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“Antes de estilista, eu sou um xereta”: a trajetória de Augusto Paz

por Carol Hungria
23/08/2026
Tempo De Leitura: 4 minutos de leitura
Augusto Paz – Foto: Divulgação

Augusto Paz fala sobre si mesmo com uma definição direta: “Antes de estilista, eu acho que eu sou um xereta. Eu gosto muito de ciscar, eu gosto muito de falar com gente. Gosto de fazer coisas, gosto muito de aprender.”

Nascido em Santo André, no ABC Paulista, ele se formou em moda na Universidade de São Paulo em 2013. A entrada na área veio pelo texto. “A minha carreira na moda começou no jornalismo, na realidade. Trabalhei como redator, fui assistente do Lula Rodrigues, depois enveredei para a parte do marketing, na moda, e depois fui ciscar em outras áreas.”

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Essas outras áreas incluíram agência de marketing, mídias sociais e tecnologia: “Trabalhei com mídias sociais, análise de mídias sociais, quando a internet era só mato. E fui ciscando e ciscando, trabalhei com inteligência artificial, quando nem se falava ainda no assunto, em uma empresa que vendia um software AI driven para interpretação de texto, então tem esse chapéuzinho aí de gerente de conta.”

A relação com a moda começou muito antes da faculdade. Sua mãe gostava de mandar fazer roupas em uma costureira que acabou se afeiçoando a Augusto, e o deixava zanzar pela oficina e conhecer o oficio.

Na adolescência, veio o SENAI. “Eu tinha 17 anos, eu acho, e fui fazer SENAI. Aí eu fiz o curso de capacitação de modelagem e de costura industrial. Um curso intensivo. E aí eu falei, nossa, isso daqui é muito legal. Acho que eu quero fazer faculdade disso.”

A condição financeira em casa definia o caminho. “Como a gente não tinha grana, minha mãe falou: ‘Filho, que lindo! Acho um mercado fantástico. Mas ou é USP, ou é USP, entendeu?’ E aí foi.”

A marca com seu nome surgiu em 2021, depois de um episódio de esgotamento na tecnologia. “Eu estava trabalhando em tecnologia, tive um piripaque, que eu acho que é o nome mais adequado pra burnout.”

Durante essa fase, ele retomou o crochê, aprendido na infância com a avó. “Retomei o crochê como terapia ocupacional. Aí eu lembro que fiz uma blusa, postei no Instagram. E aí alguém falou: ‘Nossa, que legal, onde você comprou?’ Eu falei: ‘Não, eu que fiz.’ Logo pensei que havia um dinheiro ali.”

A decisão veio em seguida. “Dei uma grande banana para o mundo da tecnologia, abri meio tímido na sala de casa e comecei o ateliê. A coisa foi crescendo, crescendo, e aí chegou um ponto que, ou se entrasse mais uma sacola de tecido em casa, meu marido me botava pra fora. Aí eu aluguei uma sala ali no Conjunto Nacional.”

O atendimento no ateliê segue um ritual direto. “É um atendimento meio à moda antiga. As pessoas me abordam, a gente toma um café no meu ateliê e eu faço um processo que é quase uma anamnese.”

Segundo ele, a experiência em tecnologia migrou para a moda. “Muita coisa que hoje eu levo para o atendimento do meu cliente de moda eu aprendi atendendo os meus clientes de tecnologia. Então hoje a gente tem esse processo de anamnese, eu apresento ali amostras que eu tenho em loco, mas se não, faço uma pesquisa de tecido, monto uma cartela de materiais, apresento para o cliente, monto um projeto para o cliente.”

A demanda que chega ao ateliê mudou com o tempo. “A gente recebia uma demanda que era, por ser sob medida, muito focada ali no segmento de festa. Depois surgiu uma demanda de corporativo. E hoje, principalmente depois do último desfile, o nome que eu dou é roupa de sair.” Ele recorre a uma memória doméstica: “Lembra quando as mães da gente falavam que tinha roupa de ficar em casa e roupa de sair?”

As coleções de Augusto costumam partir de experiências pessoais. Ele menciona temas anteriores como morte e casa da tia. Para o desfile atual, que acontece na próxima terça-feira (25.08), porém, ele descreve outra escolha. “Esse ano a gente não vai falar sobre nada. Esse ano é deliberado. A gente optou por focar a nossa energia onde é mais importante, que é fazer boas roupas.”

O incômodo com o excesso de narrativa é explícito: “Não quero desfilar a jaqueta XPTO porque ela remete à referência de Madagascar, da Salamanca. Não, eu quero uma boa jaqueta que desfile e que funcione sozinha, sem narrativa por trás. Não quero fazer roupa para encher linguiça. Não quero fazer roupa para estar subordinada a uma história que a gente vai contar.”

Sobre expansão, Augusto mira aumento de capacidade, sem mudança de modelo. “Quero aumentar a minha capacidade produtiva. Mas eu não penso em trabalhar com prêt-à-porter, não penso em trabalhar com pronta entrega, porque esse é onde o meu olho brilha desde a tecnologia. Eu atendia uma carteira de clientes que era um cliente butique. Clientes de ticket muito alto e clientes para os quais a solução de prateleira não era suficiente.”

Em relação a projetos futuros, ele aponta para outra frente de criação. “Figurino me parece uma coisa muito legal. De teatro principalmente. Ou para entretenimento.É um projeto que você consegue meio que deixar o carro na banguela e fazer um pouco mais de loucura.”

Tags: Augusto Pazdestaque home
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