
Bastou uma cena para que Gael decidisse que não queria continuar assistindo. Na tela, Anna Flávia Camargo surgia como Débora, uma mulher cruel, manipuladora e capaz de tramar contra a própria filha. Fora dela, porém, estava a mãe amorosa que ele sempre conheceu. Embora compreendesse perfeitamente que tudo não passava de ficção, o contraste foi forte demais para o menino. “O Gael assistiu a uma cena e estranhou muito. A personagem era tão distante da mãe que ele conhece que não quis continuar assistindo. Ele entende perfeitamente que é ficção e que é o meu trabalho, mas, para ele, foi pesado me ver naquele lugar”, conta a atriz.
A reação do filho talvez seja uma das provas mais sinceras da transformação vivida por Anna em “O Doutor que Marcou Meu Destino”, novela vertical do ReelShort na qual interpreta uma das personagens mais perversas da trama. Débora é mãe de Malu, protagonista vivida por Mharessa Fernanda, mas está muito distante de representar qualquer ideia de proteção ou afeto materno. “Ela é a mãe dela, mas a relação das duas não é nada boa, muito mais pelo caráter de Débora, que é uma vilã mesmo: manipuladora, interesseira, cruel e sempre está tramando alguma coisa com o filho, vivido por Gui Carvvalho. Ele é seu aliado em todos os planos contra a protagonista”, explica.
Lançada no fim de agosto de 2026, a produção alcançou 35 milhões de visualizações em poucas semanas. A novela é um remake de um fenômeno internacional cuja versão original ultrapassou a marca de 100 milhões de visualizações. Na história, Miguel Coelho interpreta Leonardo Medeiros, o mocinho que se apaixona por Malu. Enquanto o romance se desenvolve, Débora e o filho se encarregam de movimentar o conflito, recorrendo a planos e manipulações para atingir a protagonista.

Teatralidade
Se as atitudes de Débora são capazes de provocar revolta, sua construção também carrega certo humor. Anna encontrou na teatralidade e no exagero os caminhos para interpretar uma antagonista que parece ter escapado de uma animação, uma espécie de “bruxona de desenho animado”, como ela própria define.
A personagem fala alto, reage de maneira expansiva e parece estar permanentemente prestes a colocar um novo plano perverso em ação. Essa composição, no entanto, exigiu precisão para que o tom elevado não se perdesse ao longo da narrativa. “Ela é exagerada, teatral, over e está sempre tramando alguma coisa horrível. O texto já pede essa vilania acentuada, então o desafio era sustentar esse tom do começo ao fim”, diz a atriz.
Com direção de Pedro Gui e Marianna Rhosa e preparação de elenco de Romer Canhães, a produção seguiu o ritmo acelerado característico das novelas verticais, formato pensado especialmente para o consumo pelo celular. Para Anna, a velocidade das gravações exigiu entrega, concentração e sintonia entre atores e equipe. “Atuar, para mim, tem esse lugar de mergulhar em outro universo e, ao mesmo tempo, se divertir muito fazendo isso. Gosto da pesquisa, da construção da personagem e dessa possibilidade de viver coisas completamente diferentes. Nesse projeto, tive a sorte de contar com uma equipe muito afinada e um elenco maravilhoso.”

Ficção x maternidade
A experiência de interpretar uma mãe capaz de ferir a própria filha ganhou contornos ainda mais intensos por causa da vida pessoal de Anna. Santista, ela é mãe de Gael, que é autista, e construiu com o filho uma relação marcada pelo cuidado, pela observação e pela busca de novas possibilidades de comunicação e desenvolvimento.
Foi justamente a experiência familiar que levou a atriz a criar o Método 1:1 NM24, fundamentado, segundo ela, em manejo comportamental lúdico e comunicação positiva e assertiva, sem recorrer a agressões físicas ou verbais. Agora, essa trajetória também será transformada em livro. Previsto para 2027, “Autismo e o Princípio das 24 Horas” apresentará a história de Anna e Gael e o processo que deu origem ao método.
“No livro, abordo mais a história dele e como um método baseado em manejo comportamental lúdico e comunicação positiva e assertiva, totalmente contrário a qualquer forma de agressão verbal ou física, transformou-se em algo que se tornou referência na área e ajudou no desenvolvimento dele.”
A atuação de Anna em torno da neurodiversidade também avançará para o debate público. Em novembro, ela estará em Brasília como embaixadora da neurodiversidade em um evento dedicado à conscientização e à discussão de políticas públicas. Na ocasião, apresentará sua experiência e falará sobre o método a representantes das APAEs de diferentes regiões do país.
Entre a vilã que trama contra a própria filha e a mãe que transformou a convivência com Gael em estudo, livro e causa pública, Anna Flávia Camargo transita por universos radicalmente opostos. Se Débora lhe permitiu experimentar o prazer do exagero e da crueldade ficcional, é na vida real que a atriz assume seu papel mais importante, que é o de ampliar o diálogo sobre acolhimento, comunicação e neurodiversidade.



