
A fotógrafa Sonia Gouveia inaugura, no dia 23 de setembro, a instalação “Esmaecer BMA100” no hall principal da Biblioteca Mário de Andrade (BMA), em São Paulo. A obra integra a programação do centenário da instituição e dá continuidade à investigação da artista sobre as camadas da vida urbana, a memória coletiva e os mecanismos de esquecimento que marcam as grandes cidades. Como sintetiza a artista, “nas grandes metrópoles, nossas histórias se perdem, e nossa identidade se dissolve – na multidão, somos apenas mais um”.
Desdobramento da série “Esmaecer”, o trabalho sobrepõe fotografias de arquivo – de acervos como o Núcleo de Memória Institucional da própria Biblioteca e o Museu Paulista – às imagens atuais do edifício, registradas pela própria Sonia. Entre os registros estão nomes como Guilherme Gaensly, Militão Augusto de Azevedo e Werner Haberkorn, que documentaram a metamorfose de São Paulo do século 19 às primeiras décadas do 20. De longe, emerge a imponência da cena urbana; de perto, revelam-se fragmentos de vidas, gestos e lugares que resistem ao tempo.
“As imagens se tornam gestos de resistência contra o esquecimento, reafirmando que, mesmo em meio à massa indistinta e ao fluxo incessante, há histórias que merecem ser vistas e revisadas”, diz a artista.
A curadoria é assinada pela historiadora Marly Porto, que ressalta como a instalação reinscreve a história da cidade em novas camadas visuais, convidando o público a revisitar memórias e refletir sobre o presente. A sede da BMA, projetada por Jacques Pilon em 1936 e concluída seis anos depois, testemunha justamente o início da verticalização da capital paulista – contexto que ressoa com a obra apresentada agora no centenário.
“Em um momento em que as cidades enfrentam desafios relacionados à desumanização, ao anonimato e à marginalização de corpos e histórias, o trabalho da artista visual Sonia Gouveia lança luz sobre as subjetividades que habitam o espaço urbano – especialmente aquelas que se esmaecem frente à lógica da metrópole”, destaca a curadora.
Mais do que uma homenagem, “Esmaecer BMA100” propõe um gesto de resgate: ao revisitar imagens do passado, abre espaço para reconhecer que a história não é estática, mas precisa ser constantemente recontada.

“A fotografia é para mim uma ferramenta de pesquisa e reflexão sobre a dinâmica das cidades – não apenas para o resgate nostálgico do passado, mas para compreender seus processos de transformação. As imagens permitem interpretar a experiência urbana com curiosidade e respeito”, afirma Sonia.
Fotógrafa e arquiteta formada e mestre pela Universidade de São Paulo, Sonia Gouveia (São Paulo, 1978) desenvolve desde 2019 um trabalho autoral que transita entre a vida urbana e o íntimo, investigando tensões entre coletivo e individual. Suas obras já foram apresentadas em festivais, galerias e museus no Brasil e no exterior. Suas primeiras inspirações vieram de nomes como Cristiano Mascaro, Henri Cartier-Bresson e Nelson Kon, além das referências do construtivismo russo e da Bauhaus – diálogos que atravessam sua pesquisa imagética em torno das camadas da cidade e da memória.
A instalação “Esmaecer BMA 100” ficará em cartaz na Biblioteca Mário de Andrade até 23 de novembro. Ainda em setembro, uma obra da série “Esmaecer” também poderá ser visitada na mostra coletiva “Outros Afetos”, que inaugura o Espaço Porto de Cultura, novo centro dedicado à fotografia brasileira na Vila Madalena. Nesse contexto, a obra dialogará com criações de outros artistas, convidando o público a um mergulho em lembranças e afetos. A mostra estará aberta de terça a sábado, das 14h às 19h, com visitação mediante agendamento.
Biblioteca Mário de Andrade – Rua da Consolação, 94, República, São Paulo, SP.



