
Um cemitério, um caixão e uma amizade que chegou ao fim. O cenário parece pouco convidativo para uma comédia, mas é justamente entre o luto e o riso que Arlete Salles constrói “Mande Notícias do Mundo de Lá”. Após temporadas no Rio de Janeiro e em São Paulo, o espetáculo reestreia na capital paulista em 17 de outubro, no Teatro Renaissance.
Escrita e dirigida por Carlos Jardim, a montagem marca um momento inédito na trajetória da atriz: depois de décadas de carreira, Arlete encara seu primeiro monólogo. Sozinha no palco, ela interpreta Eulália Eugênia, uma mulher exuberante, cheia de histórias e apavorada com a ideia da morte.
O medo ganha contornos bem concretos quando Eulália precisa ir ao cemitério para se despedir de Rosimere, amiga de muitos anos e muitas aventuras. Como ninguém mais apareceu no velório, cabe a ela se aproximar do caixão e garantir que a companheira não parta se sentindo completamente abandonada. Entre lembranças, confidências e antigas implicâncias, a despedida se transforma em um acerto de contas divertido e comovente. “Eu achava bonito assistir a outros colegas fazendo isso. Achava muito corajoso”, conta Arlete, que nunca havia planejado ficar sozinha em cena. A decisão de aceitar o desafio veio depois de mergulhar no texto. “Você precisa ler mais de uma vez, mais de duas, mais de três, para descobrir as sutilezas, as voltas, as subidas e descidas de um bom monólogo.”

A identificação com Eulália também pesou na escolha. Ao acompanhar uma mulher que olha para a própria idade, suas perdas e o tempo que ainda tem pela frente, a atriz reconheceu experiências muito próximas às suas. “Falo de muitas coisas que estão presentes na minha vida, que eu conheço, que eu sinto, que eu vivencio diariamente”, afirma. Para Arlete, envelhecer pode ser um grande desafio, mas ainda é um privilégio. “É muito pior partir jovem, sem ter aproveitado essa maravilha que é a vida, que é viver.”
Luto e comédia
Jardim escreveu o monólogo explorando uma das principais características de Arlete: a capacidade de passar rapidamente da comédia à emoção. “Arlete tem um tempo de comédia raro, sabe fazer pausas e entonações que valorizam imensamente o texto. E tem uma emoção genuína, que aflora com facilidade”, afirma o autor e diretor. “No texto, abuso das passagens quase bruscas entre o drama e a comédia. E Arlete pula de uma emoção à outra com uma facilidade que impressiona.”
O humor, porém, não serve para esconder a dor. É a ferramenta escolhida para falar sobre perdas, limitações e a consciência de que o tempo passa. “O envelhecimento traz a inevitável constatação de que o fim pode chegar a qualquer momento. Isso pode gerar angústia ou despertar em nós uma urgência de fazer valer o tempo que nos resta”, observa Jardim.

Para o diretor, acompanhar uma atriz consagrada se arriscar pela primeira vez em um solo é parte da força do espetáculo. “É se jogar no trapézio sem rede de proteção”, resume.
“Mande Notícias do Mundo de Lá” fica em cartaz no Teatro Renaissance até 20 de dezembro, com apresentações às sextas-feiras, às 19h30; aos sábados, às 19h; e aos domingos, às 17h.
Teatro Rennaissance – Alameda Santos, 2.233, Jardim Paulista, São Paulo, SP.


