
Um dos textos mais emblemáticos da literatura em língua portuguesa retorna ao teatro em uma montagem que reforça sua surpreendente atualidade. “Sermão de Santo Antônio aos Peixes”, de Padre Antônio Vieira, estreia no dia 16 de julho, às 20h30, no auditório do Sesc Pinheiros, em São Paulo, com direção e dramaturgia de Moacir Chaves. Em cena, o diretor divide o palco com o ator Márcio Vito, enquanto Gustavo Corsi executa a trilha sonora ao vivo e assina a direção musical. A temporada segue até 8 de agosto.
Escrito e pregado em 1654, o sermão utiliza os peixes como metáforas para denunciar a exploração do homem pelo homem, condenar a escravização dos povos indígenas e refletir sobre temas como ganância, poder e corrupção. Mais de três séculos depois, o texto mantém a força de suas provocações, agora apresentado por meio da interpretação dos atores, da música ao vivo e de recursos cênicos que aproximam a obra do público contemporâneo.
Para Moacir Chaves, Padre Antônio Vieira ocupa um lugar singular na tradição da língua portuguesa. “Vieira escreveu para ser ouvido. Seus sermões têm ritmo, humor, inteligência e uma enorme potência teatral. É impossível lê-los sem imaginar sua presença em cena. O púlpito era seu palco”, afirma o diretor, que compara o jesuíta ao dramaturgo inglês William Shakespeare pela capacidade de transformar a palavra em espetáculo e manter sua obra viva ao longo dos séculos.
O “Sermão de Santo Antônio aos Peixes” foi apresentado originalmente em 13 de junho de 1654, em São Luís do Maranhão, durante um período de intensos conflitos entre colonos e jesuítas em torno da escravização dos povos indígenas. Poucos dias depois da pregação, Vieira embarcou para Lisboa para pedir ao rei D. João IV medidas que ampliassem a proteção às populações indígenas diante da exploração promovida pelos colonizadores.
Reconhecido não apenas por sua atuação religiosa, mas também por sua influência política e diplomática, Vieira transformou seus sermões em instrumentos de intervenção pública. Questões como intolerância, desigualdade, abuso de poder e relações humanas atravessam sua produção literária e continuam ecoando no debate atual.
Para Chaves, revisitar a obra de Vieira representa também um reencontro com um autor que marcou sua trajetória artística. Há cerca de 30 anos, ele dirigiu “Sermão da Quarta-feira de Cinza”, protagonizado por Pedro Paulo Rangel.
Segundo o diretor, o aspecto mais impressionante do texto é a maneira como combina ironia, humor e contundência para expor contradições que permanecem presentes na sociedade. “O público daquela época aceitava Cristo, mas tinha dificuldade em viver de forma cristã, abrir mão dos privilégios e enfrentar a desigualdade social. Essa tensão continua atravessando a história”, conclui.
Sesc Pinheiros – Rua Paes Leme, 195, Pinheiros, São Paulo, SP.


