
Santa Catarina está prestes a superar São Paulo e se tornar o maior polo de produção de roupas do Brasil. Nos últimos dez anos, a indústria catarinense cresceu 24% em volume de peças, enquanto São Paulo recuou 23% e a média nacional caiu 13%. Hoje, o estado já responde por 22% da produção e deve assumir a liderança até 2026, segundo levantamento do Iemi – Inteligência de Mercado.
O avanço se apoia em incentivos fiscais, produção verticalizada e tradição empreendedora. Empresas familiares como Hering, Malwee, Marisol e Brandili abriram caminho para novas marcas, consolidando um ecossistema forte e competitivo.
A localização estratégica também é um diferencial, segundo Marcelo Prado, economista e consultor do Iemi (Inteligência de Mercado). Ele explica que, próximo dos maiores mercados consumidores, Santa Catarina conta com a estrutura do porto de Itajaí, que facilita importações e exportações. O ponto fraco continua sendo a malha rodoviária e ferroviária, considerada insuficiente para o potencial do estado.

Enquanto isso, São Paulo perdeu fôlego. Muitas empresas transferiram fábricas para o Nordeste e Centro-Oeste, em busca de incentivos e custos menores, ainda de acordo com Prado. Outras se transformaram em gestoras de marcas e redes varejistas, deixando a produção industrial em segundo plano.
A liderança catarinense terá impacto direto na economia regional: o setor representa 15% da indústria de transformação do estado e gera milhares de empregos. O desafio agora é absorver tendências globais como automação, inteligência artificial e sustentabilidade, que devem remodelar o setor nos próximos anos.
Se consolidar essa posição, Santa Catarina poderá não apenas liderar o mercado interno, mas também fortalecer o papel do Brasil nas cadeias internacionais da moda.
Leia a seguir entrevista com Marcelo Prado, economista e consultor do Iemi.
O que explica o crescimento de 24% da produção de roupas em Santa Catarina na última década?
Marcelo Prado – Uma série de fatores explicam esse crescimento, que vão desde os incentivos fiscais à produção têxtil do estado, passando pelo mix de produto escolhido (roupas casuais adulto e infantil com predominância do algodão), às estratégias de produção verticalizada (malharias integradas com a confecção), chegando ao modelo de comercialização predominante na região, onde o foco se concentra na capilarização da distribuição no canal multimarca que, quando bem gerido, permite sustentar um crescimento relevante, com um nível menor de investimento, quando comparado a outros modelos de crescimento (como lojas próprias, franquias etc.). Além disso, esse modelo casa muito bem com o DNA industrial das empresas, favorecendo o aumento da escala de produção.
Qual o papel da cultura empreendedora e das empresas familiares no desempenho da indústria catarinense?
Prado – Foi muito importante no início da industrialização do estado, onde empresas pioneiras como a Hering (1880) se desenvolveram e serviram de modelo para empresas mais jovens como Malwee, Marisol, Brandili (década de 60), que por sua vez inspiraram empresas mais jovens como Kyly, Cativa, Rovitex (anos 80), Fakini, Elian (anos 90) e tantas outras que se sucederam com grande sucesso (Live, Texcotton, anos 2000, entre outras). Por ser um polo têxtil tradicional e que já dispunha da maioria das grandes empresas de cama, mesa e banho, a cultura do setor têxtil já estava disseminada pela região, o que favoreceu o seu desenvolvimento e continua a favorecer, nos dias de hoje.
De que forma a localização geográfica e a logística influenciam essa competitividade?
Prado – A posição geográfica de SC é favorável para o suprimento de toda a região Sudeste e Sul, estando próxima dos maiores mercados consumidores do país. O desenvolvimento do porto de Itajaí e de toda a infraestrutura de armazenagem no seu entorno, facilitou bastante a importação de matérias-primas para suprir as indústrias de Santa Catarina, cujas operações contam com benefícios fiscais para as matérias primas que venham a ser transformadas no estado. Outro ponto importante é a proximidade com os países do Mercosul, que pode ser aproveitado como uma vantagem competitiva importante para as indústrias locais. Entretanto, o ponto mais fraco do estado é, sem dúvida, sua infraestrutura de rodovias e ferrovias, que está muito aquém das necessidades e do potencial do estado.
Por que São Paulo perdeu participação na produção, registrando queda de 23%?
Prado – Em parte, porque muitas das suas maiores empresas moveram suas unidades de produção para outros estados, em especial para o Nordeste e o Centro-Oeste, em busca de incentivos fiscais, mão de obra mais barata e abundante e menor regulação. Outras empresas, mais focadas em marcas de maior valor agregado, focaram em canais próprios de distribuição, com redes próprias de varejo e foram aos poucos se desindustrializando, tornando-se grandes gestoras de marcas, com um DNA mais varejista do que industrial.
Há fatores estruturais (custos, impostos, mão de obra, espaço urbano) que dificultam a competitividade paulista?
Prado – Sem dúvida, o maior polo de confecção de roupas do estado ainda se localiza na capital, que simplesmente não é um local adequado para a instalação de grandes unidades industriais, restando ainda um contingente de milhares de fabricantes, mas, basicamente, produtores de micro, pequeno e médio porte.
Como o estado de Santa Catarina aproveitou essa mudança para ganhar mercado?
Prado – Com a verticalização e o ganho de escala de suas unidades industriais, ainda que o estado hoje, apesar de oferecer a cultura e benefícios que favoreceram o desenvolvimento do setor, também exportou parte de sua capacidade produtiva para regiões incentivadas do CO e NE.
O que significa, na prática, Santa Catarina assumir a liderança na produção de roupas no país?
Prado – Sinaliza um caminho viável para o desenvolvimento sustentável de um setor que gera benefícios econômicos e sociais muito relevantes para as regiões em que ele se desenvolve; demandando menos capital e recursos de infraestrutura do que outros (água, energia, logística), além de oferecer menos impacto ou riscos ambientais do que a maioria dos setores industriais.
Essa mudança de liderança pode alterar estratégias de marcas e distribuidores no Brasil?
Prado – Não creio que irá mudar as estratégias das empresas, mas é sem dúvida mais uma prova de que o sucesso das indústrias de um setor, está muito atrelado ao ambiente de produção em que elas se encontram inseridas. Dado a grande participação do setor têxtil e confeccionista no valor da produção da indústria de transformação no estado de SC (em torno de 15% do total), ajuda com que ele seja um setor priorizado pelas políticas públicas do estado, que se preocupa em contribuir para melhorar o ambiente de produção para as empresas têxteis, diferente de São Paulo, por exemplo, onde os têxteis e confeccionados representam pouco mais de 3% do total e despertam menos atenção de outros setores produtivos do estado.
Quais tendências globais (como sustentabilidade e automação) devem influenciar a produção local até 2026?
Prado – As inovações chegam em escala nacional, mas tendem a ser absorvidas mais rapidamente pelas grandes empresas. Como em SC há uma quantidade importante de grandes empresas, comparativamente a outros estados, isso pode favorecer a absorção mais rápida por parte das empresas catarinenses. Entretanto, esse é um retrato médio, na verdade, independentemente do estado em que se encontra instalada a indústria e a depender da estrutura local de inovação, como entidades, instituições de pesquisa e de ensino etc., as inovações que estão por vir poderão ser favoráveis ou desfavoráveis ao desenvolvimento do setor no estado.
Qual é a importância das práticas sustentáveis para conquistar novos mercados e atender consumidores mais exigentes?
Prado – Cada vez mais importantes e, em poucos anos, praticamente premissas competitivas, devendo vir a se tornar leis ou normas obrigatórias em futuro breve.
O avanço catarinense na produção pode abrir novas oportunidades de exportação?
Prado – Sem dúvida que ajuda, mas não garante, dado que a competitividade no exterior passa por uma série de fatores que vão muito além da capacidade de produção, como um câmbio previsível e competitivo, acordos bilaterais ou em blocos econômicos que garantam acesso a mercados consumidores relevantes, logística favorável, planejamento de longo prazo, entre outras condições que o Brasil de hoje não proporciona.
Como as empresas locais estão se preparando para atender certificações e padrões internacionais?
Prado – Sabemos que as indústrias de confecção, ao menos as de maior porte, estão se movimentando para avançar nesse tema, mas entendemos que ainda estamos no início.



