
O mercado global de bens de luxo está prestes a entrar em uma fase de normalização, após um período de intensa recalibração operacional e criativa, de acordo com o relatório Global Luxury Industry Outlook 2026 da Kearney. Ele prevê um crescimento do setor entre 2% e 4% para o atual ano fiscal. Uma perspectiva mais moderada do que as estimativas externas que circulam no setor varejista.
Segundo o relatório, essa estabilização ocorre em um momento em que o mercado global atingiu cerca de US$ 530 bilhões em 2025, caracterizado por uma disciplina de custos mais rigorosa e uma gestão de estoque mais enxuta.
A dinâmica atual não recompensa mais apenas a velocidade ou a escala, mas exige que as marcas de luxo demonstrem uma clareza criativa renovada para manter o engajamento do consumidor em um ambiente macroeconômico volátil.
A estrutura da demanda global por luxo permanece ancorada nos Estados Unidos, na Europa e na China, que, juntas, concentram tanto a oferta quanto a maioria dos clientes. No entanto, essas regiões não são mais motores de aceleração agressiva, mas agora atuam como âncoras de estabilidade.
As categorias de produtos estão seguindo caminhos divergentes, com uma clara vantagem para as joias, que registraram um crescimento de 6% a 14% graças às suas qualidades de porto seguro e durabilidade.
Em contrapartida, o vestuário e o calçado registraram quedas de 5% a 7% em 2025 sob a pressão do aumento dos preços.
O luxo experiencial, incluindo hotelaria de prestígio e gastronomia, deverá manter uma taxa de crescimento anual composta de 8% até 2028, ilustrando uma mudança nos gastos em direção a experiências exclusivas em vez da mera posse de objetos.
Inteligência articial
A integração da inteligência artificial no setor de luxo está deixando de ser experimental para se tornar uma necessidade crucial, com um crescimento anual de 16,2% nos investimentos em tecnologia projetado para a próxima década.
As marcas agora utilizam esses sistemas para orquestrar a cadeia de suprimentos em tempo real e reduzir o estoque parado por meio de previsões de demanda mais precisas, observa a Kearney.
A empresa também destaca que o surgimento da IA agente em 2026 está remodelando a jornada do cliente, com sistemas autônomos se tornando novos assistentes digitais capazes de filtrar ofertas e até mesmo executar transações em nome dos consumidores.
Dança das cadeiras
O cenário competitivo do mercado de luxo também está sendo transformado por uma onda massiva de mudanças na liderança criativa, com o número de nomeações triplicando no ano passado em comparação com ciclos anteriores.
Espera-se que essa reestruturação criativa reinjete relevância cultural nas narrativas das labels, que por vezes se mostraram desgastadas pelos repetidos aumentos de preços. Para a Kearney, essas transições estratégicas são cruciais para justificar os preços premium para uma clientela da qual 73% relatam ter reduzido suas compras diante da inflação do mercado de luxo.
Consumidores aspiracionais
Contudo, os consumidores aspiracionais não estão abandonando as compras de luxo, mas sim reequilibrando radicalmente seus carrinhos de compras, priorizando peças com alto valor intrínseco ou recorrendo ao mercado de segunda mão.
Esse segmento, particularmente sensível à incerteza econômica, está forçando as marcas de luxo tradicionais a esclarecerem suas propostas de valor diante da ascensão das marcas de luxo de gama média. Estas últimas estão conquistando participação de mercado, crescendo de duas a três vezes mais rápido que as marcas tradicionais entre famílias com renda inferior a US$ 150 mil.
A segmentação comportamental também revela que 63% dos clientes agora definem luxo por meio do artesanato e da longevidade, em vez de por uma marca ou logotipo. Essa busca por significado privilegia o investimento em peças atemporais em detrimento de tendências passageiras, o que implica uma mudança estratégica em direção a uma disciplina de preços mais rigorosa e à redução das diferenças de qualidade.
A Kearney também destaca que o setor agora precisa lidar com a pressão sobre as margens de lucro, as crescentes expectativas em relação à responsabilidade social e ambiental, os riscos de choques logísticos e os custos mais altos de energia.
O sucesso em 2026 dependerá, portanto, da capacidade dos líderes de transformar modelos rígidos de planejamento sazonal em processos ágeis de tomada de decisão, região por região, conclui o relatório.



