
Antes de o upcycling virar palavra obrigatória no vocabulário da moda, Gui Amorim já fazia isso na prática, mesmo sem chamar assim. O começo do Estúdio Traça não veio de um plano de negócios redondo, nem de uma estratégia pensada para surfar a onda da sustentabilidade. Veio da falta de dinheiro para comprar tecido, da curiosidade de quem queria criar com o que tinha à mão e de um olhar afiado para enxergar potência no que muita gente tratava como resto.
Foi na época da faculdade, em 2012, que tudo começou. Gui comprava calças vintage em brechó, transformava em hot pants e vendia. As barras que sobravam não iam para o lixo. Viravam matéria-prima para novas ideias. Mais tarde, já em São Paulo, ele entendeu que aquele gesto intuitivo tinha nome.
O contato com outros criadores no Mercado Mundo Mix apresentou o termo “upcycling” e, junto com ele, uma chave de leitura para o que Gui já construía de forma muito orgânica. Hoje, o Estúdio Traça virou referência de moda autoral com identidade forte, jeans como linguagem e um trabalho que une sensualidade, construção imagética e reaproveitamento têxtil.
O estilista participou da 46ª edição da Casa de Criadores em 2019 e desde então consolidou a marca como um dos nomes acompanhados de perto na cena independente. Mas, para Gui, a história da marca nunca foi só sobre roupa. É sobre permanência. “Eu enxergo a minha marca como um projeto da minha vida”, diz. A frase ajuda a entender por que ele resiste à lógica de crescimento acelerado que domina o mercado.
Enquanto muita gente mede sucesso por escala, ele prefere falar de tempo, construção e longevidade. Quer uma marca rentável, sim, mas também quer preservar a autonomia criativa, o ateliê com alma, o ritmo possível e a liberdade de experimentar sem esmagar a essência do negócio.

Essa visão aparece até na forma como o Estúdio Traça organiza suas coleções. Em vez de insistir em um calendário mais veloz, Gui decidiu desacelerar. Agora, trabalha com um desfile por ano e busca outras maneiras de ocupar o segundo semestre, como exposições e performances. A escolha não é aleatória. Vem de uma leitura prática de mercado. Para ele, uma marca autoral não disputa atenção com a mesma estrutura de gigantes do varejo. Então faz mais sentido criar memória do que correr atrás de volume.
Também por isso, o Estúdio Traça rejeita a lógica do descarte rápido. No site, peças de coleções passadas continuam disponíveis. O que funciona permanece. O que cria vínculo segue vivo. É uma moda que tenta escapar da febre do momento para construir desejo duradouro.
No centro de tudo continua o denim. Não só como material, mas como campo de pesquisa. O estilista aprendeu a pensar modelagem respeitando a largura da peça original, a encaixar formas para reduzir desperdício e a transformar limitações em linguagem. Em muitos casos, o processo começa pela matéria-prima reaproveitada; em outros, pelo conceito. Na prática, uma coisa puxa a outra. O objetivo, porém, é constante: gerar o mínimo de resíduo possível.

Esse discurso sustentável nunca vem embalado em ingenuidade. Gui sabe que, na moda, narrativa e mercado andam juntos, e que nem sempre o setor joga limpo. Ao falar sobre falsificação, o tom muda. Ele relata ter visto uma calça criada pela marca, a “Andressa”, com mecanismo que permite usar a barra de duas maneiras, ser vendida em dezenas de sites pelo mundo com as fotos originais do próprio Estúdio Traça. O caso expôs uma fragilidade que atravessa tanto a moda brasileira quanto a indústria global – a distância entre criação e proteção.

Na visão do designer, o problema não é simples. A legislação é cara, lenta e pouco acessível para marcas pequenas. Patentes e registros, quando existem, costumam fazer mais sentido financeiro para empresas gigantes, que conseguem proteger elementos específicos de produto, textura ou identidade visual. Para quem trabalha de forma independente, a conta raramente fecha. E isso deixa os criadores mais vulneráveis.

Mas Gui vai além da crítica jurídica. Para ele, “existe uma falha estrutural de comunicação dentro da própria moda. Falta troca entre estilistas, stylists, modelistas, produtores e quem circula nesse ecossistema”. Falta compartilhar caminhos, soluções e instrumentos básicos de proteção. Falta, em resumo, união. “A moda se comunica muito pouco entre si”, afirma.
Mesmo diante desse cenário, ele não parece disposto a recuar. Ao contrário. Depois do episódio de plágio, decidiu transformar a revolta em movimento. Hoje participa de um projeto com a Apex para exportar justamente a peça que viralizou e foi copiada mundo afora. É como se respondesse ao sistema com a própria força da criação.
Também é esse impulso que sustenta financeiramente o Estúdio Traça. Embora o e-commerce exista e faça parte da operação, Gui é direto ao dizer que o grosso da receita vem do figurino. São clipes, shows, collabs e projetos especiais que ajudam a manter a engrenagem girando. Foi a partir da visibilidade gerada pelos desfiles que a marca passou a ser procurada para esse tipo de trabalho. A passarela, nesse caso, não serve só para exibir roupa, ela constrói universo, valida linguagem e abre novas frentes de negócio.
A Casa de Criadores teve papel decisivo nessa virada. Mais do que plataforma de exposição, virou ponto de inflexão. É ali que a marca ganha narrativa pública, entra em circulação editorial e se conecta com uma rede que mistura imprensa, artistas, stylists e outros criadores. Para Gui, foi uma mudança de patamar. “A minha marca aconteceu muito por causa disso”, diz.

Agora, o próximo capítulo já tem tema e origem. Na 11ª coleção, ele pretende homenagear Cubatão, cidade onde nasceu. A escolha conversa com a própria trajetória da marca: uma cidade marcada historicamente pelo estigma da poluição e, ao mesmo tempo, por um processo de recuperação ambiental que lhe rendeu o reconhecimento internacional “Tree Cities of the World”, iniciativa ligada à FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) e celebrada oficialmente pelo município em 2025 e novamente destacada em 2026. “Eu saí de uma cidade marcada por poluição e construí uma marca que fala de sustentabilidade. Faz sentido contar essa história agora.”
A coleção também bebe de “Zanzalá”, obra de 1928 do escritor cubatense Afonso Schmidt, considerada um dos marcos iniciais da ficção científica brasileira. No livro, Cubatão aparece como ponto de reconstrução de uma nova sociedade futurista.

Não por acaso, Gui quer transformar esse imaginário em personagem, roupa e narrativa de passarela. É quase uma síntese do que ele faz de melhor, cruzar memória, invenção, território e desejo.
No fim, talvez seja isso que mantenha o Estúdio Traça tão vivo. Não só a habilidade de reaproveitar tecido, mas a capacidade de ressignificar tudo o que toca – sobra, crise, cidade, corpo, trauma, imagem. Gui Amorim não fala de moda como quem corre atrás do novo a qualquer custo. Ele fala como quem constrói, costura e insiste. E, em um mercado que vive de velocidade, talvez essa seja sua forma mais radical de autoria.



