência. Procuro ver o que está acontecendo, mas a minha roupa não tem [foco em trends] porque eu trabalho com retalho. Então eu não falo [que faço moda], eu falo que faço cultura. O meu trabalho é uma referência e uma herança àquilo que os negros faziam na senzala. Eu não sou estilista, [nem] sou autodidata. Eu aprendi a fazer isso. Eu fui criada com retalhos. O meu trabalho [é] cultural e social.
CHN: Existe na sua marca um equilíbrio com demandas e tendências do mercado? Ou você foca totalmente no conceitual? Como você navega a identidade de marca nesse contexto?
MM: A minha marca não tem nada dessa “modernagem” de hoje. Eu não sigo tendências. Eu faço a roupa em cima do retalho que eu tenho. Eu pego o descarte das marcas. Eu falo [que é um] reaproveitamento têxtil. Da cadeia têxtil, eu reaproveito tudo. Eu defino o meu trabalho como arte em retalho porque se você me der um saco de retalhos, com certeza eu te dou uma roupa pronta.
Eu acho que o mais importante dentro da moda é a modelagem. O estilista pode fazer um belo desenho, mas quem tira do papel é a modelagem. Se a modelagem não estiver boa, o sonho do estilista vai embora. E eu valorizo muito a modelagem, então, eu modelo o retalho, enfeito o retalho. As únicas coisas que eu compro são juta e barbante.
CHN: Com relação ao processo criativo, como você capta as inspirações para cada criação ou coleção? E como faz para traduzi-las nas peças?
MM: Eu gosto muito de bater perna, gosto de viajar por esse Brasil afora. E gosto muito de conversar com os mais velhos porque eles sempre têm histórias para contar e alguma coisa para mostrar.
Senzala e quilombo, para mim, são as minhas referências. Eu acho muito importante eu conhecer a minha história, como negra. Porque eu acho que a única coisa que liberta o ser humano é o conhecimento. E quem não tem conhecimento sempre será escravo de alguém. O meu pai sempre falava: “nunca esqueça aquele que morreu no tronco para você ser livre hoje”. Então, eu tenho o maior orgulho de dizer que o meu trabalho é uma referência daquilo que os negros faziam na senzala. O meu trabalho, para mim, é uma forma de mostrar para a sociedade a herança que os meus antepassados me deixaram.
O Museu Afro Brasil é [outra] minha referência. Eu conheci bastante o museu, o Emanoel [Araújo, idealizador do museu], conheci o ateliê dele. Eu pensava: “poxa, se eles fizeram tudo isso sem grande tecnologia, por que eu não faço?”
E, hoje, e sempre, a minha referência é Arthur Bispo do Rosário. O barbante que eu coloco na minha roupa é uma referência a ele, uma homenagem a ele. Eu acho que ele não pode ser esquecido. É um negro que as [suas] peças estão no museu mais importante do mundo. Eu acho que teria que ser uma bandeira, principalmente das pessoas negras.
CHN: O que você pode adiantar sobre a nova coleção?
MM: Eu não tenho uma coleção. Eu vou fazendo. Eu costumo dizer que a vitamina do meu cérebro é o meu trabalho, é a criação. É olhar o retalho e conseguir imaginar uma roupa pronta. Então, não tem uma coisa certa. Tinham algumas coisas que já estavam encaminhadas e eu terminei. Estou fazendo aquilo que eu gosto. Eu vou apresentar aquilo que eu faço, mesmo, sem maquiagem. É o meu retalho, é a senzala e é o quilombo que vão estar na passarela. Tanto é que a frase [que representa o desfile] é “negras memórias, memórias de negros, para a sociedade não esquecer”. A minha função vai ser essa, mostrar para a sociedade aquilo que os negros faziam na senzala.
CHN: Quais os planos futuros para a marca Marisa Moura?
MM: O meu sonho principal é que eu tenha mais visibilidade com esse trabalho e que eu possa aumentar significativamente o que eu desenvolvo na periferia. Eu costumo dizer lá, quando eu dou oficinas: “se deu certo para mim, tem que dar certo para vocês também”. Porque eu vejo que a periferia hoje está pedindo socorro. As coisas mudaram muito [na moda], então eu preciso me inteirar para poder passar isso para a periferia. O meu sonho é esse. Senão a roda não vira. A roda não vira, a roda parou. A informação não está chegando na periferia, e eu quero fazer isso.



