
Transformar 100 anos de história em uma coleção de joias pode soar como um desafio técnico. Para Maurício Okubo, atual líder da quarta geração da joalheria Julio Okubo, o ponto de partida foi outro: significado. Ele diz que assumir esse capítulo da trajetória da família tem peso, memória e direção. “Honra é a palavra que me acompanha desde o início desse processo. Privilégio e responsabilidade andam juntos.”
A coleção “100 Anos de Reencontros” nasce desse equilíbrio entre legado e futuro. Para construir uma linha capaz de condensar quatro gerações, o time retomou a própria origem: a chegada da pérola ao Brasil pelas mãos de Rosa Okubo, a bisavó. Desde então, cada etapa da família foi marcada por um tipo de pérola – Akoya, South Sea branca, pérola negra do Taiti e a dourada das Filipinas.

Maurício explica que as joias funcionam como capítulos de uma mesma narrativa. Cada pérola simboliza um ciclo; cada símbolo japonês, um valor que a marca carrega. “A coleção é um grande encontro. Não celebra só quem está aqui agora, mas todos que passaram e os que ainda virão.”
As joias também traduzem o olhar da marca para sustentabilidade. Para a Julio Okubo, a pérola vai além da estética: envolve cadeia produtiva, impacto ambiental e futuro. “Quanto mais pessoas usarem pérolas sustentáveis, maior o impacto positivo nas comunidades que as cultivam e nos oceanos que elas ajudam a preservar.”

No design, a ideia é atualizar o imaginário em torno da pérola. Nada de peça engessada, “de ocasião”. A marca aposta em combinações contemporâneas e versáteis, mas sem abrir mão da essência artesanal.
Ao longo do desenvolvimento da coleção, quatro núcleos criativos organizaram a narrativa: Sakura, Carpa, Serpente e Sol — cada um inspirado em símbolos da cultura japonesa.
A flor de cerejeira fala sobre ciclos; a carpa, sobre força e persistência; a serpente, sobre renovação; o sol, sobre novos começos. No fim, os Tsurus unem todas as fases como representação da coragem e da realização que atravessaram a família por um século.
Quando o assunto vira mercado de luxo, Maurício enxerga mudança, não retração. Ele observa que a era da ostentação perdeu força e deu lugar ao quiet luxury, peças que comunicam qualidade, não logomania. “Esse movimento favorece nossa essência. Sempre fomos low profile, voltados ao artesanal e ao olho no olho.”

Sobre o futuro, a marca não fala necessariamente em expansão de lojas, mas em aprofundamento de experiência, dentro e fora do Brasil. “O nosso foco é melhorar continuamente. Ser hoje melhor do que ontem e amanhã melhor do que hoje.”
A internacionalização está no radar, especialmente por meio das outras marcas do grupo e de colaborações como a da Okubo Men com a Senna Brands. Há ideias sobre levar a coleção inspirada no legado de Ayrton Senna para outros mercados.
No fim, a coleção dos 100 anos funciona como uma síntese. Um gesto de reencontro entre passado e futuro, tradição e reinvenção — tudo aquilo que mantém a joalheria viva há quatro gerações.



