
Um objeto de resina dividido ao meio, com espelhos em seu interior e unido por uma corrente de prata. A peça só pode ser segurada com as duas mãos e transita entre joia, escultura e performance. É com esse trabalho que Fabiana Queiroga participa da 3ª Bienal de Joalharia Contemporânea de Lisboa, cuja programação segue até 27 de setembro.
A obra integra a exposição “O que nos cega hoje” e nasceu da apropriação de uma bolsa antiga encontrada em um antiquário. Ao reproduzir a textura do acessório e acrescentar espelhos à composição, a artista propõe uma reflexão sobre desejo, instinto e os obstáculos que nos impedem de enxergar o mundo, e a nós mesmos, com clareza. “Talvez nós mesmos estejamos nos cegando”, afirma Fabiana. “É uma obra sobre o selvagem, o indomável e essa dimensão não romântica de Eros.”
Com o tema “Coexistências”, a bienal discute as relações entre o ser humano e a ecologia da Terra. Para a artista, a proposta dialoga diretamente com uma pesquisa construída na interseção entre corpo, matéria e paisagem.
“Coexistir é o que a humanidade e a natureza precisam reaprender. Temos que aprender a nos relacionar não apenas uns com os outros, mas também com o planeta. Eu me arrepio porque isso tem tudo a ver com o que faço. Falo o tempo todo sobre a natureza e tento aproximá-la do corpo.”
Na visão de Fabiana, uma joia deixa de ser apenas adorno quando provoca uma reação e apresenta um discurso. “A arte precisa tocar a pessoa de alguma maneira, seja pela empatia, seja pela estranheza. Precisa fazer você refletir, mesmo que por três segundos, e olhar o mundo de outra forma”, diz.

Espinhos, fronteiras e colonização
Espinhos, fragmentos e estruturas vegetais aparecem com frequência no trabalho da artista. Mais do que elementos formais, tornam-se símbolos de proteção, resistência e demarcação territorial. “Quando falamos de espinho, falamos de uma estrutura desenvolvida biologicamente pela planta para se proteger. O ser humano faz isso o tempo inteiro em seu território”, explica.
Na série “Acúleos”, Fabiana apresenta esculturas retorcidas e pontiagudas que também remetem ao arame farpado. As obras existem nesse encontro entre natureza e construção humana, força e vulnerabilidade.
Essa investigação ganhará novos desdobramentos na residência “Fraturas e Acúleos em Lisboa”, que acontece de 28 de setembro a 25 de outubro na Verso Galeria, em Campo de Ourique, um dos bairros mais charmosos de Lisboa. O resultado será apresentado ao público entre os dias 26 e 31 de outubro.
Durante a residência, Fabiana pretende trabalhar com objetos, aquarela, fotografia e instalação. O ponto de partida será a relação histórica entre Brasil e Portugal, observada a partir de um elemento cotidiano e carregado de simbolismo: a mesa posta. “Vou falar da colonização entre Portugal e Brasil e de como a etiqueta e esse mundo colonizado aparecem sobre a mesa. Quero tratar da hierarquia da mesa posta e da política que sempre foi discutida ao redor dela”, antecipa.
A artista, no entanto, não quer determinar previamente a forma final do projeto. “Tenho a pesquisa escrita, mas ainda não sei exatamente o que vai acontecer. Quero que a residência siga seu próprio caminho.”

Lisboa como matéria da obra
Para Fabiana, a arquitetura é a memória viva de uma cidade. Por isso, ruas, fachadas, feiras e objetos cotidianos de Lisboa também deverão interferir no processo criativo. “Da mesma forma que encontramos a memória de uma cultura na culinária e na língua, também a encontramos nas construções. Quero que a arquitetura permeie meu trabalho e, de alguma maneira, quero permear a cidade com a minha obra.”
Há cerca de três anos, ela passou a carregar esculturas de espinhos na bolsa e a fotografá-las nos lugares por onde viaja. A experiência foi retomada em Lisboa e também deu origem a intervenções discretas durante uma passagem pela Bienal de Veneza. Em feiras portuguesas, Fabiana pretende procurar louças, rendas, bordados e outros objetos que possam ser apropriados e transformados em novas obras. A liberdade para experimentar acompanha toda a sua trajetória. Cerâmica, gravura, pintura a óleo, aquarela, fotografia e escultura aparecem como caminhos possíveis para uma pesquisa guiada pela curiosidade e pelo próprio processo.
“Acho que o artista escolhe a matéria, mas a matéria conduz o trabalho”, resume. “Gosto de aceitar os efeitos e os defeitos, porque eles também podem indicar um novo caminho.”
Oceano
Antes de chegar ao circuito internacional, Fabiana precisou romper fronteiras dentro do próprio Brasil. Nascida em Goiânia, encontrou em São Paulo um território decisivo para o desenvolvimento de sua carreira. “O Brasil é enorme. São várias Europas dentro de um mesmo país. Sair de Goiânia e ir para São Paulo já foi percorrer um território completamente novo, com outra cultura e outra forma de trabalhar”, observa.
Ao recordar os desafios de construir uma trajetória profissional como mulher e viver de arte, ela se emociona. “Costumo dizer que aquilo que fiz em São Paulo em seis anos talvez não fizesse em Goiânia em 20. Hoje, olhando para trás, penso: ainda bem que me permiti esse deslocamento.”
Agora, dividir uma bienal com artistas de diferentes partes do mundo confirma a potência desse percurso. “Atravessar o oceano e entender que o trabalho também é visto aqui é muito gratificante. É importante perceber que aquilo que você está fazendo é bonito, rico e potente.”

Ao final da residência, Fabiana espera que o público se aproxime das novas obras com a mesma curiosidade que orienta sua criação. “Espero que o visitante se deslumbre ou se assombre de alguma maneira. Que se permita observar a obra com um olhar curioso e que aquela experiência lhe acrescente alguma coisa.”
Em Lisboa, a artista não deseja apenas apresentar uma produção já consolidada. Ao transformar arquitetura, memória e objetos locais em matéria criativa, ela permite que a cidade participe da construção da obra, e também a transforme.


