
Para Dih Morais, moda nunca foi apenas roupa. Antes de virar estilista, desfilar em semanas de moda, vestir produções da TV Globo ou se tornar o primeiro estilista quilombola a apresentar uma coleção solo no continente africano, sua maior preocupação era outra: continuar existindo. “Tudo começou tão somente na vontade de continuar existindo”, resume.
A frase sintetiza uma trajetória marcada por perdas, violência, resistência e, principalmente, pela capacidade de transformar a própria história em criação. Nascido no Quilombo do Barro Preto, em Jequié (BA), Dih deixou a casa da família aos 12 anos, depois de sofrer violência doméstica motivada por homofobia. Passou a viver entre amigos, professores e parentes, até encontrar, anos depois, na costura, uma possibilidade de reconstruir a própria vida.
Hoje, aos 41 anos, é um dos nomes que ajudam a redefinir os rumos da moda brasileira, levando para as passarelas uma criação que nasce da ancestralidade, da experiência vivida e da força das mulheres negras que moldaram sua história. “Eu quero ser lembrado por fazer uma moda política. Meu corpo e minha arte também são políticos.”
É justamente essa visão que diferencia seu trabalho. Enquanto parte da indústria trata ancestralidade, artesanato e sustentabilidade como tendências de temporada, Dih acredita que essas narrativas só fazem sentido quando partem da vivência. “A moda é sobre vivências. Não adianta falar de ancestralidade se ela não faz parte da sua história. Não adianta falar da favela sem nunca ter estado nela. Quem faz com verdade permanece.”

A crítica chega em um momento em que a moda brasileira amplia o debate sobre diversidade, identidade e representatividade, mas, segundo ele, ainda precisa avançar muito nos bastidores.
“A moda ainda é decidida por uma classe elitista e, sobretudo, branca. Quando você levanta pautas, sabe que não vai acessar todos os espaços. Mas o meu posicionamento vale mais do que estar em qualquer mídia.”
Para Dih, prosperar nunca foi uma conquista individual. “Quando uma pessoa preta ocupa um lugar de destaque, ela nunca está sozinha. Está levando muitas outras pessoas junto.”
Essa lógica aparece também na forma como conduz sua marca. Um dos pilares é o conceito africano de Ubuntu (“eu sou porque nós somos”), que atravessa toda a sua criação.
Seu primeiro desfile autoral, apresentado na Brasil Eco Fashion Week, contou a história do Quilombo do Barro Preto e foi produzido, em grande parte, por mulheres negras da própria comunidade. “Dih Morais não existiria sem tantas mulheres pretas. Eu nunca falo apenas sobre mim. Eu falo sobre um povo.”
Entre essas mulheres, uma ocupa um lugar central: sua avó, Maria da Conceição. Foi ela quem o criou, enfrentando uma rotina de extrema pobreza para sustentar a família. Pedia esmolas para comprar comida, buscava material escolar para os netos e recorria à pesca quando o rio enchia para garantir alimento dentro de casa.

Décadas depois, Dih fez questão de colocá-la na primeira fila do desfile que contava justamente sua história. “Eu transformo a história da minha avó em arte. Não quero que ela seja lembrada apenas pela dor, mas pelo legado que construiu.”
Essa mesma coleção, inspirada no Quilombo do Barro Preto, mudaria sua carreira. Foi com ela que recebeu o convite para desfilar em Moçambique, tornando-se o primeiro estilista quilombola a apresentar um desfile solo no continente africano. Ao mesmo tempo, também havia sido convidado para participar da semana de moda de Milão. A escolha, porém, nunca foi uma dúvida. “Não fazia sentido ir primeiro para a Europa sem antes voltar para a África.”
Mais do que uma conquista profissional, a viagem representou uma reconexão. “A gente cria uma África imaginária. Quando cheguei lá, entendi que a África é múltipla. E isso também me fez entender que nós, pessoas negras, também somos múltiplos. Cada um conta sua própria história.”

Foi essa mesma coleção que também abriu as portas da TV Globo. Depois de publicar um vídeo nas redes sociais inspirado em uma novela, Dih chamou a atenção da figurinista Marie Salles, que o convidou para integrar o figurino da produção “A Nobreza do Amor”, folhetim das 18h da emissora. Das seis peças usadas na trama, quatro eram assinadas por ele. “Levei, mais uma vez, a história da minha avó para a televisão.”
Sua relação com a sustentabilidade também nasce muito antes de o tema ocupar espaço nas passarelas. Na infância, todas as suas roupas eram doações. Quando criou a marca, decidiu que essa experiência faria parte de sua identidade criativa. “Eu nunca tive roupa comprada. Então entendi que também podia contar histórias a partir do que já existia.”

Hoje, Dih é conhecido pelo trabalho de upcycling, ressignificando blazers garimpados em brechós com búzios, miçangas e referências das religiões de matriz africana. “Não preciso criar uma roupa nova para contar uma nova história.”
Para ele, sustentabilidade também passa pela espiritualidade. “Quando penso em cuidar do meio ambiente, penso nos orixás. Não existe espiritualidade sem natureza.” Essa lógica também orienta seu processo criativo. Ao contrário do que acontece em muitas marcas, a roupa nunca é o ponto de partida.”Primeiro vem a história. Depois vem a mensagem. A roupa é a última coisa.”

Hoje, instalado em um ateliê no Largo do Paissandu, no centro de São Paulo, Dih prepara uma nova coleção desenvolvida junto às mulheres do Quilombo do Barro Preto. Em julho, retorna à comunidade para dar continuidade ao projeto e reencontrar a avó.
Mas seu maior sonho ainda está por vir. Ele quer voltar definitivamente para Jequié e criar um instituto voltado à formação de crianças e jovens negros. “Quero que meninos e meninas pretas entendam que o futuro é possível. Que o sucesso também é possível. Que a gente pode continuar sonhando.”
Porque, no fim, a moda que Dih Morais cria nunca foi apenas sobre vestir corpos. É sobre contar histórias que durante muito tempo foram invisibilizadas, e provar, coleção após coleção, que existir também é um ato político.


