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Vittor Fernando: “Nem tudo precisa virar conteúdo”

por Ligia Kas
25/09/2026
Tempo De Leitura: 8 minutos de leitura
Vittor Fernando – Foto: Gabriel Bientic

Vittor Fernando passou boa parte dos últimos anos fazendo milhões de pessoas rirem diante da tela do celular. Agora, enquanto amplia seu espaço como ator e experimenta novos formatos no audiovisual, ele prepara um movimento que talvez seja um dos mais pessoais (e ambiciosos) de sua carreira: levar para o cinema uma história LGBTQIAPN+ de amor, desejo e descoberta, assumindo não apenas o papel de protagonista, mas também o de produtor.

E haverá uma coincidência e tanto entre ficção e vida real. Em “Os 3 Desejos de Eugênio”, adaptação do livro de Vitor Martins cujos direitos cinematográficos foram adquiridos por Vittor, seu par romântico será interpretado por Gabriel Fuentes, seu namorado fora das telas. “É uma comédia romântica muito sensível e necessária, e me identifiquei muito com a história e com o potencial que ela tem de chegar ao público”, conta Vittor ao CHNews.

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O projeto ainda está nos estágios iniciais de desenvolvimento, mas representa uma mudança importante para um artista que se acostumou a circular entre linguagens. Além de interpretar Eugênio, Vittor participa da produção e começa a se aproximar cada vez mais de outro sonho, o de escrever suas próprias histórias. “Poder atuar e produzir ao mesmo tempo torna o projeto ainda mais especial. Estou acompanhando tudo desde o início e podendo contribuir não só na construção do personagem, mas também nas diferentes etapas da produção. É um desafio grande”, afirma.

Na história, Eugênio tem 26 anos e parte para uma jornada de descobertas amorosas depois de fazer uma lista de desejos de Ano-Novo. Vittor diz que um dos aspectos que mais o atraíram foi justamente a possibilidade de apresentar personagens LGBTQIAPN+ cuja sexualidade não precise ser o centro de todos os seus conflitos. “Desejo mostrar ao público uma história em que eles possam se identificar com personagens que vivem relacionamentos, desejos, dúvidas e descobertas sem que a sexualidade seja necessariamente o único conflito da história.”

Para ele, a leveza não significa esvaziar esses personagens de complexidade. Pelo contrário. “Quero mostrar personagens LGBTQIAPN+ vivendo uma história de amor com liberdade, humor e desejo, como qualquer outra pessoa. Para mim, é importante que essas histórias também possam ser contadas com leveza e representatividade, sem perder a complexidade das relações humanas.”

A presença de Gabriel Fuentes acrescenta outra camada ao projeto. Na vida real, os dois administram atualmente um relacionamento entre São Paulo e Rio de Janeiro, onde Gabriel está trabalhando. Vittor conta que a distância exige organização, mas principalmente parceria. “Aprendemos a valorizar ainda mais os momentos em que conseguimos estar juntos e também a torcer um pelo outro à distância.” E resume a dinâmica dos dois com uma frase que também diz muito sobre a maneira como encara a relação em meio a duas carreiras públicas: “Acho que o segredo é entender que estamos no mesmo time. O sucesso de um também é uma conquista do outro.”

17 milhões

É tentador olhar para os números de Vittor nas redes e imaginar que sua história começou ali. Não começou. Muito antes de acumular milhões de seguidores, ele estudou balé clássico, passou pelo teatro musical e construiu sua formação como ator. Esteve em montagens como “Peter Pan”, “Cinderela”, “Billy Elliot”, “Dzi Croquettes” e “Chacrinha”, além de trabalhos no cinema.

Então veio 2020. Com os teatros fechados durante a pandemia, Vittor começou a produzir vídeos para a internet. Personagens, filtros e humor ocuparam o espaço que naquele momento havia sido deixado pelo palco. O que nasceu como uma maneira de continuar criando ganhou proporções que ele não poderia prever. Hoje, TikTok e Instagram somam mais de 17 milhões de seguidores. “Quando comecei a crescer nas redes e entender aquele conteúdo como trabalho, enxerguei o digital como uma grande vitrine para a minha arte”, lembra.

O tamanho alcançado na internet, porém, poderia criar uma armadilha, e tornar a persona digital maior do que o ator. Vittor diz que nunca enxergou dessa maneira. “Nunca tive esse medo, porque eu já era ator antes de me tornar conhecido na internet.” Para ele, aconteceu justamente o contrário. Parte das pessoas que chegaram por meio dos vídeos passou a acompanhá-lo também no cinema, no streaming e no teatro. “É muito especial perceber como esses universos conseguem se complementar.”

Vittor Fernando – Foto: Gabriel Bientic

Teatro

Essa conexão ganhou outra dimensão quando Vittor voltou aos palcos em 2026, depois do longo afastamento provocado pela pandemia. Em “Qualquer Gato Vira-Lata Tem uma Vida Sexual Mais Sadia que a Nossa!”, comédia de Juca de Oliveira, interpretou Marcelo ao lado de Duda Reis e Paulinho Vilhena.

Voltar ao teatro já conhecido por milhões de pessoas na internet mudou também a relação com a plateia. As redes passaram a servir de caminho para mostrar ensaios, preparação e bastidores, e, principalmente, levar parte daquele público digital para dentro de uma sala de espetáculo.

Mas há algo no palco que, para Vittor, nenhuma tela consegue reproduzir. “O teatro continua tendo uma magia única, porque ali não existe filtro. É o ator, a história e o público compartilhando aquele momento ao vivo.”

Depois do TikTok, Instagram, cinema, streaming e teatro, Vittor também entrou no formato das novelas verticais com “Icônica”, produção do Globoplay pensada para o consumo pelo celular. “É um formato novo, que acredito que veio para ficar”, diz.

A experiência também marcou sua entrada em uma produção dos Estúdios Globo. Para o ator, mais importante do que discutir qual tela é superior é perceber que o comportamento do público mudou.

“Hoje, uma pessoa pode me conhecer por um vídeo no TikTok, acompanhar meu trabalho no Instagram, me assistir no streaming e depois ir ao teatro. Para mim, o mais importante é a história e a forma como ela chega ao público.”

Nem tudo precisa virar conteúdo

Existe, claro, um preço para tamanha exposição. Vittor admite que ter milhões de pessoas acompanhando sua rotina traz liberdade criativa, mas também a expectativa permanente de entregar alguma coisa: ser engraçado, interessante, presente, disponível. Com o tempo, diz ter aprendido que não precisa cumprir esse papel 24 horas por dia. “Também tenho meus momentos de silêncio, descanso e vida pessoal.”

É uma fronteira que aparece diversas vezes quando ele fala sobre a própria vida. O homem que transformou a internet em profissão parece hoje bastante consciente de que nem toda experiência precisa ser oferecida ao público.

“Existem momentos, relações e situações que são só minhas e que prefiro preservar. Quando tiro um momento para curtir com meu namorado, família e amigos, fico mais off, me desligo um pouco e não crio nada.” E completa: “Nem tudo precisa virar conteúdo para ser vivido ou ter valor.”

Talvez esteja aí uma face menos conhecida de alguém que construiu boa parte de sua popularidade por meio do humor. “Existe um lado meu muito mais sensível e reservado, que nem sempre aparece nas redes. Sou uma pessoa que pensa muito, que sonha bastante e que valoriza muito minha família, meus amigos e os momentos mais simples.”

Vittor Fernando – Foto: Gabriel Bientic

Moda

Reservado não significa discreto, pelo menos quando o assunto é moda. A relação de Vittor com esse universo começou ainda na infância. Ele desenhava croquis, devorava revistas e acompanhava desfiles, com especial fascínio por Gisele Bündchen e pelo trabalho de Alexander McQueen. Por algum tempo, chegou a imaginar que a moda seria sua profissão. Não foi, mas ela nunca desapareceu. Como ator, Vittor passou a perceber o figurino como ferramenta para construir personagens. Fora deles, encontrou nas roupas outra possibilidade de narrar quem é. “Acho que moda e atuação se encontram justamente nesse lugar de contar histórias sem precisar dizer uma palavra.”

Quando perguntado sobre uma produção especialmente ousada, ele lembra imediatamente da fantasia de coelho inspirada em “Alice no País das Maravilhas” que vestiu no Baile de Halloween da Sephora. Mas há também uma segunda candidata. Uma produção urbana e destroyed escolhida para assistir a um desfile da Diesel, em Milão. “Deu o que falar”, diverte-se. “Acho que ousadia também passa por isso. Vestir algo que divide opiniões, provoca e faz as pessoas olharem duas vezes. E eu amo!”

Escrever

A multiplicidade ajuda a explicar por que, quando perguntado sobre sua profissão, Vittor escolhe uma palavra ampla. “Eu me defino como artista.”

Ator, criador de conteúdo, agora produtor e, cada vez mais, aspirante a roteirista. É justamente nessa última função que está um dos desejos que ele ainda quer realizar. Vittor conta que trabalha em um projeto autoral e vê na escrita a possibilidade de ocupar um novo lugar na criação das histórias que pretende contar. “Poder contar histórias também por esse outro lugar, além de atuar, é algo que me entusiasma muito.”

É uma ambição que combina com uma trajetória marcada por mudanças de rota. Do balé aos musicais. Do palco para o celular quando o mundo fechou. Do celular novamente para o teatro, cinema e streaming. E agora da frente das câmeras para os bastidores da criação. Mesmo depois de milhões de seguidores e de uma carreira que já atravessou tantas plataformas, Vittor garante que o nervosismo não desapareceu. “Cada projeto novo traz um desafio diferente, seja como ator, criador ou produtor. Acho que o frio na barriga vem de querer fazer bem feito, de me colocar em lugares que ainda não conheço e de saber que sempre existe algo novo para aprender.”

Talvez seja justamente esse desconforto que esteja empurrando Vittor Fernando para sua próxima versão. Aos poucos, o artista que encontrou uma audiência gigantesca contando histórias para a tela do celular começa a querer decidir também quais histórias estarão na tela, e como elas serão contadas.

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