
A grife carioca Beira, dirigida por Livia Cunha, acaba de entrar para o mercado bridal com a linha Beira Noivas. A diretora relata que o movimento para o universo de noivas surgiu da busca por maior espaço para experimentação de técnicas, volume de tecido e processos longos de construção.
“Eu sempre quis desenvolver produtos com muita textura, muita camada, muita calda. Em vestido de noiva eu consigo fazer isso sem limite de tempo de execução”, afirma Livia. Segundo ela, o contexto do casamento também amplia o campo de ação: “No casamento, a roupa entra em um dia de rito. A pessoa usa uma vez, entra na festa, dança, o tecido passa por muita coisa. Com isso, eu ganho liberdade para testar bordado, montagem, quantidade de tecido.”

O primeiro vestido de noiva da estilista surgiu a partir de um pedido de uma amiga. “Eu fiz o vestido inteiro com bordado, em um ritmo de ateliê, ponto por ponto. No prêt-à-porter, esse tipo de processo fica difícil. Depois dessa experiência, eu pensei: eu posso seguir com isso, eu posso abrir espaço para esse tipo de projeto”, lembra.
A rotina da marca integra criação, modelagem, desenvolvimento e costura no ateliê do Rio de Janeiro. Livia associa essa estrutura ao modo de produção da Beira Noivas. “Quando a produção vai para fora, eu preciso de grade, volume, repetição. No ateliê, eu posso tratar cada peça como caso único. Eu posso mudar caminho no meio do processo, eu posso ajustar uma decisão depois da prova”, diz. Ela resume o raciocínio com uma imagem de bastidor: “Se eu produzo cem peças em fábrica, eu não mudo mais o desenho. No ateliê, nenhuma peça precisa seguir a mesma forma.”

O atendimento de noivas ocorre com hora marcada. A diretora descreve o encontro como etapa central do desenvolvimento do vestido. “A pessoa chega, experimenta peças da marca, mesmo em preto ou em outra cor. Eu pergunto sobre manga, calda, dança, transparência, tipo de movimento. A partir dessa conversa, eu proponho ou um desenvolvimento do zero ou uma transformação de um modelo da coleção”, explica.
O processo segue com base de prova em tecido neutro, criação de molde e depois montagem do vestido. “Na primeira etapa eu tiro medida e entendo o que a pessoa quer perto do corpo ou longe do corpo. Depois vem um protótipo. Só então eu entro no tecido final. O vestido passa por prova com costura aberta, depois por última prova. Nesse ponto eu já tenho receio de mudança estrutural, porque o tecido já recebeu furo de agulha”, conta. Ela estima ciclo de cerca de dois meses para um vestido de noiva, do primeiro contato à entrega.

Para a diretora, a entrada no segmento de noivas marca um estágio da trajetória da marca. “Eu levei mais de dez anos de trabalho para ter coragem de assumir um vestido de casamento. É um dia de peso simbólico. Eu precisei de tempo de prática para dizer: eu assumo esse compromisso, eu entrego”, revela.
Lívia vê o desenvolvimento de vestidos de noiva como laboratório para futuras coleções. “Cada vestido de noiva abre um caminho de linguagem. Às vezes eu descubro uma solução em um vestido de casamento e, depois, levo essa ideia para uma calça ou para um casaco. Eu começo a não aceitar mais uma peça lisa, eu passo a buscar recurso de textura ou de bordado em tudo”, diz.

Sobre os próximos passos da Beira Noivas, a diretora projeta gradual ampliação do acervo no ateliê. “Hoje eu trabalho muito a partir de pedido individual. Eu tenho poucos vestidos de noiva em arara, porque a venda de peça pronta de noiva é mais rara. Com o tempo, eu quero ter mais modelos de noiva disponíveis para prova, mesmo sem saída imediata. Isso ajuda a pessoa a ver volume, calda, construção, sem depender só de desenho”, explica.
Lívia sintetiza o papel da linha de noivas na estrutura geral da marca: “Quanto mais eu produzo vestido de noiva, mais eu desenvolvo recurso de modelagem, de tecido e de técnica. Isso volta para o prêt-à-porter e para festa. A linha de noiva não fica isolada, ela alimenta o restante da marca.”


