
Há mais de seis décadas nos palcos, na televisão e no cinema, Arlete Salles encara um desafio inédito na carreira. A atriz, de 88 anos, estreia, no dia 11 de julho, o primeiro monólogo de sua trajetória com “Mande Notícias do Mundo de Lá“, espetáculo escrito e dirigido por Carlos Jardim que cumpre temporada até 2 de agosto no Teatro Fernando Torres, com sessões aos sábados, às 20h, e domingos, às 19h.
Na peça, Arlete interpreta Eulália Eugênia, uma mulher expansiva, bem-humorada e aterrorizada pela ideia da morte. O medo, porém, precisa ser enfrentado quando ela vai ao velório da amiga Rosimere. Como ninguém mais aparece para a despedida, Eulália se aproxima do caixão para que a companheira de tantos anos não seja enterrada sozinha. É desse encontro entre a despedida, as lembranças e as provocações acumuladas ao longo de uma vida de amizade que nasce uma história que alterna humor afiado e emoção.
Segundo Arlete, a ideia de conduzir um espetáculo sozinha nunca esteve entre seus planos. O convite só fez sentido depois da leitura do texto de Jardim. “Nunca foi um projeto meu ficar sozinha no palco. Achava bonito ver outros colegas fazendo isso, mas também muito corajoso. Quando li o texto, encontrei muitas qualidades e fui descobrindo suas sutilezas a cada nova leitura”, afirma.
A atriz também destaca a identificação com a protagonista, especialmente por abordar questões ligadas ao envelhecimento. Para ela, Eulália vive sentimentos e reflexões muito próximos dos seus. “É um trabalho sobre etaridade. Falo de muitas coisas que estão presentes na minha vida, que eu conheço e vivencio diariamente”, diz. Arlete resume sua visão sobre o tema de forma direta: “Envelhecer é um grande desafio, mas é muito pior partir jovem, sem ter aproveitado essa maravilha que é a vida.”
Jardim escreveu o texto pensando na capacidade de Arlete de transitar entre o drama e a comédia. “Ela tem um tempo de humor raro e uma emoção genuína. O espetáculo alterna constantemente essas duas emoções, e Arlete faz essa passagem com uma facilidade impressionante”, afirma o autor e diretor.
Para ele, o humor é justamente a ferramenta que permite tratar assuntos delicados sem torná-los pesados. Ao abordar o envelhecimento, a perda e a proximidade da morte, a peça propõe uma reflexão sobre a importância de valorizar o tempo vivido e as memórias construídas ao longo da vida. “O envelhecimento traz a consciência de que o fim pode chegar a qualquer momento. Isso pode gerar angústia ou despertar a urgência de aproveitar o tempo que resta. Acredito que o humor é a chave para tornar tudo isso mais leve”, explica.
O diretor também destaca o significado de ver uma artista consagrada assumir um desafio inédito nesta fase da carreira. “Uma atriz do tamanho da Arlete, que não precisa provar mais nada, aceitar fazer seu primeiro monólogo é como se jogar no trapézio sem rede de proteção. Como diretor, tento facilitar esse voo. E posso garantir que será um voo lindo e surpreendente”, conclui.
Teatro Fernando Torres – Rua Padre Estevão Pernet, 588, Tatuapé, São Paulo, SP. Ingressos Simpla.



