
Traduzindo do gaélico, Sherida significa “selvagem”. Esse é o nome que a estilista cearense Sherida Livas carrega e que batiza a sua marca homônima. Sherida recorda em entrevista para o CHNews que sua mãe escolheu seu nome durante um passeio pelo interior do Ceará ao se deparar com uma loja chamada “Sherida Modas”. Encantada com o nome, batizou sua filha com ele. “O grande plot twist é que eu trabalho com moda”, brinca com carinho.
Sherida surpreende ao revelar que se formou em engenharia de petróleo e gás pela Universidade de Fortaleza. Porém, no decorrer do curso, percebeu que aquele não era o seu lugar e resolveu trocar a engenharia pela moda. Ela conta: “Eu não fui fazer moda por impulso. Às vezes, você sai da faculdade muito por impulso de seguir uma profissão que você não sabe se você vai querer fazer”.
Hoje, a designer afirma rindo que “não sinto nem saudade” da engenharia. Apesar da mudança de área, ela não descarta completamente o que aprendeu no curso, como as habilidades analíticas e logísticas que adquiriu. Habilidades essas que continuaram a fazer parte da sua trajetória na moda quando abriu seu ateliê em casa e em, 2022, inaugurou sua própria marca.
Mas, se engana quem pensa que a moda deixou a vida de Sherida em algum momento. Sua família está neste universo há gerações: seu pai na serigrafia e sua mãe nas modelagens. “Na realidade, o sustento da minha família, tudo que a gente teve de ganho foi através da moda”, ela comenta e adiciona que a moda permitiu que seus pais criassem quatro filhos.
Em relação à própria Sherida, sua paixão pela moda começou cedo na forma de desenhos. Mesmo assim, ela sentiu que seus pais se lamentaram quando decidiu deixar a engenharia de petróleo. Para a estilista, seus pais trabalhavam tão de perto com os bastidores das produções que conheceram a moda longe do glamour e do luxo. Em função disso, temiam que sua filha seguisse por um caminho de trabalhos cansativos.
No entanto, é claro que esse passado não ficou para trás. Até hoje, Sherida trabalha nas modelagens das suas peças ao lado da mãe. Em partes, a estilista acredita que essa parceria ajuda a realizar sonhos que podem ter ficado no passado. “Antes, ela (a mãe) não amava tanto a moda. Aí, ela fala para mim que ao decorrer do meu crescimento dentro da área ela voltou a se apaixonar por moda”, Sherida comenta com um sorriso.
Mais adiante, ela também brinca que sua mãe é requisitada por outras marcas durante eventos como o São Paulo Fashion Week, a ponto dela ter que pedir por espaço entre os compromissos da mãe: “nossa, uma agendinha para mim?”, ela ri.
“Meu trabalho é o que eu estou passando naquele momento, e é de uma forma muito clara”. É assim que ela define seu processo criativo, e usa sua própria carreira para ilustrá-lo. Seu primeiro desfile, em 2022, foi chamado de “Terra Luz” inspirado no apelido dado à Fortaleza. Com ele, seu desejo era estabelecer uma relação com a ideia de que a cidade é iluminada por ideias, ao mesmo tempo em que Sherida se inspirava no surfe. Como consequência, ela relata se sentir livre e cheia de energia de criação durante a elaboração dessa coleção. O resultado? Um desfile cheio de tons fluorescentes e intensos.
Em seguida, movida por suas pesquisas sobre formas de tratamento de ansiedade e depressão que não dependem de remédios, a “Trip” abordava temas como viagens psicodélicas e cogumelos. Já sua próxima aventura foi a coleção “Avexada”. Sherida explica que, no Nordeste, o termo se refere a uma pessoa que é muito acelerada. E a escolha do nome não foi à toa, já que ela se encontrava em um “big boom” de trabalho que, além de trazer muita felicidade, também trouxe uma boa quantidade de cansaço. “A coleção, ela fala desse cansaço de trabalho. Eu fiquei tão cansada fazendo o ‘Trip’ que eu fiz essa coleção, que ela fala disso”, explica.
Já o Nordeste entra nas coleções na forma de detalhes. “Dificilmente você vai ver uma peça que você vai dizer: ‘isso daqui é do Ceará, isso daqui é um artesanato’. Porque eu acho que se eu fizesse isso, eu estaria sendo completamente contra a minha identidade”. E quando o assunto é identidade, Sherida ainda resgata trabalhos manuais feitos por sua mãe e rendas regionais. Em suas próprias palavras: “Eu vim dessa realidade do fazer manual, da técnica”, o que a leva a incorporar muita materialidade do Nordeste às suas obras, principalmente dentro do universo da estamparia.
O feminino de Sherida
Sherida, uma criança que não se achava feminina enquanto crescia, agora tem o feminino como um dos conceitos centrais das suas criações. A partir de um desejo de criar uma forte relação do seu trabalho com mulheres e feministas, Sherida entende o feminismo como “quase um estado de espírito”. E a agrada ver o feminino espalhado em homens, mulheres, crianças, velhas, animais e o que seja.
Sua construção do feminino nasceu a partir das lacunas que observava nela mesma quando criança. Gradualmente nasceu seu interesse pela temática, assim como sua porção do feminino como algo não literal. “O feminino que eu trago realmente não precisa ser esse cheio de laço. Ele pode ser uma mulher de terno, não importa”, explica.
A partir deste entendimento, Sherida desafia o sexismo que existe dentro da moda e cria um projeto único e pessoal. Para isso, ela considera que sua forma de criar resulta em roupas que fazem as mulheres se sentirem bem vestidas, independentemente da quantidade, ou falta, de cobertura do corpo. A designer ainda avança nessa ideia ao afirmar: “O feminismo, quando ele é aplicado à moda, é a forma mais fiel de uma mulher se ver vestida, se sentir bem vestindo”.
Pensada para ser atrevida, colorida, leve e divertida, a moda de Sherida segue a filosofia de sua criadora de ser uma forma de diversão que faz quem a usa se sentir bem. Ao mesmo tempo, a própria Sherida brinca que “eu gosto de uma moda atrevida, eu gosto de uma moda colorida. Não me adaptei ao ‘quiet luxury’”, e ri.
Ela também comenta: “A moda que eu faço acompanha isso, eu gosto de me sentir bem vestida, mas também saber que eu vou estar vestindo pessoas bem”. A escala de sua produção também condiz com a sua forma de enxergar o mundo. Suas peças são produzidas em pequenas quantidades e chegam às mãos do público sob demanda. Mas não sem antes receber ajustes personalizados para o corpo de cara um.
“O meu trabalho não é por temporada”, ela pontua “o design não vai cair em desuso, ele vai ser atemporal.” Para Sherida, a marca que leva o seu nome é quase como um ser humano que carrega suas vivências consigo, sem problemas em revisitar memórias de coleções passadas.


