
Entre tecidos, referências e narrativas visuais, o cearense David Lee vem construindo uma trajetória marcada pela busca por identidade e inovação. Seu trabalho transita entre o conceito e o vestível, refletindo não apenas tendências, mas também inquietações pessoais e culturais. Em conversa com o CHNews, ele revisita sua jornada na moda e compartilha os bastidores de sua criação. Leia aqui a entrevista:
Como você começou no mundo da moda? Teve algum momento específico que te levou a escolher esse ambiente?
A minha ligação com a moda começa através do desenho. Eu desenho desde os 6 anos de idade e era aquele aluno que gostava muito das aulas de artes, de preparos manuais. E meus pais me incentivavam muito por ver esse apelo de gostar disso. Então eu desenhava, desenhava anime: Mickey, Dragon Ball Z, todos esses desenhos. Aí eu fui evoluindo para desenhos de forma humana, aqueles de realismo.
Na hora de escolher uma profissão, na época do vestibular, e isso a gente tá falando aí por volta de 2011, eu queria uma profissão que eu pudesse exercitar isso, já que eu gostava muito, né? Era algo que eu praticava diariamente e tinha boa parte do meu tempo livre. Eu pensei em arquitetura e pude ter conhecimento também do curso de estilismo e moda, que já existia aqui na Universidade Federal do Ceará. E a partir disso eu fui saber o que era esse curso, não tinha tanta dimensão do que era, e aí foi como uma paixão: esse entendimento que a partir dessa profissão eu poderia também lidar com outras coisas que eu gostava muito como história, a parte de investigação, de pesquisa, até mesmo também essa parte de arte.
E aí eu fui pesquisando, me aprofundando através de livros de pesquisa que eu tive acesso, e acabei optando por fazer o vestibular por estilismo e moda, que até então se chamava dessa forma, antes de virar design de moda. Então, a minha ligação veio através do desenho. Eu acabo não conseguindo adentrar pelo vestibular comum, pegando ainda antes do Enem. Vou tentando ainda outras tentativas através do Enem, mas em paralelo eu vou construindo uma profundidade de conhecimento autodidata. Através de livros, e do que eu pudesse ter acesso e palestras, acabei fazendo um curso de desenho de moda. E foi esse o momento onde eu realmente vi que era algo que poderia ser uma profissão que eu pudesse carregar pelo resto da vida.
No começo da sua carreira, quais foram as suas maiores influências?
Eu sempre cito o João Pimenta. Que era um designer que eu olhava muito e me intrigava a forma que ele trabalhava, porque o meu começo com a moda também vai muito em ligação à moda masculina. Eu acabo percebendo que ela tinha alguns entraves de avanço relacionado à moda feminina, ligados muito ao contexto social do Brasil e dos países latinos na questão da sexualidade. Então, isso era como se fosse uma investigação para mim.
Então, a David Lee começa com a moda masculina, especificamente, por conta disso. E o João Pimenta tratava muito das coisas que eu pesquisava e que eu acreditava que eram interessantes nessa coisa de buscar no guarda-roupa feminino um ponto de partida, trazer outros tipos de modelagem, até também o uso de artesanias.
Você costuma incorporar o crochê nas suas coleções. Como que essa ideia apareceu para você?
Essa ideia apareceu primeiro por ser uma manualidade que é muito comum aqui no Nordeste, eu sou de Fortaleza, do Ceará. E, além de ser uma assinatura que pudesse me ressignificar, ela também vinha de encontro a essa pesquisa do masculino, porque era uma artesania. Falando de 2011 para cá, ela estava muito ligada ao feminino, ao lar, à questão do doméstico, à uma artesania que tinha uma cara de não ter tanto design.
A minha ideia era incorporar algo que era tão feminino em um universo que não tinha isso. Que era mais bruto, mais, digamos, mais quadrado, que era o masculino. Então, a minha ideia era como se eu trouxesse esses aspectos do que não eram tão comuns no universo masculino. A sensibilidade, que na verdade não é uma coisa feminina, ela é do ser humano, era uma forma metafórica de falar sobre isso.
Então, vem desses dois encontros: desse olhar para o meu local, que acaba sendo um ponto de partida, mas também dessa forma de branding da marca.
Qual foi o maior risco que você já tomou na sua carreira?
Foi ter coragem de romper com uma expectativa que meu pais tivessem de eu ter, talvez, alguma profissão mais tradicional. Eu sempre fui um bom aluno, então eles esperavam que eu fosse ter uma profissão que lidasse com coisas que eles tivessem mais acesso. Então, a moda no Brasil, por conta da questão cultural, algumas pessoas não entendem que ela é tão significante como qualquer outra profissão e tem também seus desafios, é claro.
Mas eu não tive apoio deles no começo. Então, foi muito corajoso, pelo menos da minha parte, me fechar a um certo ponto e provar para eles que isso era algo tão legal e tão significante que eu não tava jogando fora o investimento que eles fizeram em mim.
Acho que isso que me vem na cabeça, essa coragem, assim. Talvez eu pudesse não ter incorporado isso, ter seguido um outro caminho e talvez ser infeliz.
Tem alguma coleção ou peça que você considera como um marco pessoal?
Eu tenho sempre citado, quando me perguntam se é uma coleção marcante, a coleção de estreia do São Paulo Fashion Week. Não por conta de ser a estreia do São Paulo Fashion Week, mas acho que é uma coleção que é muito madura e também traduz de uma forma muito clara e significativa o meu trabalho. Todos os símbolos, as coisas que eu trabalho já há bastante tempo estão lá de uma forma muito coesa, do meu ponto de vista. Uma coleção que eu chamei de “Parangaba”, que é inspirada nas feiras nordestinas.
As feiras nordestinas têm umas particularidades. Ela não vende só legumes e frutas, ela vende tudo: vende animal, vende objetos pirateados. Então essa é uma feira que ela tem de tudo e eu queria contar isso para falar do quanto o povo nordestino é tão criativo. Eu nomeio ela de “Parangaba”, que é o nome de uma feira que existe aqui em Fortaleza. E aí eu acabo trazendo para o centro, essa palavra que também é uma palavra indígena e significa “orgulho de pertencer, de ser do lugar”, e também tinha tudo a ver com o meu trabalho. Então acabou que ela ficou significativamente muito marcante para mim.
Você considera que essa primeira São Paulo Fashion Week foi um momento de virada na sua carreira?
Considero porque foi algo que eu buscava. Já havia bastante tempo que eu me achava preparado. Mas, enfim, tudo tem seu tempo, né? E aí eu acabo tendo um intervalo de 10 anos para fazer parte da principal semana de moda que a gente tem no Brasil, mas eu considero sim.
Eu queria falar um pouco sobre o seu processo criativo. Como nasce uma coleção sua? Como você cria o primeiro conceito e as peças finais?
O meu processo criativo sempre parte desse ponto de partida que é o meu lugar. A cultura local, esses aspectos que são lidos, às vezes, como regionais, pertencentes à minha cultura, tanto cearense, fortaleza, macro e nordeste. Acabo sempre cruzando isso com ideias que têm a ver com o mundo. Eu quis juntar essa coisa da palavra que resume bastante o local.
Eu sempre pego esses pontos de partida que, às vezes, é como eu falei: a própria Parangaba, que é uma coisa que vai saber quem é daqui e eu acabo ressignificando, trazendo o público para um lugar de luz. E sempre também incorporando esses aspectos artesanais. A gente tem tentado a cada coleção. Começou com o crochê, que ficou uma linguagem muito marcante e significativa da assinatura da David Lee.
Mas a gente acaba também hoje tendo várias marcas que utilizam também a técnica, então acaba me forçando tanto a usar outros materiais para reforçar uma assinatura nessa artesania, como também hoje pesquisar outras artesanias. Então, eu tento a cada coleção estar do lado de outros artesãos, e ter esse diálogo para que essas artesanias possam fazer mais parte do meu trabalho.
E eu acabo sempre tendo um caderno onde eu concentro todas as ideias, tanto de desenho quanto de fotos. Eu sou uma pessoa muito visual, então eu sempre faço moodboard para que isso possa ficar visível pra mim e para cada vez mais trazer para dentro da cabeça. Eu sempre desenho muita coisa e, a partir deste caderno, eu vou também sintetizando. A partir dessa síntese eu vou tirando também do papel, fazendo as modelagens, geralmente modelagem plana.
E aí a gente vai concentrando a parte também da pesquisa de tecidos. Geralmente, ou o material me direciona para o desenho, ou às vezes também o contrário. Quando a oportunidade de eu ter já o material, eu me lembro e então já incorporo um design que vá favorecer aquele material. Geralmente leva cerca de quatro meses, cinco, para tirar do papel. Dentro dessas coleções grandes, a gente vai depois desdobrando em drops menores que vão indo para o site, que é o nosso principal fluxo de venda.
Você dialoga com outras áreas fora da moda na hora de trabalhar?
Eu tenho tentado ultimamente, foi uma coisa que eu me propus para esse ano. Talvez navegar pelo campo das artes visuais. Acabo tendo contato com alguns outros artistas e até também design de mobiliários. Eu tenho tentado esse ano me desafiar a fazer coisas além da moda, da parte da roupa em si, porque eu me considero um designer que pode dialogar com qualquer outra coisa. Então, eu estou estudando e não tem algo muito concreto no momento que eu possa citar.
Mas eu sempre gosto de olhar outras áreas, eu acho que adiciona muito. Eu tenho trocado com outras pessoas e talvez ano que vem, ou talvez ainda esse ano, tenha alguma coisa para além do projeto de moda.
Você acha que tem alguma parte do seu trabalho, da sua identidade, que as pessoas ainda não entenderam e que você gostaria que elas entendessem melhor?
Nossa, interessante essa pergunta. Hoje, eu também estou fazendo uma apresentação para o prêmio do FFW, em que eu estou como finalista da categoria designer emergente. Eu já tinha esse panorama na minha cabeça, mas também fazendo a apresentação, eu sempre acabo lembrando que, quando a gente fala em 2011, existiam muito poucos designers nordestinos em ascensão, onde a gente era lido. Falar de artesanato, de cultura local, desses outros aspectos que acabam taxando muita gente, como essa coisa somente da praia, do litorâneo. E, na verdade, Fortaleza é tão urbana quanto São Paulo e eu sempre trago essa fala: de existir a praia, para mim, é um ponto de contraste na criação e eu sempre olho para o asfalto.
Eu me considero pioneiro nessa linha de frente de trazer um olhar para o Nordeste contemporâneo, moderno e urbano. Onde hoje existem outros designers que já pegaram o caminho talvez, não mais fácil, mas talvez mais claro. Assim, eu queria um pouco mais de clareza nesse sentido, de “olha, antes disso, tiveram essas outras pessoas”. Até mesmo no masculino, não lembro de designers no Brasil trazerem de uma forma como eu trabalhei, como eu trabalho com cores, com modelagem, dessa forma mais robusta no masculino. Então, talvez um certo reconhecimento de pioneirismo.
Você falou da questão da representatividade nordestina. Como você enxerga o papel da moda para discutir questões sociais?
Eu enxergo de uma forma muito importante. Para além também desse lugar de nordestino, tem a minha questão de racialidade, também ser um designer negro e de carregar isso comigo na minha estirpe, na minha fala e na linha de frente. Eu sempre faço questão de reforçar isso em falas ou em pontos também importantes de onde vale a pena. Porque a gente sabe que, infelizmente, apesar dos avanços, ainda existe elitismo, racismo.
Já tiveram várias questões onde isso foi pautado. Então, eu sempre faço questão e vejo de uma forma muito importante. Me reconhecendo como esse local de representatividade, eu vejo de uma forma importante e, ao mesmo tempo, de uma forma muito responsável. Se a gente está trazendo outras pessoas para o discurso, como também está sendo exemplo para outras pessoas, outros jovens, ou talvez quem também queiram achar que vale a pena e é possível.
Falando em diálogo com outras áreas, você mencionou um desafio a que você está se propondo para esse ano. Você acha que seu estilo mudou muito ao longo dos anos?
Não, eu me considero muito consistente. É bem uma evolução, é uma coisa que eu também me cobro muito. Eu sou virginiano, então, sempre tem uma cartilhazinha. Eu acabo até antes das coleções novas, sempre olhando as coleções antigas e fico me cobrando uma certa consistência de pegar esses aspectos, esses símbolos, não de mudá-los, mas de evoluí-los, de aprofundá-los.
Como eu falei até propriamente do crochê: tem muitas marcas fazendo, então por que eu ainda continuo fazendo? Na verdade, eu tenho que ampliar, já que ele foi o começo e uma assinatura.
Eu também queria conversar sobre o mercado da moda hoje em dia. Começando por como você enxerga o processo de entrada nesse mercado, principalmente para estilistas mais jovens?
Considero bem difícil. A gente está falando aí de uma década atrás, já era difícil. Hoje, então, a gente tem muitos cursos de moda, um acesso muito fácil à informação que deixa as pessoas muito ansiosas por resultados. Os jovens querem ter logo acesso, fazer parte de uma coisa muito grande sem percorrer um processo, o que faz parte de qualquer profissão.
Eu nunca tive tanta pressa, sempre quis fazer um trabalho onde as coisas fossem evoluindo. Mas também me movimentei muito: procurava oportunidades e me preparava para elas. Então, acho que é um mercado muito competitivo, realmente exige ser uma pessoa atenta e ter overview. Por exemplo, eu aprendi a costurar, eu sei modelar, eu tenho o domínio de todos os processos, porque eu achava isso, em 2011, muito importante, e continuo achando. Isso te permite ter uma visão macro, uma visão também gerenciadora, onde você consegue delegar, como também cobrar nesses aspectos. Você não fica na mão de qualquer pessoa ou de qualquer tipo de serviço. Você consegue ter essa visão.
Considero isso uma coisa muito importante. “Ah, você sabe desenhar, trazer as ideias”, ser o famoso diretor criativo, mas realmente ter o domínio da coisa para que você possa dialogar, ter pessoas boas do seu lado, estar delegando. Então, vejo de uma forma muito competitiva, mas que exige também essa visão macro para quem está querendo ter uma marca.
Se você pudesse escolher uma regra do mundo da moda para quebrar e acabar com ela completamente, qual seria?
Não foi uma regra e não vou dizer também que eu rompi. Mas eu peguei uma época onde a formação acadêmica estava em muita ascensão e eu sou autodidata, acabei não tendo formação. Talvez essa regra onde a academia é tão importante.
Vou até trazer um exemplo real. Eu tenho um amigo, que inclusive é formado, tem mestrado e tudo. Ele foi procurar uma vaga e a pessoa antes dele trazer a fala sobre a formação dele, disse “não, essa vaga é para pessoas da academia”. Então, apesar de tudo, a gente ainda tem essa questão de uma valorização maior de quem tem academia e quem não tem.
Eu acho que a gente pudesse falar de formação. Diria que quebrar isso, assim, essa valorização de quem tem diploma, quem não tem, quem tem mais curso, quem não tem. Eu acho que são pessoas e, às vezes, o trajeto também valida muito elas. O meu processo talvez seja tão importante quanto de quem passou, fez o mestrado.
Caminhando já para um encerramento, eu tenho duas perguntas para você: quais são seus próximos passos? E qual é o legado que você quer deixar para a moda?
Eu tenho alguns projetos. O meu propósito maior com a marca foi sempre amplificar a visão das pessoas sobre o Nordeste, sobre a amplitude da nossa cultura. Como eu falei, olhar para a gente além dessa questão litorânea, de lazer, mas entender que a nossa cultura é tão rica e profunda. Estou sempre trazendo, através do meu trabalho, esse olhar para cá. Então, eu queria ter um projeto, que eu ainda estou traçando, de um festival onde eu pudesse trazer o Sul e o Sudeste para cá, onde a gente pudesse estar dialogando.
A gente tem, às vezes, essas feiras ou festivais onde sempre acontece lá, a gente está sempre indo para lá, os profissionais são de lá e eu queria o inverso. Eu tenho um nome, estou colocando no NPI direitinho para captar e talvez transformar isso em algo que pudesse ser itinerário nos estados do Nordeste. Então, é um plano bem megalomaníaco, que dialoga com o meu trabalho, mas que não está dentro do escopo de criar roupa, nem nada disso, mas que amplifica o meu propósito.
E continuar fazendo o que eu já faço. Minha ideia sempre foi, não intencional, mas hoje entendendo e trabalhando de forma estratégica, é ser realmente uma referência. Talvez pensar “design no Nordeste” e meu nome venha sempre como um dos principais que possam fortalecer a nossa região e reforçar também o quanto que a gente tem uma participação dentro da moda brasileira.
O legado é talvez esse que eu também já mencionei, que eu gostaria que a minha história pudesse ser uma forma de impulsionar outras. Não mencionei para você, mas a origem é humilde. Meu pai é motorista particular, minha mãe é cabeleireira. Então assim, eu não tive tantos aspectos, nenhuma uma realidade de vida, que a gente sabe que o Brasil é um país extremamente desigual, que pudesse me favorecer, me projetar para uma profissão que ainda, às vezes, é elitista e traz uma glamourização. Foi uma busca mesmo minha.
E eu gostaria que isso pudesse ser uma inspiração e dizer que outros Davids possam estar nascendo, sendo impulsionados pela minha trajetória. Como também reforçar esse aspecto de que a gente pode ser também tão bom, tão maravilhoso, a partir da nossa cultura, não o inverso, como sempre foi dito. Como também é o inverso quando a gente também sempre está olhando para a moda europeia, a moda onde ela nasceu praticamente, foi construída de forma mais significativa. E olhar que a gente Brasil, a gente Nordeste, a gente é tão incrível. Então, acho que é um legado de reforçar a sua origem, para que ela possa ser um ponto de partida e força motriz para a sua vida.
Tem alguma coisa que você pode falar pra gente sobre a São Paulo Fashion Week desse ano? Alguma palhinha que você pode dar?
Pois é, eu não tenho ainda a coleção. Eu tenho trabalhado em uma coleção que a gente vai apresentar no Dragão Fashion aqui em Fortaleza, que é uma semana de moda que já acontece há 25 anos e que eu também comecei lá. Mas o São Paulo Fashion Week é no semestre que vem, em outubro.
Eu te confesso até que nem sei se irei fazer. Mas se eu for fazer, ainda não tenho uma ideia, então não tenho nenhuma novidade para compartilhar.



