
Antes de se transformar em um dos trabalhos mais importantes de sua carreira, “Eu Sou Minha Própria Mulher” foi, para Edwin Luisi, um texto difícil, denso e até assustador. O primeiro contato aconteceu quase como uma sequência de sinais. Alexia Dechamps lhe falou sobre a peça durante um encontro casual na praia. Tempos depois, Mônica Martelli voltou ao assunto e afirmou que aquela história tinha a cara dele. Edwin entendeu a coincidência como um recado.
“Fui para casa e pensei: ‘São recados que a providência está me enviando’”, contou o ator durante coletiva de imprensa. Decidido, comprou os direitos da obra, um investimento de 15 mil dólares, além dos custos do escritório responsável pela negociação. Quando finalmente começou a leitura, veio o choque: ele não gostou.
Havia muitas passagens em alemão, dezenas de personagens e uma narrativa extensa, atravessada por questões históricas, políticas e humanas de enorme peso. “Achei muito difícil. Era uma peça muito densa, muito grande, com assuntos que eu achava demasiados e, sobretudo, muito pesada”, relembrou.
O entusiasmo de Herson Capri mudou o rumo da história. Amigos e parceiros de cena, os dois trabalhavam juntos quando Edwin entregou o texto ao colega. Herson se apaixonou imediatamente pela obra e aceitou dirigi-la. Sem patrocínio e longe de uma estrutura convencional, os primeiros ensaios aconteceram na sala da casa de Edwin, que retirou todos os móveis para abrir espaço ao espetáculo.
A paixão que não surgiu na leitura foi aparecendo à medida que a peça ganhava corpo. Um ensaio para um pequeno grupo de amigos confirmou que havia ali algo poderoso. Edwin ainda se lembra dos rostos atentos e da sensação de ver as pessoas “em suspensão”. “Eu fiquei com uma alegria e falei: ‘Poxa, acho que vai dar tudo certo’. E deu.”
Estreada originalmente em 2007, a montagem permaneceu dois anos em cartaz e rendeu a Edwin os prêmios Shell e APTR de Melhor Ator, além do Qualidade Brasil de Melhor Ator Teatral de Drama. Agora, 18 anos depois, “Eu Sou Minha Própria Mulher” chega pela primeira vez a São Paulo. A nova temporada estreia nesta sexta-feira (11.09), no Teatro Faap, e segue até 29 de novembro.

Um reencontro, não uma repetição
Edwin faz questão de definir a montagem atual como uma releitura. O texto foi revisto, a trilha sonora ganhou novos elementos e a encenação passou a incorporar a experiência acumulada por ator e diretor ao longo de quase duas décadas. Nesse intervalo, os dois envelheceram, atravessaram uma pandemia e acompanharam transformações políticas e sociais que tornaram a história de Charlotte ainda mais urgente.
“Que bom que eu não consegui trazer a peça para São Paulo naquela época”, afirmou Edwin. “Agora estou mais pleno. A peça ganhou fôlego, ganhou mais humor. Estamos mais velhos, com mais vivência. Atravessamos uma pandemia e momentos perigosos politicamente no Brasil. Eu volto muito mais contundente e, sobretudo, o assunto está muito mais atual.”
Na primeira montagem, a principal preocupação do ator era encontrar recursos claros para diferenciar as figuras que surgiam em cena. Sozinho no palco, ele interpreta cerca de 20 personagens, entre eles Charlotte, seu pai, seu amante, oficiais nazistas e o próprio dramaturgo Doug Wright. Cada um precisava de uma voz, um gesto, um ritmo e um temperamento reconhecíveis.
Hoje, o desafio deixou de ser apenas mostrar quem está falando. Edwin passou a procurar aquilo que existe de contraditório dentro de cada personagem. “Na primeira vez era mais chapado: cada personagem tinha determinados gestos, voz e temperamento. Agora, posso fazer dentro de cada um as suas contradições. Vou muito mais profundamente, tanto no riso quanto no drama.”
Essa transformação também tornou a peça mais divertida, sem retirar sua gravidade. Herson destaca a habilidade do ator para fazer as mudanças diante do público sem sublinhar o mecanismo. “A mudança é só mudar. Não precisa mostrar que está mudando”, explicou o diretor. Para ele, Edwin faz com que duas ou três figuras pareçam conversar entre si, embora todas existam no corpo de um único intérprete.
O resultado provocou reações que Edwin guarda com orgulho. Um espectador lhe disse que, por meio da peça, conseguia “enxergar o invisível”. Outro a definiu como “o monólogo mais povoado” que já havia visto. Desde a retomada do espetáculo, o ator calcula ter conquistado cerca de 30 mil seguidores, atraídos principalmente pelo impacto do trabalho.
“Quando a gente é mais jovem, talvez ameace mais o outro. Quando vai ficando mais velho, as pessoas passam a ter um carinho maior”, refletiu. “Há 40 anos, eu ouvia: ‘Você é gostoso, você é muito bonito’. Agora, o elogio vai para outro lado. O amadurecimento profissional é inegável.”
Charlotte

Escrita pelo norte-americano Doug Wright, vencedor dos prêmios Pulitzer e Tony, a peça nasceu de entrevistas realizadas com Charlotte von Mahlsdorf. Nascida em 1928 e registrada como Lothar Berfelde, ela assumiu sua identidade feminina ainda em uma Alemanha marcada pelo nazismo. Mais tarde, atravessou também a repressão do regime comunista na Alemanha Oriental.
Charlotte reuniu objetos retirados de casas bombardeadas durante a Segunda Guerra Mundial e criou um museu dedicado ao cotidiano alemão. O espaço também acolheu encontros da comunidade LGBTQIAPN+. Sua trajetória, porém, está longe de ser uma biografia confortável ou uma celebração sem fissuras. À medida que ganhou projeção pública, vieram à tona episódios controversos de sua vida e suspeitas sobre sua relação com a polícia secreta da Alemanha Oriental.
É justamente essa mistura de coragem e ambiguidade que impede a personagem de caber no papel de heroína convencional. Se antes Edwin estava concentrado na proeza de sustentar tantos personagens, agora encontra espaço para examinar com maior profundidade as zonas de sombra de Charlotte.
Ao mesmo tempo, a história de uma travesti que insistiu em existir sob dois regimes autoritários ganhou novas ressonâncias. Edwin observa que, em 2007, a discussão sobre a população trans existia, mas ainda não ocupava o espaço social e político alcançado hoje. Essa visibilidade, contudo, veio acompanhada de uma reação igualmente violenta. “Para cada sucesso de uma travesti, para cada elevação de nível socioeconômico, o outro lado reage na mesma intensidade”, disse. “A peça fala sobre isso. Apesar de estar situada nos anos 1940, ela faz a mesma pergunta: por que não deixar o mundo ser como ele é?”
Para o ator, a diversidade não é uma ameaça, mas aquilo que torna a vida mais rica. “Eu adoro vários tons de pele, vários credos, várias culturas. A variedade torna o mundo mais bonito. Se tudo for cinza, é muito monótono.”
Edwin também recordou relatos de espectadores que passaram a ser mais bem compreendidos pelas próprias famílias depois que elas assistiram à peça. É nesse efeito íntimo, capaz de atravessar o palco e interferir em relações reais, que ele identifica uma das dimensões políticas do espetáculo.
“Já me disseram: ‘Minha família passou a me aceitar melhor depois que assistiu à tua peça’. Acho que é isso que importa”, afirmou. Para ele, Charlotte e artistas como Rogéria, embora completamente diferentes entre si, contribuíram para reduzir preconceitos ao ocupar espaços que historicamente lhes haviam sido negados. “Elas deram um salto qualitativo e afetivo na vida dessa parcela de pessoas que sofre preconceito.”

Teatro
Para construir o espetáculo, Edwin trata as palavras como uma partitura. Estuda o ritmo das frases, as pausas, os sotaques, a sonoridade e até a semântica de determinados termos. Como interpreta personagens alemães falando em português, avalia quais palavras permanecem claras quando atravessadas pelo sotaque. O texto precisa estar tão profundamente incorporado que o ator deixe de pensar na próxima fala e possa se dedicar às sutilezas. “Não existe segredo para decorar. É muito trabalho”, resumiu. “Você precisa saber o texto o suficiente para não errar nada. Quando tem essa segurança, pode viajar para os outros lados da interpretação, para as sutilezas e os detalhes.”
O monólogo exige que ele fale por cerca de uma hora e vinte minutos, em ritmo acelerado, quase sem interrupções. Mas são justamente os momentos de silêncio que mais o emocionam. Edwin descreve como fascinante a sensação de chegar a uma pausa longa e perceber que ninguém na plateia se mexe. Para ele, essa suspensão funciona como “um aplauso ao drama em silêncio”.
Herson Capri acompanha esse trabalho com a intimidade de uma amizade de mais de 50 anos. O diretor afirma que a relação se sustenta na admiração, no respeito e na ausência de competição. “Edwin tem talento, sensibilidade e inteligência, mas possui uma coisa fundamental que nem todo mundo percebe: empenho, dedicação, estudo e aprofundamento. Ele faz isso nos ensaios e também durante a temporada.”
A montagem ganhou cortes e ajustes de linguagem, além de um novo prólogo escrito por Edwin, que transformou a narrativa em um grande flashback. A trilha passou a incluir a canção “Lili Marlene”. Mesmo depois da estreia, nenhum dos dois considera o espetáculo encerrado. “O teatro é vivo. O teatro é infinito. Dá para melhorar sempre”, afirmou o ator.
Essa inquietação artística está ligada à maneira como Edwin escolheu conduzir a carreira. Formado em um teatro marcado pela luta contra a ditadura e pela redemocratização do país, ele não esconde o desejo de fazer obras que assumam uma posição diante do mundo.
“É claro que, para ganhar mais dinheiro, eu poderia montar uma grande comédia e fazer as pessoas rirem. Mas não é o tipo de profissão que escolhi”, declarou. “Eu venho da década de 1970, quando a gente lutava pela redemocratização, e isso não passou em mim. Gosto de fazer um teatro que possa mexer com as pessoas, que possa trazer alguma coisa a mais.”
Ao voltar a Charlotte, Edwin não tenta recuperar o ator que era em 2007. Ele coloca no palco o homem que se tornou, com novas dúvidas, cicatrizes e instrumentos. A proeza de interpretar 20 personagens continua visível, mas já não é o centro. No reencontro, mais importante do que mudar de voz ou de corpo é revelar que ninguém, nem mesmo uma figura transformada em símbolo de resistência, existe sem contradições.
Teatro Faap – Rua Alagoas, 903, Higienópolis, São Paulo, SP.



