
Existe um luxo que a indústria da moda quase esqueceu: o tempo. Em um mercado no qual coleções inteiras surgem e desaparecem em poucas semanas, 14 marcas parceiras do movimento Sou de Algodão, iniciativa da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), escolheram processos mais lentos e autorais para transformar a fibra natural em roupa. Em comemoração ao Dia Internacional da Moda, nesta sexta-feira (21.08), as criações mostram como o algodão pode ultrapassar seu uso convencional. Técnicas manuais, desconstrução, pintura, bordado, moulage e experimentações com o denim revelam diferentes maneiras de pensar a matéria-prima, e destacam a identidade de alguns dos nomes mais inventivos da moda brasileira contemporânea.
João Pimenta assina uma das experiências mais radicais. Em vez de transformar a fibra em tecido, o estilista comprimiu pluma pura de algodão entre duas camadas de tule, unidas por costura matelassada. A criação eliminou etapas como fiação e tecelagem para preservar a matéria em seu estado original. “Eu não queria construir um tecido com ela, eu queria usar a pluma pura”, explica.
Conhecido por renovar a moda masculina brasileira, David Lee encontrou no crochê o ponto de partida para o casaco Laço. A peça foi produzida durante a retomada pós-pandemia por duas artesãs que trabalharam à distância durante cinco dias, sem dividir o mesmo espaço com o estilista. O resultado traduz a valorização do trabalho manual que atravessa a produção da marca cearense.
A Thear, criada por Theodora Lopes, também recorreu ao crochê para construir um corset 100% algodão combinado a um tule leve. Com atenção à sustentabilidade e às técnicas tradicionais, a marca aproxima a estrutura rígida do corset da delicadeza das manualidades brasileiras.

A Berimbau Brasil uniu forças com o estilista Felix Carvalho na criação do Vestido Cofo. O trançado vertical da peça foi inspirado no cofo, cesto artesanal associado às quebradeiras de coco-babaçu. A colaboração transforma um objeto ligado ao cotidiano e ao saber popular em referência para uma moda conectada à cultura brasileira.
No Studio Ellias Kaleb, o algodão tornou-se uma superfície aberta à experimentação. A marca desenvolveu uma base de tramas intuitivas e aplicou pigmentação manual diretamente sobre a fibra, reforçando a presença do gesto humano e o caráter único da peça.
Vitor Cunha levou dois meses para concluir um look construído com cordas de macramê e fitas de algodão. Inspirada no próprio floco da planta, a criação combina volume, movimento e trabalho artesanal, como se as formas do algodoeiro ganhassem vida sobre o corpo.
A estilista Marui Akamine, conhecida pela pesquisa de formas e pela influência de referências amazônicas, investiu no denim 100% algodão sem lavagem industrial. O material aparece no macacão Denim Tortuga e no Macaquinho Olímpia, peças que preservam a alfaiataria estruturada e reduzem etapas de beneficiamento. A marca também criou o Vestido Hornare, confeccionado em malha de algodão com seda e modelado diretamente no corpo por meio da moulage.
A Bold Strap apresentou outra interpretação do jeans. A marca, que desafia códigos de gênero e valoriza uma moda de forte impacto visual, construiu uma jaqueta-corset com ombros exagerados e recuperou a lavagem “sal e pimenta”, característica dos anos 1980.
Na Martins, o estilista Tom Martins utilizou dois ícones da Levi’s (a calça 501 e a jaqueta Trucker) como matéria-prima para uma desconstrução. As peças receberam pintura inspirada no bianchetto, técnica associada ao trabalho de Martin Margiela, em uma proposta que conecta história da moda, transformação e autoria.

Referência da moda afro-brasileira, Isa Silva bordou à mão símbolos Adinkra sobre a sarja de algodão. Originários de povos da África Ocidental, esses elementos carregam ideias, valores e ensinamentos. Ao incorporá-los à peça, a estilista reafirma a ancestralidade africana como parte central, e não periférica, da moda brasileira.
A Jacobina levou para o projeto elementos da coleção Névoa, homenagem a mulheres negras que marcaram a história. Os tecidos de aspecto esfumaçado funcionam como superfícies de memória, nas quais presenças muitas vezes apagadas ganham forma e visibilidade.

Adriana Meira, reconhecida por uma estética de maior intensidade cromática e visual, explorou um caminho diferente de seu repertório habitual. A estilista combinou a delicadeza do algodão com camadas de tecido aplicadas manualmente e escolheu tons suaves para construir uma peça marcada pelo equilíbrio entre volume e leveza.

À La Garçonne, de Alexandre Herchcovitch e Fábio Souza, voltou seu olhar para os uniformes de trabalho. A marca recriou um macacão de workwear americano dos anos 1940 em sarja peletizada 100% algodão. Pintada à mão, a peça aproxima referências históricas e utilitárias da linguagem autoral da dupla.
O Estúdio Traça, por sua vez, criou um look para o Carnaval do cantor Pedro Sampaio. Além da força performática, a peça marcou a abertura de uma nova frente de trabalho da marca, dedicada também aos corpos masculinos e às possibilidades de criação para além das divisões tradicionais de gênero.
As 14 marcas apresentam caminhos distintos, mas compartilham o mesmo fio condutor: o algodão como matéria-prima capaz de guardar tempo, memória, técnica e identidade. Em vez de buscar apenas velocidade, essas criações recuperam o valor da mão, da pesquisa e da espera.
No Dia Internacional da Moda, os trabalhos também lembram que vestir pode ser um gesto de cuidado. Entre fibras, tramas, bordados e pinturas, cada peça devolve à roupa algo que a produção acelerada dificilmente consegue reproduzir: a presença de quem a imaginou e de quem a fez.


